Episódio 1: Ecos na Escuridão

Mesmo a três cavernas de distância, o guincho de metal quebrando ecoou contra a pedra. Mais uma escavadeira quebrada. Se Karn fosse um ser orgânico, ele teria suspirado. Em vez disso, ele apenas parou e ouviu os chocalhos remanescentes da escavadeira. Ele tinha pena de suas máquinas: nenhuma configuração única poderia acomodar a geologia excêntrica das Cavernas de Koilos, onde rocha de olivina tinha tanta probabilidade de dar em arenito quanto em cinábrio, mas ele não tinha alternativa. Aqui, ele encontraria o segredo para operar o silex.
E ele o encontraria antes que qualquer agente phyrexiano pudesse.
A condensação formava gotas em seu corpo, as gotas se juntando para deslizar por sua blindagem metálica. Ninguém parecia acreditar nele, mas ele sabia a verdade. Os phyrexianos estavam aqui, em Dominária. Ele podia sentir isso, como podia sentir a pedra e a tecnologia interplanar crivando suas camadas.
Ele se virou de lado para se espremer por uma passagem estreita. O basalto raspou contra seu peito, mas cedeu sem arranhá-lo. Ele se abaixou sob estalagmites translúcidas em uma caverna baixa. Selenita clara revestia os ossos de prisioneiros thran e tecnologias thran fragmentadas, seus traçados dourados distorcidos.
Karn localizou a escavadeira avariada nos fundos da caverna.
A pobre escavadeira fumegava, como se estivesse irritada com seu trabalho incontrolável, e sua carcaça de metal superaquecida estalava com um suave tink-tink-tink enquanto esfriava. Karn teceu entre as estalactites e poças de água, cuidadoso para não quebrar nenhum dos delicados depósitos minerais violetas ou perturbar as anêmonas de água doce e os minúsculos peixes cegos, branqueados por uma vida que, até agora, havia passado na escuridão.
Karn colocou a mão na escavadeira. "Deo consertar você, então? Sim?"
O vapor suspirou da máquina superaquecida. Ao seu gesto, os parafusos se desenrolaram ao longo de suas roscas. Ele os colocou de lado e removeu a carcaça. Uma engrenagem gasta o saudou. Ele a removeu e começou a gerar uma substituta. Seus dedos formigaram com magia, sua carga se unindo para gerar algo do nada. O metal se materializou, camada sobre camada, para criar uma peça duplicada.
Ele gostava de trabalhar no silêncio das cavernas. Na ausência do sol, apenas o gotejamento metronômico da água media seus dias. Ele estava sozinho aqui; outros Planeswalkers não gostavam da distorção interplanar que irritava seus sentidos nas Cavernas de Koilos. Karn também não gostava, mas apreciava o isolamento que isso lhe dava. Ele não precisava responder a perguntas. Ou se preocupar se os phyrexianos haviam chegado a alguém. Completado eles. Ele podia buscar a chave para operar o silex em solitude. Ele venceria a luta sozinho.
"Que luta?" Jhoira havia colocado as mãos nos quadris em exasperação. "Karn, os phyrexianos foram derrotados séculos atrás, e esses novos que você me falou estão presos em seu plano."
"Eles estão aqui", Karn disse a ela. "Derrotar os phyrexianos em combate não significa nada. Eles não são um exército. Eles são o ódio personificado. Eles prometem a destruição de Dominária."
A voz dela suavizou. "Só porque Venser "
Karn não queria pensar em Venser. Ele deslizou a engrenagem em seu eixo e a apertou. Substituiu a carcaça, deslizando-a no lugar, e então enroscou cada parafuso. Pequenos prazeres. Ele deu um tapinha na escavadeira e sorriu. "Isso está melhor, não está?"
Ele sabia que ela não estava viva, não estava respondendo a ele, mas quase parecia que estava enquanto ele acionava uma alavanca e observava a escavadeira se mover para frente e começar a cavar na parede da caverna. A pedra estremeceu. Poeira branca e fina saía das pás-membros da escavadeira. Se seres orgânicos estivessem presentes, Karn teria que se preocupar em usar água para baixar a poeira. Seus pulmões eram tão frágeis.
Melhor que ele estivesse sozinho, não era? Ninguém o atrasava, comendo e dormindo horas a fio. Ninguém atrasava seu progresso com conversas fiadas.
A rocha pulverizada tornou-se violeta, então o ronco da escavadeira mudou para um zunido quando atingiu o ar livre. A escavadeira recuou, e Karn espiou na caverna que ela havia aberto.
A rocha fora fina como uma casca de ovo, mas extremamente dura. Do outro lado, o interior da caverna era revestido de opala. O brilho de seus olhos pegou nas manchas iridescentes, banhando a caverna com um vislumbre âmbar. A oficina coberta de poeira parecia vir do tempo de vida mortal de Urza, ou até antes, quando as teorias e práticas da magia eram menos conhecidas, e a tecnologia impulsionava o progresso de Dominária. Tubos de vidro intrincados, béqueres de vários tamanhos, queimadores extintos, restos pulverulentos de produtos químicos antigos, cortadores de arame e rolos para argila, baldes revestidos com esmaltes ressecados, engrenagens e dentes — até mesmo uma pequena forja ventilada, pinças colocadas casualmente de um lado como se seu ferreiro, interrompido, tivesse se afastado de uma tarefa inacabada. Em um canto, grilhões: um lembrete de que as Cavernas de Koilos uma vez abrigaram a feiura dos thran antes de se transformarem em Phyrexia.
Esta oficina fora o santuário de algum artífice — e o pesadelo de algum prisioneiro. Karn reconhecia uma configuração destinada a explorar seres sencientes para experimentação quando via uma. Ele vira muitas cenas assim quando fora recém-formado.
"Como tudo isso sobreviveu tão intacto?" Se ao menos ele pudesse compartilhar esta visão com alguém —
Ele realmente precisava parar de falar sozinho.
Karn entrou na caverna tão levemente quanto seu corpo pesado permitia. E se uma vibração perdida fizesse esses objetos delicados se estilhaçarem, destruindo dados?
Os livros, dispostos em uma única prateleira longa com lombadas cobertas de joias, o tentavam com seu conhecimento, mas ele não ousou pegar nenhum. O papel provavelmente se transformaria em poeira se ele o tocasse. Ele espiou nos béqueres, manchados com fluidos secos, e então examinou as cinzas da forja. Nada. Ele examinou a bancada de cerâmica e viu: um diagrama do silex pintado em pergaminho, uma bacia de cobre com alças e pequenas figuras pretas marchando ao redor de sua base. Uma placa cinza de argila estava ao lado do diagrama, gravada com símbolos duplicando aqueles retratados na tinta desbotada do diagrama. Alguns estavam em thran; alguns nas curvas arqueadas de uma escrita irreconhecível que se assemelhava a alguns símbolos no silex. A argila estava danificada, parcialmente ilegível, e fios cortados jaziam ao lado dela. O que havia acontecido aqui?
"Devo comparar isso com o silex."
À vibração fraca de suas palavras, os livros desmoronaram em poeira. Karn estremeceu.
Ele recolheu a placa de argila não cozida em suas mãos — cuidado, cuidado — e saiu da antiga oficina.
Karn havia instalado seu acampamento base a certa distância das escavadeiras, onde as cavernas tinham maior estabilidade. Cada tenda suavemente iluminada protegia seu equipamento do gotejamento constante de água. Karn deixou que o brilho delas guiasse seus passos, a caverna oca ressoando com suas pisadas.
Com as tendas iluminadas por dentro, voltar ao acampamento quase parecia voltar para casa. Karn abaixou-se na maior tenda, desviando do grande artefato thran dourado que havia deixado na frente da entrada. Lá dentro, ele passou por uma peça de metal quebrada que havia coletado dias atrás, pretendendo remodelá-la para que voltasse a ser útil. Passou por uma pilha de fragmentos de pedra de poder e sentou-se em sua mesa de trabalho; ela, como o resto de sua tenda, estava entulhada demais — ele não tinha espaço para sua nova descoberta. No topo dos papéis e pequenos artefatos, ele viu as cartas de Jhoira, espalhadas, abertas mas sem resposta. Karn, já faz meses , começava uma carta. Você não acha que deveria examinar por que está fazendo isso? Outra carta terminava. Mirrodin não foi sua culpa , ela escreveu em outra. Por favor, volte. Venser teria . . .

Karn moveu o artefato para uma palma e usou a outra mão para empurrar as cartas de Jhoira para o lado. Ele deslizou o artefato para a bancada e então se abaixou sob a mesa. Ele havia escondido o silex em um pequeno baú de titânio, sua fechadura acessível apenas a alguém como ele, alguém que conhecia a ordem em que os pinos precisavam ser levantados e podia manipular materiais inorgânicos. Sua fechadura não tinha chave.
Ele colocou a mão no baú, concentrou-se e sentiu os pinos se moverem. A tampa abriu. Ele removeu o silex. Mesmo seus sentidos especializados não conseguiam identificar seu material semelhante ao cobre. Normalmente ele podia revelar o mistério de qualquer objeto inorgânico com um toque; não o silex. Suas palmas coçavam com sua estranheza. Um artefato thran, a maioria dizia — mas ele tinha suas dúvidas. Karn acreditava que este dispositivo vinha de campos mais distantes do que simplesmente o passado.
Ele ergueu seu corpo de cálice largo para sua mesa. Seus caracteres cor de tinta pareciam se mover sob a luz de sua bancada, transformando-se de thran para fallaji para sumifan. A boca larga e em forma de tigela do vaso parecia pedir para ser preenchida — com, de acordo com o sumifan, as memórias da terra. Ele estava relutante em testá-lo sem confirmação sobre como usá-lo.
O silex enviou um solavanco através dele. Karn recuou e retirou a mão, aninhando-a contra o corpo.
Uma vez, quando ele era novo, ele estendeu a mão e tocou o fogo que ardia na lareira de Urza. Ele havia deixado cair o carvão vermelho-cereja, chocado com a sensação, então examinou sua mão em busca de danos. Não encontrou nenhum. Ele olhou para cima e viu Urza observando-o com olhos brilhantes. Urza não tentara impedi-lo, mas sabia que isso machucaria Karn. Por que me deste inteligência se não valorizas minha individualidade? Karn sentiu-se envergonhado no momento em que fez a pergunta, e sim, Urza deu uma risadinha. Você é mais valioso para mim se puder reagir de forma inteligente. Karn olhou para sua mão dolorida e intacta. Então por que me dar dor? Urza sorriu e acariciou sua barba branca. Karn mais tarde aprendeu a reconhecer aquela expressão como uma que Urza fazia quando pensava que estava sendo particularmente inteligente. As pessoas ficam mais relutantes em danificar algo se isso causa dor a esse algo.
Mas isso era verdade apenas para algumas pessoas, não era?
Karn olhou para as cartas não respondidas de Jhoira. Ele não ousava envolver Jhoira ou os outros Planeswalkers, para não perdê-los para os phyrexianos como havia perdido Venser. Mesmo depois que Memnarch o renomeou, Karn ainda pensava naquele plano por seu primeiro nome: Argentum. Fora Argentum para ele quando ele o criara e suas menores maravilhas. Como era belo, um plano brilhando com precisão matemática.
Os phyrexianos o tiraram dele. Seu plano, seus filhos. Memnarch, sua criação.
E era tudo culpa dele.
Ele pegou um pano de uma pilha próxima para limpar a condensação de seu corpo — ele não queria pingar em sua nova descoberta não cozida — e jogou o pano de volta no monte. Ele se inclinou para estudar o silex, comparando seus símbolos com os da placa de argila. O padrão mudava exatamente onde a borda da placa de argila parecia mais áspera. Quebrada. Ele havia esquecido um pedaço?
Ele precisava voltar para buscá-lo. Agora. Como ele havia aberto a caverna para a umidade das cavernas, os artefatos nela iriam se degradar.
Nesse momento, o estertor da morte de outra escavadeira ecoou pelas cavernas. Karn desejou poder suspirar. Mas, como as coisas eram, ele trancou o silex e sua descoberta mais recente. Ele consertaria a escavadeira — ela estava localizada perto da antiga oficina de qualquer maneira — e então procuraria o pedaço que faltava.
Fumaça oleosa saía da carcaça da escavadeira. Parecia ter atingido um depósito mineral duro, forçando os mecanismos por trás das ferramentas de corte. Karn deu um tapinha nela. "Mais do que você podia suportar?"
A máquina soltou uma lufada de fumaça.
"Eu conheço a sensação", Karn respondeu.
Antes de começar, ele espiou ao redor da borda do túnel. A oficina próxima, apesar dos ruídos da escavadeira, parecia intacta. Bom. A escavadeira poderia continuar seu trabalho sem o risco de danificar aqueles artefatos, então. Depois de consertá-la, ele vasculharia a oficina em busca do pedaço que faltava da placa de argila.
Ele puxou a máquina para longe e alcançou a parede onde ela estava cavando.
Ele retirou algo líquido. Uma gosma preta oleosa pingou de seus dedos, salpicando o chão. Poderia ser ?
Karn alcançou com seus sentidos especiais o material. Para ele — ele tentara explicar isso a Jhoira uma vez — essa habilidade era semelhante a degustar, se a degustação pudesse fornecer informações além do sabor. Ele não sentiu nada. Como se essa substância fosse orgânica.
Como os cabos foram incorporados na pedra? Parecia quase como se tivessem se tecido nela, como vermes através de uma maçã que, de outra forma, estaria intacta.
Ele estava certo: o óleo era phyrexiano. Ele verificou novamente — poderiam essas fibras ser vestígios antigos? "Não, não", ele murmurou. "Elas parecem recentes. Frescas."
Karn alcançou o buraco e pegou uma das fibras. Ela se contorceu sob seus dedos, resistente, e soltou pequenos grampos semelhantes a aranhas de seu corpo para agarrar a pedra. O cabo estava vivo. Ele franziu a testa. Ele chicoteou as pontas de seus dedos como se tentasse se livrar de seu aperto. Ele puxou com força e arrancou-o de sua cavidade escavada.
Óleo preto espirrou em seu torso a partir de sua raiz. Os outros cabos se contraíram dentro da parede — e o teto da oficina antiga desabou no chão. O túnel atrás de Karn desmoronou, a passagem para seu acampamento base desapareceu.
Ele havia perdido suas descobertas.
Ele nunca encontraria o fragmento da placa não cozida. Ele nunca o encaixaria para ver o que ele revelaria. Ele nunca investigaria totalmente a câmara e determinaria se ela abrigava outros segredos sobre a criação do silex. Este desenvolvimento recente cuidara disso. Agora ele tinha um problema mais urgente, um que ele precisava priorizar sobre a catástrofe arqueológica: os phyrexianos estavam em Dominária. Aqui, agora.
Ele poderia tentar escavar a oficina. Ele poderia cavar a passagem e retornar ao seu acampamento base. Ele poderia procurar os outros, mas buscar ajuda levava tempo e, Karn sabia, colocava outros em risco. Se ele aprendera alguma coisa durante sua longa vida, fora isto: um único momento de desatenção, de negligência, poderia deixar um plano inteiro vulnerável aos phyrexianos. Os phyrexianos estavam contidos dentro das cavernas por enquanto, e ele com eles. Bom. Ele não deixaria Dominária cair como Mirrodin caiu uma vez. Ele deteria os phyrexianos. Se não pudesse fazer isso, obteria provas suficientes para poder recrutar reforços. Provas suficientes para que Jhoira, e seus companheiros Planeswalkers, acreditassem nele.
Karn , Jhoira diria, você estava certo o tempo todo.
Karn tinha apenas uma direção para onde ir: em frente. Ele entrou no túnel phyrexiano aberto. As paredes pareciam orgânicas, serpenteando pela pedra como veias através de um corpo.
Ele seguiu o túnel até que ele se abriu em um entroncamento. Aqui, as paredes haviam sido esculpidas em um friso. Ao contrário dos materiais que vira na oficina e embutidos atrás da pedra translúcida, esses cortes pareciam nítidos e novos. Tinha a qualidade abobadada que Karn associava a práticas religiosas, como os murais de vitrais nos templos de Serra.
No friso, um demônio phyrexiano agarrava uma jovem humana. O crânio alongado do demônio, dentes à mostra e olhos pequenos eram retratados com detalhes amorosos. Cada nó de maquinaria e cada fibra muscular exposta fora polido até brilhar. Pequenos diamantes foram incrustados como destaques para que o demônio parecesse se mover e brilhar sob o olhar de Karn. Em contraste, o perfil da humana, cortado na pedra, era rústico, suas feições distorcidas em tormento, repulsa e medo. Ela estava de mãos dadas com outra figura cujo rosto fora esculpido e depois intencionalmente desfigurado.

Um sussurro de pano roçando na pedra chamou a atenção de Karn. Ele se virou, com a mão ainda pressionada contra o mural.
Os humanos sempre pareciam tão pequenos para Karn. Apenas os mais altos chegavam perto de sua altura; todos os outros eram pequenos comparados a ele. Estes dois — um homem e uma mulher — eram ambos pequenos. A mulher, sua pele pálida faminta de luz solar e seu cabelo castanho esfarrapado, substituíra sua mandíbula por um mecanismo articulado, pequenas lâminas instaladas ao lado de seus dentes naturais. Onde a carne se juntava ao metal, suas crostas choravam um fluido doentio e amarelado. Seu companheiro mais velho, um homem branco com cabelos loiros quebradiços e grisalhos, deve ter incorporado sua tecnologia de forma mais artística: sua camisa branca estava aberta para expor o coração artificial batendo entre suas costelas, o portal para seu corpo protegido com um material vítreo. Ele também havia adicionado dedos extras às suas mãos.
Ambos seguravam cinzéis e grandes marretas. Os escultores, então. Acólitos da Sociedade de Mishra, se suas vestes lhe diziam a verdade. A mulher olhou para Karn, depois para sua mão repousando no friso, e gritou em indignação. Ela se lançou para frente. Seu companheiro masculino seguiu-a um segundo depois.
Ela deu um golpe em seu torso com o martelo. Karn agarrou o braço dela com uma das mãos, e ela dirigiu seu cinzel em direção às placas intrincadas e móveis ao longo de seu abdômen. Ele agarrou o outro braço dela. Ela grunhiu, esforçando-se contra ele. Seu companheiro correu em direção a Karn, erguendo o martelo sobre o ombro. Karn balançou a mulher contra o companheiro, jogando ambos contra a parede. Eles caíram em um emaranhado de membros — nada quebrado, apenas atordoados — no chão.
Karn inclinou-se sobre eles e organizou seus membros. Estendeu as mãos e gerou restrições para que não pudessem atacá-lo novamente. Partículas de ferro zumbiam na ponta de seus dedos, extraídas do éter. Ele invocou o metal em camadas, construindo as restrições em bandas em seus braços e pernas. Ele não gerou fechaduras ou uma chave, pois não tinha necessidade. As bandas de metal eram sólidas.
O homem gemeu. A mulher tinha fúria suficiente nela para cuspir em Karn. O cuspe caiu perto de seu pé. Eles eram tão minúsculos. Sua força, seus reflexos, os fatos de seu corpo pareciam uma vantagem injusta. Karn havia dilacerado tantas criaturas assim a pedido de Urza, caminhando através de fileira após fileira de soldados como um peso de chumbo através de papel molhado. Ele quase podia sentir isso agora: a resistência, depois a entrega, daqueles corpos; o calor de seu sangue escorrendo em suas juntas. As longas horas que passara enquanto Urza dormia limpando seu corpo com pequenas escovas de arame, raspando o sangue seco, cavando os coágulos de trás de seus joelhos. Ele nunca se sentira limpo o suficiente.
"Vocês não são phyrexianos", disse Karn, "no entanto, estão aqui e, se não me engano, a serviço deles. O que esperam alcançar?"
"Você — você é uma carcaça vazia e sem carne. Você profana nosso trabalho sagrado com seu toque." A raiva da acólita se transformou em uma satisfação cintilante. "Outros responderão à quebra da barreira. As bênçãos de Gix sobre eles — eles virão. Eles virão."
Ah, sim, a rede de fios nas paredes. Quando ele os rompeu, provavelmente acionou um alarme. Talvez esses primeiros acólitos tivessem respondido como se algum animal ou evento natural tivesse cortado os cabos, mas quando esses dois não relatassem o retorno, os outros não cometeriam tal erro. Karn estendeu a mão para o rosto da mulher e, com um giro de seus dedos, gerou uma mordaça de metal. A única razão pela qual ela não gritou por ajuda — os sons seriam carregados nestas cavernas — foi porque ainda não lhe ocorrera.
Ela o encarou, fazendo ruídos abafados que pareciam maldições.
Ele se inclinou sobre o acólito masculino. "O que você está fazendo aqui?"
O homem piscou para Karn. Suas pupilas haviam dilatado para tamanhos diferentes. Ele estava com uma concussão. Sua fala, como resultado, estava arrastada. "Karn. Eu conheço você. É bom que você tenha vindo."
Karn franziu a testa.
"A Sussurrante tem um plano para você." O acólito sorriu. "Ela se torna mais forte a cada dia, e você a servirá. Sheoldred lhe dá as boas-vindas! É o seu destino, Karn, criar para nós. Ajudar-nos. Tornar-se um de nós."
Karn gerou outra mordaça para que este, quando recuperasse os sentidos, não pudesse pedir ajuda. O acólito aceitou a mordaça — quase como se a apreciasse — com um sorriso beatífico.
Karn se afastou.
Como Sheoldred sobrevivera à travessia entre planos? Uma pergunta que ele ponderaria mais tarde: por enquanto, ele tinha que encontrá-la, para acabar com a invasão phyrexiana antes que ela começasse. E ele poderia fazer isso sozinho. Melhor que fizesse, pois não poderia ser subvertido. A centelha de Venser o salvou disso.
Karn deixou os acólitos amarrados e amordaçados e mergulhou mais fundo na rede de cavernas. A umidade nestas passagens não parecia o ar ao redor de seu acampamento, mas sim quente como o fôlego. O ar quente e úmido condensava-se em seu corpo frio, escorrendo em riachos como suor. Gritos fracos reverberavam pelo ar.
O túnel abriu-se em uma vasta caverna, que ecoava com a cacofonia da miséria humana. Do outro lado da fenda estava o local de concentração phyrexiano, localizado em uma área plana e ampla do chão da caverna. Trabalhadores semelhantes a formigas corriam pelas pontes de corda estendidas sobre a fenda, transportando nacos de carne, cabos ensanguentados e pedaços de carne para humanos que estavam sendo completados em mesas cirúrgicas. Na parede oposta da caverna, uma nave de portal phyrexiana cortava a escuridão como uma foice imensa. Bobinas pendiam desta estrutura. O brilho púrpura membranoso dos laços que se contorciam lembrava Karn de intestinos.
Sheoldred estava suspensa nesta massa. Ela estava imóvel. Tubos alimentavam substâncias avermelhadas e leitosas em seu corpo negro segmentado. As mandíbulas que se estendiam de seu tórax estavam abertas, relaxadas. Seu torso humanoide, soldado ao topo do tórax, jazia aninhado em uma rede espessa de linhas cor de tinta que se contorciam. Uma máscara com chifres ocultava seu rosto. Abaixo dela, adoradores agarravam-se uns aos outros e erguiam suas vozes em um hino extático.

A nave de portal phyrexiana desativada e a forma adormecida de Sheoldred dominavam a caverna. Acólitos nas vestes cinzas da Sociedade de Mishra atendiam máquinas cirúrgicas que convertiam pessoas em luta em abominações phyrexianas. Monstruosidades completadas pontuavam o chão da caverna como obras de arte grotescas, esgueirando-se em membros demais. Mais acólitos empilhavam armas ao lado de uma nau voadora phyrexiana. Equipes de emendadores escalavam uma máquina dragão para consertá-la, tão pequenos que seus maçaricos de soldagem pareciam estrelas brancas contra o esqueleto de metal da máquina.
Ele encontrara o ponto de concentração da invasão phyrexiana.
Uma única figura atendia Sheoldred: uma jovem mulher com pele de bronze-platina e cachos de umbra escura que vestia o manto da academia tolariana. Quando ela se virou, Karn viu o ponto vermelho de um olho mecânico. Abaixo, um acólito correu para frente e ofereceu nacos de carne. A jovem os separou, entrelaçando alguns na massa que sustentava Sheoldred. Karn seguiu a linha de acólitos carregando materiais da imensa monstruosidade para Sheoldred e sua ajudante. Ela estava minerando a monstruosidade para reparar os componentes biológicos danificados de Sheoldred.
Se os outros Planeswalkers pudessem ver isso agora, saberiam que os temores de Karn eram verdadeiros. Jhoira diria —
Não. Não importava o que Jhoira diria. Karn enfrentava esta ameaça sozinho. Ele precisava alertar os outros, sim, mas também não podia deixar este local de concentração intacto. Ele tinha que destruir os phyrexianos antes que pudessem se defender.
Com seu curso de ação decidido, Karn estendeu a mão, com a palma para cima. Ergueu a outra mão sobre ela. Visualizou o dispositivo incendiário que planejava gerar de dentro para fora. Ele podia ver cada componente seu, seus produtos químicos, dispostos como um projeto dimensional. As pontas de seus dedos zumbiam com a magia de sua criação. As camadas de material acumulavam-se no ar. Não era um silex, mas acabaria com Sheoldred.
Uma sirene encheu a caverna com seu grito agudo.
Karn localizou sua fonte enquanto acólitos, adoradores e agentes phyrexianos pausavam em seu trabalho: a acólita que o atacara estava tocando uma trombeta. Ou ela fora descoberta e libertada, ou se libertara sozinha: o inconveniente de deixar seus atacantes vivos.
O som estridente incitou a ação. Acólitos carregaram armas nas naus voadoras. Cirurgiões phyrexianos carregaram suas mesas de operação ensanguentadas nas naus voadoras. Outros embarcaram nas naus voadoras, evacuando. Monstruosidades phyrexianas completadas estremeceram à vida, fibras metálicas serpenteando de seus corpos. Outras caíram no chão. Membros semelhantes a garras explodiram de seus abdômenes e suas bocas escancaradas abriram-se cegamente, como répteis farejando presas.
Um feixe vermelho pontuou o peito de Karn.
Karn jogou-se no chão sobre a rocha exatamente quando um raio de eletricidade voou por cima. Ele pressionou as palmas das mãos no chão, erguendo-se o suficiente para rastejar para frente. Na beira do penhasco, ele espiou para o chão da caverna, tentando localizar a origem da explosão.
A tolariana que ajudava Sheoldred nivelou uma glaive para ele. Ela substituíra seu olho por um canhão de raios miniaturizado, e seu feixe vermelho atingiu Karn. Karn rolou para o lado. Um estalo explodiu a rocha ao lado dele. Fumaça subiu de onde ele estivera deitado.

Phyrexianos completados fervilharam em sua direção, e a tolariana sorriu. Ela colocou a mão na garra inerte de Sheoldred. Sheoldred permanecia inerte, imóvel — como se estivesse sob sedação enquanto a jovem trabalhava para restaurá-la — e vulnerável.
E Karn ainda segurava seu dispositivo incendiário.
A ponte mais próxima de Sheoldred estava perto, mas era estreita. Doze adoradores extáticos e a jovem com a glaive bloqueavam seu acesso à Pretora. Mas Sheoldred parecia estar a certa distância dos phyrexianos e acólitos tolarianos localizados no chão da caverna. Se Karn fosse rápido, ele não teria que lutar contra todos os seguidores de Sheoldred para atacá-la: apenas os doze adoradores, sendo a tolariana a décima terceira.
Karn levantou-se e investiu pela ponte de pedra estreita. Os adoradores de Sheoldred cessaram seu hino e lançaram-se em sua direção. Dois alcançaram a ponte. Karn empurrou-os para o lado no abismo da fenda.
Os outros adoradores aglomeraram-se em um bloqueio. Dois nivelaram lanças para ele, o que o teria mantido à distância se ele fosse uma criatura de carne. Armas perfurantes o incomodavam apenas se as hastes ou lâminas ficassem presas em suas juntas e inibissem sua amplitude de movimento. Da mesma forma, os dois jovens com serras rotativas não o detiveram: aquelas lâminas ricocheteariam em seu corpo. Não, Karn concentrou-se nos adoradores que empunhavam cinzéis de pistão e maçaricos de soldagem.
Tudo voltava para ele com tanta facilidade. Ele sentia-se entorpecido, eficiente. Como Urza o fizera. Karn parou a uma polegada das pontas das lanças. Os adoradores agitaram-se, inquietos. Karn deu um passo à frente, agarrou uma lança e ergueu-a. Um adorador, ainda agarrado à sua arma, ficou boquiaberto e pendurado. Karn balançou-o contra os inimigos, varrendo vários para fora da ponte e quebrando o bloqueio deles. Então ele jogou o lanceiro nas profundezas da fenda, os gritos do homem desaparecendo enquanto ele caía.
A outra lanceira, uma mulher mais velha, enterrou a ponta de sua lança em uma fresta em seu torso. Embora segurasse um dispositivo incendiário, ele quebrou a haste da lança golpeando seu punho para baixo, quebrando-a por dentro. Ele lidaria com isso mais tarde. Agarrou a extremidade quebrada da haste, que ela ainda segurava, e usou-a para jogá-la para o lado. Ela caiu e encolheu-se.
Restavam apenas seis combatentes.
O portador de uma serra rotativa balançou seu instrumento zumbinte na cabeça de Karn. Karn deu um passo atrás para esquivar. Antes que a serra pudesse voltar, ele deu um passo para dentro do alcance do portador e removeu a ferramenta dos dedos do homem. O homem tentou resistir, mas Karn tinha uma força esmagadora do seu lado. Arrancar o aperto do homem foi perturbadoramente fácil. Karn ergueu-o e jogou-o contra mais dois adoradores. A força esmagou os três no chão em uma confusão doentia de membros quebrados.
Um portador de cinzel de pistão atacou-o pelo lado. O cinzel bateu em Karn e depois deslizou pelo seu braço, tirando o equilíbrio de seu usuário. Karn deu-lhe um soco. O homem voou. Os dois adoradores restantes fugiram; sua fé não era tão grande diante de tal dano corporal. Todos esses humanos, mesmo com as alterações phyrexianas, não eram mais robustos para ele do que borboletas. Karn desejava que não fosse tão fácil.
Ele caminhou até Sheoldred. Ela jazia, inerte em seu berço, mas não mais quieta. Seus membros segmentados contraíam-se como um aracnídeo enquanto ela emergia para a consciência. Seu torso humano sobre o tórax estremeceu. Seus dedos longos estenderam-se para baixo para a jovem nas vestes tolarianas. Mas ela não parecia consciente — ainda não.
"Karn." A tolariana falou com desprezo. "Ouvi muito sobre você."
"Como assim?"
O olhar dela moveu-se para a forma inerte de Sheoldred, e então retornou a ele. "Você não é tão impressionante quanto fui levada a acreditar."
Karn caminhou em direção a Sheoldred, o dispositivo incendiário na mão.
"Quem é você?" Karn perguntou à tolariana. "Por que você traria isso para cá?"
"Rona. E isto," ela gesticulou para Sheoldred, "é a salvação de Dominária."
Rona posicionou-se entre Karn e Sheoldred, a glaive segurada com facilidade e em ângulo em suas palmas. O olho de carne de Rona estreitou-se enquanto seu soquete mecânico focava seu laser no torso de Karn. Ela flexionou as mãos ao redor de sua glaive. Sua lâmina brilhou, crepitando com eletricidade azul. Ela sorriu.
"Eu não desejo lutar com você", Karn disse a ela.
"Pena."
Rona nivelou sua glaive para ele, e eletricidade explodiu de sua lâmina.
A eletricidade dançou pelo seu corpo, faiscando. Karn fez uma careta de dor, mas atravessou-a, caminhando em direção a ela enquanto mais ondas ondulavam de sua lâmina, derramando-se sobre ele. Karn parou, atordoado, e tentou sacudir a agonia enquanto Rona continuava a atacar. Ela desceu a glaive, prendendo-a em seu ombro. Karn girou, puxando-a de seu aperto, e removeu-a de seu corpo. Ele jogou-a de lado. Enquanto ele estava ocupado, Rona desembainhou uma adaga e enterrou-a em uma de suas costuras abdominais. Ela cavou entre as placas que lhe permitiam flexionar, como se procurasse por órgãos. Karn estremeceu.
Karn segurou a cabeça dela em uma de suas mãos. Pressionou o polegar no olho mecânico e estilhaçou a lente do raio. Rona gritou e chutou. Karn jogou-a contra a parede. Ossos estalaram. Ela bateu nela e depois caiu no chão. Encolheu-se, as mãos ao redor da cabeça, a perna em um ângulo não natural para seres humanos. Óleo e sangue escorriam das partes mecânicas quebradas em sua órbita ocular. Ela o encarou entre os dedos, os lábios esticados em um esgar.
"Por que você não me mata?" Rona provocou-o. "Acabe comigo."
"Eu não sou uma arma."
Karn aproximou-se de Sheoldred, segurando seu dispositivo incendiário. Embora sua parte humanoide fosse do tamanho de uma mulher comum, ela estava presa a um corpo semelhante ao de um escorpião com facilmente três vezes o tamanho dele. Em contraste com aquela beleza bem trabalhada, os materiais orgânicos enxertados em seu torso humano pareciam rudimentares, sangrentos. Rona tentara o seu melhor para substituir as partes orgânicas que haviam queimado nas Eternidades Cegas durante o trânsito de Sheoldred entre planos, mas sua natureza de retalhos aparecia.
Ele a despedaçaria. Ele a esmagaria enquanto ela ainda estivesse fraca. Ele faria qualquer coisa — qualquer coisa — para impedir Sheoldred de phyrexianizar este plano. Karn estendeu a mão e agarrou o torso de Sheoldred, determinado a acabar com isso. Ele colocaria este dispositivo entre as placas vulneráveis do corpo dela e a destruiria.
Ao seu toque, Sheoldred agitou-se. Sua cabeça com capacete inclinou-se para baixo em sua direção. Ele podia senti-la com os mesmos sentidos que usava para determinar a composição elemental de um composto. Seus componentes inorgânicos estendiam-se diante dele como as páginas de um livro. Suas partes biológicas jaziam como tumores escuros aninhados dentro da glória luminescente do metal. Ele podia ler seus pensamentos — alguns deles.
Bem-vindo, Pai , Sheoldred sussurrou em sua mente, um ser mecânico para outro. Que planos eu tenho para você.
Karn recuou de seu sussurro viscoso, dando um passo atrás. E ele soube o que ela fizera.
Agentes adormecidos phyrexianos espreitavam em todas as terras de Dominária, esses espiões inconscientes espalhados por todos os governos, por todo o exército, por todo o povo comum. Ele viu um cervejeiro despejando lúpulo em uma tina. Um espião. Viu uma escriba sentada em uma mesa, a mão pairando sobre uma carta. Viu um adolescente brincando de pega-pega com seus primos, fingindo ser um monstro quando ele era um, a armadura phyrexiana pronta para explodir de suas costas. Agentes phyrexianos eram amantes das pessoas, camaradas, colegas de trabalho. Eles estavam em toda parte. Poderiam ser qualquer um.
Bem-vindo , o sussurro dela ecoou dentro dele. Bem-vindo.
Karn alcançou entre as placas de seu tórax e depositou o dispositivo incendiário dentro de seu corpo. Ergueu o polegar para acionar o interruptor que permitiria que os dois produtos químicos dentro dele fluíssem um para o outro e entrassem em combustão.
Mas sua mão não se moveu. Suas juntas haviam travado. Ele tentou olhar para baixo para examinar a si mesmo, mas até seu pescoço permaneceu rígido. Tentou se virar e não conseguiu mover os braços, pernas ou torso. Não conseguia dizer se fora paralisado ou travado no lugar.
Em sua visão periférica, ele podia ver Rona arrastando-se — com lente estilhaçada, perna quebrada e tudo — em direção a dispositivos mágicos desconhecidos, que ela mesma devia ter criado. Ela deixou um rastro de óleo, sangue e fluido azul fluorescente atrás de si.
Karn esforçou-se contra a estranha magia que o prendia.
Rona alavancou-se para uma posição sentada. Pelos seus grunhidos, parecia agonizante.
"Seu erro", disse ela, "foi não me matar quando teve a chance. Esperávamos sua vinda, Karn. Nós nos preparamos."
Ele tentou se mover novamente, seus mecanismos internos gemendo com o esforço, e sentiu seu metal sofrer torção. Ele dobraria — quebraria — antes de se libertar da magia de Rona através da força.
Rona separou as peças empilhadas que estivera usando para reparar Sheoldred. Ela ergueu um nódulo, sorriu e colocou-o de lado. Com uma careta, ela enterrou os dedos em sua órbita ocular danificada e arrancou o nódulo arruinado, expondo tecido vivo e um pedaço de crânio brilhante perto de sua sobrancelha. Um jorro de líquido claro espirrou para fora. Ela encaixou o novo nódulo no lugar.
Rugidos ressoaram pela caverna. Rocha peneirou para baixo, batendo contra o corpo de Karn.
"Aquele", disse Rona, "foi o som de nossas naves evacuando nossas forças desta área de concentração — que foi comprometida — e recuando para uma área de concentração secundária. Temos muitas bases por toda Dominária. Você não encontrará todas elas."
Rona enterrou sua glaive na perna. Grunhiu, cortando sua roupa e sua carne. Seus olhos lacrimejaram — até o olho que ela substituíra pingou. Arfando, ela expôs seu músculo e seu osso quebrado ao ar da caverna.
Karn falhara. Preso pela magia de Rona, ele seria incapaz de avisar seus amigos, incapaz de lutar ao lado deles, incapaz de salvá-los quando os agentes phyrexianos completados explodissem de seus companheiros mais queridos para matá-los.
A caverna esvaziara e acalmara-se o suficiente para que Karn pudesse ouvir o clique enquanto Rona deslizava um dispositivo em sua perna. Ela suspirou e dobrou sua carne sobre o metal. Fixou outro painel sobre sua coxa, selando sua ferida, e então se levantou. Girou os ombros e sorriu.
"Sheoldred, em sua beleza, minha Sussurrante," Rona disse, "torna-se mais forte a cada dia, e ela nos guiará à vitória."
Karn, ainda com o braço mergulhado no torso de Sheoldred, podia sentir cliques vibrando por seu corpo. Sheoldred dividiu-se, separando-se em pedaços. Seus segmentos soltaram-se, cada pedaço brotando uma dúzia de pernas segmentadas cor de azinhavre. O enxame derramou-se sobre Karn, usando-o como uma ponte para o chão. As criaturas semelhantes a aranhas correram pelos braços de Karn, por suas costas e torso, atrás de seus joelhos, suas panturrilhas. O tink-tink-tink de suas garras metálicas reverberou através dele. Um pedaço do tamanho de uma tarântula saltou dos cabos para o rosto de Karn. Ele agarrou-se à sua cabeça, contraindo-se, uma pepita de carne semelhante a um coração enxertada no centro de seu tórax modificado. Ele rastejou sobre sua cabeça. Ele podia sentir seu corpo úmido deslizar por suas costas. Caiu no chão e fugiu.
"Eu posso não ser capaz de detê-lo, criação de Urza," Rona disse, "mas posso impedi-lo de nos deter."
Do limite de sua visão, Karn podia ver Rona mancando por um túnel. Mesmo com seus reparos improvisados, Rona permanecia pesadamente danificada, e ela apoiava-se em sua glaive, usando-a como uma bengala. Sua perna jorrava fluido amarelo, e ela cambaleou. Parou para recuperar o fôlego. Óleo gotejava de suas novas inserções, misturado com sangue.
Ele virou a cabeça para observá-la. O campo que paralisava Karn havia enfraquecido. Talvez fosse devido ao recuo de Rona. Carregaria ela o dispositivo consigo que o mantinha no lugar? Karn tentou levantar o braço. O esforço estremeceu através dele. Ele levantou um dedo.
Rona deixou seu ombro descansar contra a parede do túnel. Usou sua glaive para cortar uma tira de pano de seu manto. "Espero que, conforme tomamos este plano, conforme o tornamos mais perfeito, você sinta a agudeza do fracasso mais uma vez."
Karn esforçou-se contra a força que o prendia. Sua mandíbula doía. "O que "
Rona amarrou a tira de pano ao redor de sua perna que vazava em um torniquete. "Conforme você observa as pessoas que conhece há éons se transformarem e se voltarem contra você, espero que doa."
"Por que você diria isso?" Karn conseguiu. Ele tinha que mantê-la falando. Se ele pudesse se libertar "O que eu fiz a você para que desejasse tal horror sobre mim?"
"Quando os mirranos tornaram-se phyrexianos," Rona disse, "foi a melhor coisa que já aconteceu a eles. Eles ficaram independentes de seu criador. Unificados. Belos."
A força que prendia Karn parecia afrouxar. Ele precisava libertar-se. Mesmo com o ponto de concentração phyrexiano nas Cavernas de Koilos vazio, se Karn pudesse capturar Rona, como braço direito de Sheoldred ela seria capaz de fornecer informações valiosas. Nem tudo estava perdido.
"Você os mataria, não mataria," disse Rona, "por buscarem a perfeição."
Ele só precisava de mais um momento —
"Você deu a Memnarch sua inteligência. Suas capacidades. Mas ele não tinha a experiência para lidar com isso. A orientação. Ele estava tão perdido." O sorriso de Rona contorceu-se. Ela apreciava sua luta. "Eu não suporto pais ruins."
Karn parou. Seu corpo não poderia ter reverberado mais se ela o tivesse golpeado.
Rona acionou um interruptor na parede. Houve um pequeno ruído de grade. Então, uma série de estrondos acima da cabeça. O rugido, enquanto a caverna caía, engoliu-o. Toneladas de rocha caíram sobre ele. Uma pedra rolou da parede da caverna e depois ricocheteou em seu peito. Jogou-o de costas. Ele olhou para a caverna que desabava, ainda paralisado pelo dispositivo de Rona. Rochas caíram em lençol. Pedaços do tamanho de punhos martelaram seu corpo. Pedregulhos menores bateram e estalaram contra ele, rolando e preenchendo as lacunas. Sua visão tornou-se cinza pela poeira e depois escureceu quando a pedra obscureceu toda a luz. A rocha pesava sobre ele.
Ele pôde sentir o feitiço de Rona ceder. Ele podia se mover — ou pelo menos sob toda essa pedra, ele podia tentar se mover, mexer um dedo. Para qualquer bem que isso lhe fizesse. Nem mesmo ele poderia erguer esta pedra. Nem mesmo ele poderia cavar seu caminho para fora deste desmoronamento.
A camada esmagadora de rocha era pesada demais até para ele deslocar.
Karn buscou a centelha que lhe permitia caminhar entre os planos. Ela ardia dentro dele, quente e brilhante, uma companheira tão perpétua que ele deixara de notá-la. Se ele pudesse apenas se concentrar e —
Não funcionou. Nada aconteceu.
Karn alcançou com seus sentidos especiais através das pontas dos dedos e analisou os materiais inorgânicos circundantes: olivina, granito, quartzo, mica. Pedra comum, mas com toda a antiga tecnologia interplanar e phyrexiana fornecendo uma interferência de baixo nível, ele não conseguia caminhar entre os planos para longe.
Ele estava preso. Apenas ele sabia que Sheoldred viera para Dominária, e ele não podia avisar ninguém.

































