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Episódio 1: Ecos na Escuridão

Arte de: Chris Rahn
Arte de: Chris Rahn

Mesmo a três cavernas de distância, o guincho de metal quebrando ecoou contra a pedra. Mais uma escavadeira quebrada. Se Karn fosse um ser orgânico, ele teria suspirado. Em vez disso, ele apenas parou e ouviu os chocalhos remanescentes da escavadeira. Ele tinha pena de suas máquinas: nenhuma configuração única poderia acomodar a geologia excêntrica das Cavernas de Koilos, onde rocha de olivina tinha tanta probabilidade de dar em arenito quanto em cinábrio, mas ele não tinha alternativa. Aqui, ele encontraria o segredo para operar o silex.

E ele o encontraria antes que qualquer agente phyrexiano pudesse.

A condensação formava gotas em seu corpo, as gotas se juntando para deslizar por sua blindagem metálica. Ninguém parecia acreditar nele, mas ele sabia a verdade. Os phyrexianos estavam aqui, em Dominária. Ele podia sentir isso, como podia sentir a pedra e a tecnologia interplanar crivando suas camadas.

Ele se virou de lado para se espremer por uma passagem estreita. O basalto raspou contra seu peito, mas cedeu sem arranhá-lo. Ele se abaixou sob estalagmites translúcidas em uma caverna baixa. Selenita clara revestia os ossos de prisioneiros thran e tecnologias thran fragmentadas, seus traçados dourados distorcidos.

Karn localizou a escavadeira avariada nos fundos da caverna.

A pobre escavadeira fumegava, como se estivesse irritada com seu trabalho incontrolável, e sua carcaça de metal superaquecida estalava com um suave tink-tink-tink enquanto esfriava. Karn teceu entre as estalactites e poças de água, cuidadoso para não quebrar nenhum dos delicados depósitos minerais violetas ou perturbar as anêmonas de água doce e os minúsculos peixes cegos, branqueados por uma vida que, até agora, havia passado na escuridão.

Karn colocou a mão na escavadeira. "Deo consertar você, então? Sim?"

O vapor suspirou da máquina superaquecida. Ao seu gesto, os parafusos se desenrolaram ao longo de suas roscas. Ele os colocou de lado e removeu a carcaça. Uma engrenagem gasta o saudou. Ele a removeu e começou a gerar uma substituta. Seus dedos formigaram com magia, sua carga se unindo para gerar algo do nada. O metal se materializou, camada sobre camada, para criar uma peça duplicada.

Ele gostava de trabalhar no silêncio das cavernas. Na ausência do sol, apenas o gotejamento metronômico da água media seus dias. Ele estava sozinho aqui; outros Planeswalkers não gostavam da distorção interplanar que irritava seus sentidos nas Cavernas de Koilos. Karn também não gostava, mas apreciava o isolamento que isso lhe dava. Ele não precisava responder a perguntas. Ou se preocupar se os phyrexianos haviam chegado a alguém. Completado eles. Ele podia buscar a chave para operar o silex em solitude. Ele venceria a luta sozinho.

"Que luta?" Jhoira havia colocado as mãos nos quadris em exasperação. "Karn, os phyrexianos foram derrotados séculos atrás, e esses novos que você me falou estão presos em seu plano."

"Eles estão aqui", Karn disse a ela. "Derrotar os phyrexianos em combate não significa nada. Eles não são um exército. Eles são o ódio personificado. Eles prometem a destruição de Dominária."

A voz dela suavizou. "Só porque Venser "

Karn não queria pensar em Venser. Ele deslizou a engrenagem em seu eixo e a apertou. Substituiu a carcaça, deslizando-a no lugar, e então enroscou cada parafuso. Pequenos prazeres. Ele deu um tapinha na escavadeira e sorriu. "Isso está melhor, não está?"

Ele sabia que ela não estava viva, não estava respondendo a ele, mas quase parecia que estava enquanto ele acionava uma alavanca e observava a escavadeira se mover para frente e começar a cavar na parede da caverna. A pedra estremeceu. Poeira branca e fina saía das pás-membros da escavadeira. Se seres orgânicos estivessem presentes, Karn teria que se preocupar em usar água para baixar a poeira. Seus pulmões eram tão frágeis.

Melhor que ele estivesse sozinho, não era? Ninguém o atrasava, comendo e dormindo horas a fio. Ninguém atrasava seu progresso com conversas fiadas.

A rocha pulverizada tornou-se violeta, então o ronco da escavadeira mudou para um zunido quando atingiu o ar livre. A escavadeira recuou, e Karn espiou na caverna que ela havia aberto.

A rocha fora fina como uma casca de ovo, mas extremamente dura. Do outro lado, o interior da caverna era revestido de opala. O brilho de seus olhos pegou nas manchas iridescentes, banhando a caverna com um vislumbre âmbar. A oficina coberta de poeira parecia vir do tempo de vida mortal de Urza, ou até antes, quando as teorias e práticas da magia eram menos conhecidas, e a tecnologia impulsionava o progresso de Dominária. Tubos de vidro intrincados, béqueres de vários tamanhos, queimadores extintos, restos pulverulentos de produtos químicos antigos, cortadores de arame e rolos para argila, baldes revestidos com esmaltes ressecados, engrenagens e dentes — até mesmo uma pequena forja ventilada, pinças colocadas casualmente de um lado como se seu ferreiro, interrompido, tivesse se afastado de uma tarefa inacabada. Em um canto, grilhões: um lembrete de que as Cavernas de Koilos uma vez abrigaram a feiura dos thran antes de se transformarem em Phyrexia.

Esta oficina fora o santuário de algum artífice — e o pesadelo de algum prisioneiro. Karn reconhecia uma configuração destinada a explorar seres sencientes para experimentação quando via uma. Ele vira muitas cenas assim quando fora recém-formado.

"Como tudo isso sobreviveu tão intacto?" Se ao menos ele pudesse compartilhar esta visão com alguém —

Ele realmente precisava parar de falar sozinho.

Karn entrou na caverna tão levemente quanto seu corpo pesado permitia. E se uma vibração perdida fizesse esses objetos delicados se estilhaçarem, destruindo dados?

Os livros, dispostos em uma única prateleira longa com lombadas cobertas de joias, o tentavam com seu conhecimento, mas ele não ousou pegar nenhum. O papel provavelmente se transformaria em poeira se ele o tocasse. Ele espiou nos béqueres, manchados com fluidos secos, e então examinou as cinzas da forja. Nada. Ele examinou a bancada de cerâmica e viu: um diagrama do silex pintado em pergaminho, uma bacia de cobre com alças e pequenas figuras pretas marchando ao redor de sua base. Uma placa cinza de argila estava ao lado do diagrama, gravada com símbolos duplicando aqueles retratados na tinta desbotada do diagrama. Alguns estavam em thran; alguns nas curvas arqueadas de uma escrita irreconhecível que se assemelhava a alguns símbolos no silex. A argila estava danificada, parcialmente ilegível, e fios cortados jaziam ao lado dela. O que havia acontecido aqui?

"Devo comparar isso com o silex."

À vibração fraca de suas palavras, os livros desmoronaram em poeira. Karn estremeceu.

Ele recolheu a placa de argila não cozida em suas mãos — cuidado, cuidado — e saiu da antiga oficina.

Karn havia instalado seu acampamento base a certa distância das escavadeiras, onde as cavernas tinham maior estabilidade. Cada tenda suavemente iluminada protegia seu equipamento do gotejamento constante de água. Karn deixou que o brilho delas guiasse seus passos, a caverna oca ressoando com suas pisadas.

Com as tendas iluminadas por dentro, voltar ao acampamento quase parecia voltar para casa. Karn abaixou-se na maior tenda, desviando do grande artefato thran dourado que havia deixado na frente da entrada. Lá dentro, ele passou por uma peça de metal quebrada que havia coletado dias atrás, pretendendo remodelá-la para que voltasse a ser útil. Passou por uma pilha de fragmentos de pedra de poder e sentou-se em sua mesa de trabalho; ela, como o resto de sua tenda, estava entulhada demais — ele não tinha espaço para sua nova descoberta. No topo dos papéis e pequenos artefatos, ele viu as cartas de Jhoira, espalhadas, abertas mas sem resposta. Karn, já faz meses , começava uma carta. Você não acha que deveria examinar por que está fazendo isso? Outra carta terminava. Mirrodin não foi sua culpa , ela escreveu em outra. Por favor, volte. Venser teria . . .

Arte de: Jarel Threat
Arte de: Jarel Threat

Karn moveu o artefato para uma palma e usou a outra mão para empurrar as cartas de Jhoira para o lado. Ele deslizou o artefato para a bancada e então se abaixou sob a mesa. Ele havia escondido o silex em um pequeno baú de titânio, sua fechadura acessível apenas a alguém como ele, alguém que conhecia a ordem em que os pinos precisavam ser levantados e podia manipular materiais inorgânicos. Sua fechadura não tinha chave.

Ele colocou a mão no baú, concentrou-se e sentiu os pinos se moverem. A tampa abriu. Ele removeu o silex. Mesmo seus sentidos especializados não conseguiam identificar seu material semelhante ao cobre. Normalmente ele podia revelar o mistério de qualquer objeto inorgânico com um toque; não o silex. Suas palmas coçavam com sua estranheza. Um artefato thran, a maioria dizia — mas ele tinha suas dúvidas. Karn acreditava que este dispositivo vinha de campos mais distantes do que simplesmente o passado.

Ele ergueu seu corpo de cálice largo para sua mesa. Seus caracteres cor de tinta pareciam se mover sob a luz de sua bancada, transformando-se de thran para fallaji para sumifan. A boca larga e em forma de tigela do vaso parecia pedir para ser preenchida — com, de acordo com o sumifan, as memórias da terra. Ele estava relutante em testá-lo sem confirmação sobre como usá-lo.

O silex enviou um solavanco através dele. Karn recuou e retirou a mão, aninhando-a contra o corpo.

Uma vez, quando ele era novo, ele estendeu a mão e tocou o fogo que ardia na lareira de Urza. Ele havia deixado cair o carvão vermelho-cereja, chocado com a sensação, então examinou sua mão em busca de danos. Não encontrou nenhum. Ele olhou para cima e viu Urza observando-o com olhos brilhantes. Urza não tentara impedi-lo, mas sabia que isso machucaria Karn. Por que me deste inteligência se não valorizas minha individualidade? Karn sentiu-se envergonhado no momento em que fez a pergunta, e sim, Urza deu uma risadinha. Você é mais valioso para mim se puder reagir de forma inteligente. Karn olhou para sua mão dolorida e intacta. Então por que me dar dor? Urza sorriu e acariciou sua barba branca. Karn mais tarde aprendeu a reconhecer aquela expressão como uma que Urza fazia quando pensava que estava sendo particularmente inteligente. As pessoas ficam mais relutantes em danificar algo se isso causa dor a esse algo.

Mas isso era verdade apenas para algumas pessoas, não era?

Karn olhou para as cartas não respondidas de Jhoira. Ele não ousava envolver Jhoira ou os outros Planeswalkers, para não perdê-los para os phyrexianos como havia perdido Venser. Mesmo depois que Memnarch o renomeou, Karn ainda pensava naquele plano por seu primeiro nome: Argentum. Fora Argentum para ele quando ele o criara e suas menores maravilhas. Como era belo, um plano brilhando com precisão matemática.

Os phyrexianos o tiraram dele. Seu plano, seus filhos. Memnarch, sua criação.

E era tudo culpa dele.

Ele pegou um pano de uma pilha próxima para limpar a condensação de seu corpo — ele não queria pingar em sua nova descoberta não cozida — e jogou o pano de volta no monte. Ele se inclinou para estudar o silex, comparando seus símbolos com os da placa de argila. O padrão mudava exatamente onde a borda da placa de argila parecia mais áspera. Quebrada. Ele havia esquecido um pedaço?

Ele precisava voltar para buscá-lo. Agora. Como ele havia aberto a caverna para a umidade das cavernas, os artefatos nela iriam se degradar.

Nesse momento, o estertor da morte de outra escavadeira ecoou pelas cavernas. Karn desejou poder suspirar. Mas, como as coisas eram, ele trancou o silex e sua descoberta mais recente. Ele consertaria a escavadeira — ela estava localizada perto da antiga oficina de qualquer maneira — e então procuraria o pedaço que faltava.


Fumaça oleosa saía da carcaça da escavadeira. Parecia ter atingido um depósito mineral duro, forçando os mecanismos por trás das ferramentas de corte. Karn deu um tapinha nela. "Mais do que você podia suportar?"

A máquina soltou uma lufada de fumaça.

"Eu conheço a sensação", Karn respondeu.

Antes de começar, ele espiou ao redor da borda do túnel. A oficina próxima, apesar dos ruídos da escavadeira, parecia intacta. Bom. A escavadeira poderia continuar seu trabalho sem o risco de danificar aqueles artefatos, então. Depois de consertá-la, ele vasculharia a oficina em busca do pedaço que faltava da placa de argila.

Ele puxou a máquina para longe e alcançou a parede onde ela estava cavando.

Ele retirou algo líquido. Uma gosma preta oleosa pingou de seus dedos, salpicando o chão. Poderia ser ?

Karn alcançou com seus sentidos especiais o material. Para ele — ele tentara explicar isso a Jhoira uma vez — essa habilidade era semelhante a degustar, se a degustação pudesse fornecer informações além do sabor. Ele não sentiu nada. Como se essa substância fosse orgânica.

Como os cabos foram incorporados na pedra? Parecia quase como se tivessem se tecido nela, como vermes através de uma maçã que, de outra forma, estaria intacta.

Ele estava certo: o óleo era phyrexiano. Ele verificou novamente — poderiam essas fibras ser vestígios antigos? "Não, não", ele murmurou. "Elas parecem recentes. Frescas."

Karn alcançou o buraco e pegou uma das fibras. Ela se contorceu sob seus dedos, resistente, e soltou pequenos grampos semelhantes a aranhas de seu corpo para agarrar a pedra. O cabo estava vivo. Ele franziu a testa. Ele chicoteou as pontas de seus dedos como se tentasse se livrar de seu aperto. Ele puxou com força e arrancou-o de sua cavidade escavada.

Óleo preto espirrou em seu torso a partir de sua raiz. Os outros cabos se contraíram dentro da parede — e o teto da oficina antiga desabou no chão. O túnel atrás de Karn desmoronou, a passagem para seu acampamento base desapareceu.

Ele havia perdido suas descobertas.

Ele nunca encontraria o fragmento da placa não cozida. Ele nunca o encaixaria para ver o que ele revelaria. Ele nunca investigaria totalmente a câmara e determinaria se ela abrigava outros segredos sobre a criação do silex. Este desenvolvimento recente cuidara disso. Agora ele tinha um problema mais urgente, um que ele precisava priorizar sobre a catástrofe arqueológica: os phyrexianos estavam em Dominária. Aqui, agora.

Ele poderia tentar escavar a oficina. Ele poderia cavar a passagem e retornar ao seu acampamento base. Ele poderia procurar os outros, mas buscar ajuda levava tempo e, Karn sabia, colocava outros em risco. Se ele aprendera alguma coisa durante sua longa vida, fora isto: um único momento de desatenção, de negligência, poderia deixar um plano inteiro vulnerável aos phyrexianos. Os phyrexianos estavam contidos dentro das cavernas por enquanto, e ele com eles. Bom. Ele não deixaria Dominária cair como Mirrodin caiu uma vez. Ele deteria os phyrexianos. Se não pudesse fazer isso, obteria provas suficientes para poder recrutar reforços. Provas suficientes para que Jhoira, e seus companheiros Planeswalkers, acreditassem nele.

Karn , Jhoira diria, você estava certo o tempo todo.


Karn tinha apenas uma direção para onde ir: em frente. Ele entrou no túnel phyrexiano aberto. As paredes pareciam orgânicas, serpenteando pela pedra como veias através de um corpo.

Ele seguiu o túnel até que ele se abriu em um entroncamento. Aqui, as paredes haviam sido esculpidas em um friso. Ao contrário dos materiais que vira na oficina e embutidos atrás da pedra translúcida, esses cortes pareciam nítidos e novos. Tinha a qualidade abobadada que Karn associava a práticas religiosas, como os murais de vitrais nos templos de Serra.

No friso, um demônio phyrexiano agarrava uma jovem humana. O crânio alongado do demônio, dentes à mostra e olhos pequenos eram retratados com detalhes amorosos. Cada nó de maquinaria e cada fibra muscular exposta fora polido até brilhar. Pequenos diamantes foram incrustados como destaques para que o demônio parecesse se mover e brilhar sob o olhar de Karn. Em contraste, o perfil da humana, cortado na pedra, era rústico, suas feições distorcidas em tormento, repulsa e medo. Ela estava de mãos dadas com outra figura cujo rosto fora esculpido e depois intencionalmente desfigurado.

Arte de: Volkan Baga
Arte de: Volkan Baga

Um sussurro de pano roçando na pedra chamou a atenção de Karn. Ele se virou, com a mão ainda pressionada contra o mural.

Os humanos sempre pareciam tão pequenos para Karn. Apenas os mais altos chegavam perto de sua altura; todos os outros eram pequenos comparados a ele. Estes dois — um homem e uma mulher — eram ambos pequenos. A mulher, sua pele pálida faminta de luz solar e seu cabelo castanho esfarrapado, substituíra sua mandíbula por um mecanismo articulado, pequenas lâminas instaladas ao lado de seus dentes naturais. Onde a carne se juntava ao metal, suas crostas choravam um fluido doentio e amarelado. Seu companheiro mais velho, um homem branco com cabelos loiros quebradiços e grisalhos, deve ter incorporado sua tecnologia de forma mais artística: sua camisa branca estava aberta para expor o coração artificial batendo entre suas costelas, o portal para seu corpo protegido com um material vítreo. Ele também havia adicionado dedos extras às suas mãos.

Ambos seguravam cinzéis e grandes marretas. Os escultores, então. Acólitos da Sociedade de Mishra, se suas vestes lhe diziam a verdade. A mulher olhou para Karn, depois para sua mão repousando no friso, e gritou em indignação. Ela se lançou para frente. Seu companheiro masculino seguiu-a um segundo depois.

Ela deu um golpe em seu torso com o martelo. Karn agarrou o braço dela com uma das mãos, e ela dirigiu seu cinzel em direção às placas intrincadas e móveis ao longo de seu abdômen. Ele agarrou o outro braço dela. Ela grunhiu, esforçando-se contra ele. Seu companheiro correu em direção a Karn, erguendo o martelo sobre o ombro. Karn balançou a mulher contra o companheiro, jogando ambos contra a parede. Eles caíram em um emaranhado de membros — nada quebrado, apenas atordoados — no chão.

Karn inclinou-se sobre eles e organizou seus membros. Estendeu as mãos e gerou restrições para que não pudessem atacá-lo novamente. Partículas de ferro zumbiam na ponta de seus dedos, extraídas do éter. Ele invocou o metal em camadas, construindo as restrições em bandas em seus braços e pernas. Ele não gerou fechaduras ou uma chave, pois não tinha necessidade. As bandas de metal eram sólidas.

O homem gemeu. A mulher tinha fúria suficiente nela para cuspir em Karn. O cuspe caiu perto de seu pé. Eles eram tão minúsculos. Sua força, seus reflexos, os fatos de seu corpo pareciam uma vantagem injusta. Karn havia dilacerado tantas criaturas assim a pedido de Urza, caminhando através de fileira após fileira de soldados como um peso de chumbo através de papel molhado. Ele quase podia sentir isso agora: a resistência, depois a entrega, daqueles corpos; o calor de seu sangue escorrendo em suas juntas. As longas horas que passara enquanto Urza dormia limpando seu corpo com pequenas escovas de arame, raspando o sangue seco, cavando os coágulos de trás de seus joelhos. Ele nunca se sentira limpo o suficiente.

"Vocês não são phyrexianos", disse Karn, "no entanto, estão aqui e, se não me engano, a serviço deles. O que esperam alcançar?"

"Você — você é uma carcaça vazia e sem carne. Você profana nosso trabalho sagrado com seu toque." A raiva da acólita se transformou em uma satisfação cintilante. "Outros responderão à quebra da barreira. As bênçãos de Gix sobre eles — eles virão. Eles virão."

Ah, sim, a rede de fios nas paredes. Quando ele os rompeu, provavelmente acionou um alarme. Talvez esses primeiros acólitos tivessem respondido como se algum animal ou evento natural tivesse cortado os cabos, mas quando esses dois não relatassem o retorno, os outros não cometeriam tal erro. Karn estendeu a mão para o rosto da mulher e, com um giro de seus dedos, gerou uma mordaça de metal. A única razão pela qual ela não gritou por ajuda — os sons seriam carregados nestas cavernas — foi porque ainda não lhe ocorrera.

Ela o encarou, fazendo ruídos abafados que pareciam maldições.

Ele se inclinou sobre o acólito masculino. "O que você está fazendo aqui?"

O homem piscou para Karn. Suas pupilas haviam dilatado para tamanhos diferentes. Ele estava com uma concussão. Sua fala, como resultado, estava arrastada. "Karn. Eu conheço você. É bom que você tenha vindo."

Karn franziu a testa.

"A Sussurrante tem um plano para você." O acólito sorriu. "Ela se torna mais forte a cada dia, e você a servirá. Sheoldred lhe dá as boas-vindas! É o seu destino, Karn, criar para nós. Ajudar-nos. Tornar-se um de nós."

Karn gerou outra mordaça para que este, quando recuperasse os sentidos, não pudesse pedir ajuda. O acólito aceitou a mordaça — quase como se a apreciasse — com um sorriso beatífico.

Karn se afastou.

Como Sheoldred sobrevivera à travessia entre planos? Uma pergunta que ele ponderaria mais tarde: por enquanto, ele tinha que encontrá-la, para acabar com a invasão phyrexiana antes que ela começasse. E ele poderia fazer isso sozinho. Melhor que fizesse, pois não poderia ser subvertido. A centelha de Venser o salvou disso.

Karn deixou os acólitos amarrados e amordaçados e mergulhou mais fundo na rede de cavernas. A umidade nestas passagens não parecia o ar ao redor de seu acampamento, mas sim quente como o fôlego. O ar quente e úmido condensava-se em seu corpo frio, escorrendo em riachos como suor. Gritos fracos reverberavam pelo ar.

O túnel abriu-se em uma vasta caverna, que ecoava com a cacofonia da miséria humana. Do outro lado da fenda estava o local de concentração phyrexiano, localizado em uma área plana e ampla do chão da caverna. Trabalhadores semelhantes a formigas corriam pelas pontes de corda estendidas sobre a fenda, transportando nacos de carne, cabos ensanguentados e pedaços de carne para humanos que estavam sendo completados em mesas cirúrgicas. Na parede oposta da caverna, uma nave de portal phyrexiana cortava a escuridão como uma foice imensa. Bobinas pendiam desta estrutura. O brilho púrpura membranoso dos laços que se contorciam lembrava Karn de intestinos.

Sheoldred estava suspensa nesta massa. Ela estava imóvel. Tubos alimentavam substâncias avermelhadas e leitosas em seu corpo negro segmentado. As mandíbulas que se estendiam de seu tórax estavam abertas, relaxadas. Seu torso humanoide, soldado ao topo do tórax, jazia aninhado em uma rede espessa de linhas cor de tinta que se contorciam. Uma máscara com chifres ocultava seu rosto. Abaixo dela, adoradores agarravam-se uns aos outros e erguiam suas vozes em um hino extático.

Arte de: Igor Kieryluk
Arte de: Igor Kieryluk

A nave de portal phyrexiana desativada e a forma adormecida de Sheoldred dominavam a caverna. Acólitos nas vestes cinzas da Sociedade de Mishra atendiam máquinas cirúrgicas que convertiam pessoas em luta em abominações phyrexianas. Monstruosidades completadas pontuavam o chão da caverna como obras de arte grotescas, esgueirando-se em membros demais. Mais acólitos empilhavam armas ao lado de uma nau voadora phyrexiana. Equipes de emendadores escalavam uma máquina dragão para consertá-la, tão pequenos que seus maçaricos de soldagem pareciam estrelas brancas contra o esqueleto de metal da máquina.

Ele encontrara o ponto de concentração da invasão phyrexiana.

Uma única figura atendia Sheoldred: uma jovem mulher com pele de bronze-platina e cachos de umbra escura que vestia o manto da academia tolariana. Quando ela se virou, Karn viu o ponto vermelho de um olho mecânico. Abaixo, um acólito correu para frente e ofereceu nacos de carne. A jovem os separou, entrelaçando alguns na massa que sustentava Sheoldred. Karn seguiu a linha de acólitos carregando materiais da imensa monstruosidade para Sheoldred e sua ajudante. Ela estava minerando a monstruosidade para reparar os componentes biológicos danificados de Sheoldred.

Se os outros Planeswalkers pudessem ver isso agora, saberiam que os temores de Karn eram verdadeiros. Jhoira diria —

Não. Não importava o que Jhoira diria. Karn enfrentava esta ameaça sozinho. Ele precisava alertar os outros, sim, mas também não podia deixar este local de concentração intacto. Ele tinha que destruir os phyrexianos antes que pudessem se defender.

Com seu curso de ação decidido, Karn estendeu a mão, com a palma para cima. Ergueu a outra mão sobre ela. Visualizou o dispositivo incendiário que planejava gerar de dentro para fora. Ele podia ver cada componente seu, seus produtos químicos, dispostos como um projeto dimensional. As pontas de seus dedos zumbiam com a magia de sua criação. As camadas de material acumulavam-se no ar. Não era um silex, mas acabaria com Sheoldred.

Uma sirene encheu a caverna com seu grito agudo.

Karn localizou sua fonte enquanto acólitos, adoradores e agentes phyrexianos pausavam em seu trabalho: a acólita que o atacara estava tocando uma trombeta. Ou ela fora descoberta e libertada, ou se libertara sozinha: o inconveniente de deixar seus atacantes vivos.

O som estridente incitou a ação. Acólitos carregaram armas nas naus voadoras. Cirurgiões phyrexianos carregaram suas mesas de operação ensanguentadas nas naus voadoras. Outros embarcaram nas naus voadoras, evacuando. Monstruosidades phyrexianas completadas estremeceram à vida, fibras metálicas serpenteando de seus corpos. Outras caíram no chão. Membros semelhantes a garras explodiram de seus abdômenes e suas bocas escancaradas abriram-se cegamente, como répteis farejando presas.

Um feixe vermelho pontuou o peito de Karn.

Karn jogou-se no chão sobre a rocha exatamente quando um raio de eletricidade voou por cima. Ele pressionou as palmas das mãos no chão, erguendo-se o suficiente para rastejar para frente. Na beira do penhasco, ele espiou para o chão da caverna, tentando localizar a origem da explosão.

A tolariana que ajudava Sheoldred nivelou uma glaive para ele. Ela substituíra seu olho por um canhão de raios miniaturizado, e seu feixe vermelho atingiu Karn. Karn rolou para o lado. Um estalo explodiu a rocha ao lado dele. Fumaça subiu de onde ele estivera deitado.

Arte de: Ryan Alexander Lee
Arte de: Ryan Alexander Lee

Phyrexianos completados fervilharam em sua direção, e a tolariana sorriu. Ela colocou a mão na garra inerte de Sheoldred. Sheoldred permanecia inerte, imóvel — como se estivesse sob sedação enquanto a jovem trabalhava para restaurá-la — e vulnerável.

E Karn ainda segurava seu dispositivo incendiário.

A ponte mais próxima de Sheoldred estava perto, mas era estreita. Doze adoradores extáticos e a jovem com a glaive bloqueavam seu acesso à Pretora. Mas Sheoldred parecia estar a certa distância dos phyrexianos e acólitos tolarianos localizados no chão da caverna. Se Karn fosse rápido, ele não teria que lutar contra todos os seguidores de Sheoldred para atacá-la: apenas os doze adoradores, sendo a tolariana a décima terceira.

Karn levantou-se e investiu pela ponte de pedra estreita. Os adoradores de Sheoldred cessaram seu hino e lançaram-se em sua direção. Dois alcançaram a ponte. Karn empurrou-os para o lado no abismo da fenda.

Os outros adoradores aglomeraram-se em um bloqueio. Dois nivelaram lanças para ele, o que o teria mantido à distância se ele fosse uma criatura de carne. Armas perfurantes o incomodavam apenas se as hastes ou lâminas ficassem presas em suas juntas e inibissem sua amplitude de movimento. Da mesma forma, os dois jovens com serras rotativas não o detiveram: aquelas lâminas ricocheteariam em seu corpo. Não, Karn concentrou-se nos adoradores que empunhavam cinzéis de pistão e maçaricos de soldagem.

Tudo voltava para ele com tanta facilidade. Ele sentia-se entorpecido, eficiente. Como Urza o fizera. Karn parou a uma polegada das pontas das lanças. Os adoradores agitaram-se, inquietos. Karn deu um passo à frente, agarrou uma lança e ergueu-a. Um adorador, ainda agarrado à sua arma, ficou boquiaberto e pendurado. Karn balançou-o contra os inimigos, varrendo vários para fora da ponte e quebrando o bloqueio deles. Então ele jogou o lanceiro nas profundezas da fenda, os gritos do homem desaparecendo enquanto ele caía.

A outra lanceira, uma mulher mais velha, enterrou a ponta de sua lança em uma fresta em seu torso. Embora segurasse um dispositivo incendiário, ele quebrou a haste da lança golpeando seu punho para baixo, quebrando-a por dentro. Ele lidaria com isso mais tarde. Agarrou a extremidade quebrada da haste, que ela ainda segurava, e usou-a para jogá-la para o lado. Ela caiu e encolheu-se.

Restavam apenas seis combatentes.

O portador de uma serra rotativa balançou seu instrumento zumbinte na cabeça de Karn. Karn deu um passo atrás para esquivar. Antes que a serra pudesse voltar, ele deu um passo para dentro do alcance do portador e removeu a ferramenta dos dedos do homem. O homem tentou resistir, mas Karn tinha uma força esmagadora do seu lado. Arrancar o aperto do homem foi perturbadoramente fácil. Karn ergueu-o e jogou-o contra mais dois adoradores. A força esmagou os três no chão em uma confusão doentia de membros quebrados.

Um portador de cinzel de pistão atacou-o pelo lado. O cinzel bateu em Karn e depois deslizou pelo seu braço, tirando o equilíbrio de seu usuário. Karn deu-lhe um soco. O homem voou. Os dois adoradores restantes fugiram; sua fé não era tão grande diante de tal dano corporal. Todos esses humanos, mesmo com as alterações phyrexianas, não eram mais robustos para ele do que borboletas. Karn desejava que não fosse tão fácil.

Ele caminhou até Sheoldred. Ela jazia, inerte em seu berço, mas não mais quieta. Seus membros segmentados contraíam-se como um aracnídeo enquanto ela emergia para a consciência. Seu torso humano sobre o tórax estremeceu. Seus dedos longos estenderam-se para baixo para a jovem nas vestes tolarianas. Mas ela não parecia consciente — ainda não.

"Karn." A tolariana falou com desprezo. "Ouvi muito sobre você."

"Como assim?"

O olhar dela moveu-se para a forma inerte de Sheoldred, e então retornou a ele. "Você não é tão impressionante quanto fui levada a acreditar."

Karn caminhou em direção a Sheoldred, o dispositivo incendiário na mão.

"Quem é você?" Karn perguntou à tolariana. "Por que você traria isso para cá?"

"Rona. E isto," ela gesticulou para Sheoldred, "é a salvação de Dominária."

Rona posicionou-se entre Karn e Sheoldred, a glaive segurada com facilidade e em ângulo em suas palmas. O olho de carne de Rona estreitou-se enquanto seu soquete mecânico focava seu laser no torso de Karn. Ela flexionou as mãos ao redor de sua glaive. Sua lâmina brilhou, crepitando com eletricidade azul. Ela sorriu.

"Eu não desejo lutar com você", Karn disse a ela.

"Pena."

Rona nivelou sua glaive para ele, e eletricidade explodiu de sua lâmina.

A eletricidade dançou pelo seu corpo, faiscando. Karn fez uma careta de dor, mas atravessou-a, caminhando em direção a ela enquanto mais ondas ondulavam de sua lâmina, derramando-se sobre ele. Karn parou, atordoado, e tentou sacudir a agonia enquanto Rona continuava a atacar. Ela desceu a glaive, prendendo-a em seu ombro. Karn girou, puxando-a de seu aperto, e removeu-a de seu corpo. Ele jogou-a de lado. Enquanto ele estava ocupado, Rona desembainhou uma adaga e enterrou-a em uma de suas costuras abdominais. Ela cavou entre as placas que lhe permitiam flexionar, como se procurasse por órgãos. Karn estremeceu.

Karn segurou a cabeça dela em uma de suas mãos. Pressionou o polegar no olho mecânico e estilhaçou a lente do raio. Rona gritou e chutou. Karn jogou-a contra a parede. Ossos estalaram. Ela bateu nela e depois caiu no chão. Encolheu-se, as mãos ao redor da cabeça, a perna em um ângulo não natural para seres humanos. Óleo e sangue escorriam das partes mecânicas quebradas em sua órbita ocular. Ela o encarou entre os dedos, os lábios esticados em um esgar.

"Por que você não me mata?" Rona provocou-o. "Acabe comigo."

"Eu não sou uma arma."

Karn aproximou-se de Sheoldred, segurando seu dispositivo incendiário. Embora sua parte humanoide fosse do tamanho de uma mulher comum, ela estava presa a um corpo semelhante ao de um escorpião com facilmente três vezes o tamanho dele. Em contraste com aquela beleza bem trabalhada, os materiais orgânicos enxertados em seu torso humano pareciam rudimentares, sangrentos. Rona tentara o seu melhor para substituir as partes orgânicas que haviam queimado nas Eternidades Cegas durante o trânsito de Sheoldred entre planos, mas sua natureza de retalhos aparecia.

Ele a despedaçaria. Ele a esmagaria enquanto ela ainda estivesse fraca. Ele faria qualquer coisa — qualquer coisa — para impedir Sheoldred de phyrexianizar este plano. Karn estendeu a mão e agarrou o torso de Sheoldred, determinado a acabar com isso. Ele colocaria este dispositivo entre as placas vulneráveis do corpo dela e a destruiria.

Ao seu toque, Sheoldred agitou-se. Sua cabeça com capacete inclinou-se para baixo em sua direção. Ele podia senti-la com os mesmos sentidos que usava para determinar a composição elemental de um composto. Seus componentes inorgânicos estendiam-se diante dele como as páginas de um livro. Suas partes biológicas jaziam como tumores escuros aninhados dentro da glória luminescente do metal. Ele podia ler seus pensamentos — alguns deles.

Bem-vindo, Pai , Sheoldred sussurrou em sua mente, um ser mecânico para outro. Que planos eu tenho para você.

Karn recuou de seu sussurro viscoso, dando um passo atrás. E ele soube o que ela fizera.

Agentes adormecidos phyrexianos espreitavam em todas as terras de Dominária, esses espiões inconscientes espalhados por todos os governos, por todo o exército, por todo o povo comum. Ele viu um cervejeiro despejando lúpulo em uma tina. Um espião. Viu uma escriba sentada em uma mesa, a mão pairando sobre uma carta. Viu um adolescente brincando de pega-pega com seus primos, fingindo ser um monstro quando ele era um, a armadura phyrexiana pronta para explodir de suas costas. Agentes phyrexianos eram amantes das pessoas, camaradas, colegas de trabalho. Eles estavam em toda parte. Poderiam ser qualquer um.

Bem-vindo , o sussurro dela ecoou dentro dele. Bem-vindo.

Karn alcançou entre as placas de seu tórax e depositou o dispositivo incendiário dentro de seu corpo. Ergueu o polegar para acionar o interruptor que permitiria que os dois produtos químicos dentro dele fluíssem um para o outro e entrassem em combustão.

Mas sua mão não se moveu. Suas juntas haviam travado. Ele tentou olhar para baixo para examinar a si mesmo, mas até seu pescoço permaneceu rígido. Tentou se virar e não conseguiu mover os braços, pernas ou torso. Não conseguia dizer se fora paralisado ou travado no lugar.

Em sua visão periférica, ele podia ver Rona arrastando-se — com lente estilhaçada, perna quebrada e tudo — em direção a dispositivos mágicos desconhecidos, que ela mesma devia ter criado. Ela deixou um rastro de óleo, sangue e fluido azul fluorescente atrás de si.

Karn esforçou-se contra a estranha magia que o prendia.

Rona alavancou-se para uma posição sentada. Pelos seus grunhidos, parecia agonizante.

"Seu erro", disse ela, "foi não me matar quando teve a chance. Esperávamos sua vinda, Karn. Nós nos preparamos."

Ele tentou se mover novamente, seus mecanismos internos gemendo com o esforço, e sentiu seu metal sofrer torção. Ele dobraria — quebraria — antes de se libertar da magia de Rona através da força.

Rona separou as peças empilhadas que estivera usando para reparar Sheoldred. Ela ergueu um nódulo, sorriu e colocou-o de lado. Com uma careta, ela enterrou os dedos em sua órbita ocular danificada e arrancou o nódulo arruinado, expondo tecido vivo e um pedaço de crânio brilhante perto de sua sobrancelha. Um jorro de líquido claro espirrou para fora. Ela encaixou o novo nódulo no lugar.

Rugidos ressoaram pela caverna. Rocha peneirou para baixo, batendo contra o corpo de Karn.

"Aquele", disse Rona, "foi o som de nossas naves evacuando nossas forças desta área de concentração — que foi comprometida — e recuando para uma área de concentração secundária. Temos muitas bases por toda Dominária. Você não encontrará todas elas."

Rona enterrou sua glaive na perna. Grunhiu, cortando sua roupa e sua carne. Seus olhos lacrimejaram — até o olho que ela substituíra pingou. Arfando, ela expôs seu músculo e seu osso quebrado ao ar da caverna.

Karn falhara. Preso pela magia de Rona, ele seria incapaz de avisar seus amigos, incapaz de lutar ao lado deles, incapaz de salvá-los quando os agentes phyrexianos completados explodissem de seus companheiros mais queridos para matá-los.

A caverna esvaziara e acalmara-se o suficiente para que Karn pudesse ouvir o clique enquanto Rona deslizava um dispositivo em sua perna. Ela suspirou e dobrou sua carne sobre o metal. Fixou outro painel sobre sua coxa, selando sua ferida, e então se levantou. Girou os ombros e sorriu.

"Sheoldred, em sua beleza, minha Sussurrante," Rona disse, "torna-se mais forte a cada dia, e ela nos guiará à vitória."

Karn, ainda com o braço mergulhado no torso de Sheoldred, podia sentir cliques vibrando por seu corpo. Sheoldred dividiu-se, separando-se em pedaços. Seus segmentos soltaram-se, cada pedaço brotando uma dúzia de pernas segmentadas cor de azinhavre. O enxame derramou-se sobre Karn, usando-o como uma ponte para o chão. As criaturas semelhantes a aranhas correram pelos braços de Karn, por suas costas e torso, atrás de seus joelhos, suas panturrilhas. O tink-tink-tink de suas garras metálicas reverberou através dele. Um pedaço do tamanho de uma tarântula saltou dos cabos para o rosto de Karn. Ele agarrou-se à sua cabeça, contraindo-se, uma pepita de carne semelhante a um coração enxertada no centro de seu tórax modificado. Ele rastejou sobre sua cabeça. Ele podia sentir seu corpo úmido deslizar por suas costas. Caiu no chão e fugiu.

"Eu posso não ser capaz de detê-lo, criação de Urza," Rona disse, "mas posso impedi-lo de nos deter."

Do limite de sua visão, Karn podia ver Rona mancando por um túnel. Mesmo com seus reparos improvisados, Rona permanecia pesadamente danificada, e ela apoiava-se em sua glaive, usando-a como uma bengala. Sua perna jorrava fluido amarelo, e ela cambaleou. Parou para recuperar o fôlego. Óleo gotejava de suas novas inserções, misturado com sangue.

Ele virou a cabeça para observá-la. O campo que paralisava Karn havia enfraquecido. Talvez fosse devido ao recuo de Rona. Carregaria ela o dispositivo consigo que o mantinha no lugar? Karn tentou levantar o braço. O esforço estremeceu através dele. Ele levantou um dedo.

Rona deixou seu ombro descansar contra a parede do túnel. Usou sua glaive para cortar uma tira de pano de seu manto. "Espero que, conforme tomamos este plano, conforme o tornamos mais perfeito, você sinta a agudeza do fracasso mais uma vez."

Karn esforçou-se contra a força que o prendia. Sua mandíbula doía. "O que "

Rona amarrou a tira de pano ao redor de sua perna que vazava em um torniquete. "Conforme você observa as pessoas que conhece há éons se transformarem e se voltarem contra você, espero que doa."

"Por que você diria isso?" Karn conseguiu. Ele tinha que mantê-la falando. Se ele pudesse se libertar "O que eu fiz a você para que desejasse tal horror sobre mim?"

"Quando os mirranos tornaram-se phyrexianos," Rona disse, "foi a melhor coisa que já aconteceu a eles. Eles ficaram independentes de seu criador. Unificados. Belos."

A força que prendia Karn parecia afrouxar. Ele precisava libertar-se. Mesmo com o ponto de concentração phyrexiano nas Cavernas de Koilos vazio, se Karn pudesse capturar Rona, como braço direito de Sheoldred ela seria capaz de fornecer informações valiosas. Nem tudo estava perdido.

"Você os mataria, não mataria," disse Rona, "por buscarem a perfeição."

Ele só precisava de mais um momento —

"Você deu a Memnarch sua inteligência. Suas capacidades. Mas ele não tinha a experiência para lidar com isso. A orientação. Ele estava tão perdido." O sorriso de Rona contorceu-se. Ela apreciava sua luta. "Eu não suporto pais ruins."

Karn parou. Seu corpo não poderia ter reverberado mais se ela o tivesse golpeado.

Rona acionou um interruptor na parede. Houve um pequeno ruído de grade. Então, uma série de estrondos acima da cabeça. O rugido, enquanto a caverna caía, engoliu-o. Toneladas de rocha caíram sobre ele. Uma pedra rolou da parede da caverna e depois ricocheteou em seu peito. Jogou-o de costas. Ele olhou para a caverna que desabava, ainda paralisado pelo dispositivo de Rona. Rochas caíram em lençol. Pedaços do tamanho de punhos martelaram seu corpo. Pedregulhos menores bateram e estalaram contra ele, rolando e preenchendo as lacunas. Sua visão tornou-se cinza pela poeira e depois escureceu quando a pedra obscureceu toda a luz. A rocha pesava sobre ele.

Ele pôde sentir o feitiço de Rona ceder. Ele podia se mover — ou pelo menos sob toda essa pedra, ele podia tentar se mover, mexer um dedo. Para qualquer bem que isso lhe fizesse. Nem mesmo ele poderia erguer esta pedra. Nem mesmo ele poderia cavar seu caminho para fora deste desmoronamento.

A camada esmagadora de rocha era pesada demais até para ele deslocar.

Karn buscou a centelha que lhe permitia caminhar entre os planos. Ela ardia dentro dele, quente e brilhante, uma companheira tão perpétua que ele deixara de notá-la. Se ele pudesse apenas se concentrar e —

Não funcionou. Nada aconteceu.

Karn alcançou com seus sentidos especiais através das pontas dos dedos e analisou os materiais inorgânicos circundantes: olivina, granito, quartzo, mica. Pedra comum, mas com toda a antiga tecnologia interplanar e phyrexiana fornecendo uma interferência de baixo nível, ele não conseguia caminhar entre os planos para longe.

Ele estava preso. Apenas ele sabia que Sheoldred viera para Dominária, e ele não podia avisar ninguém.

Episódio 2: Areia na Ampulheta

Arte de:  Julian Kok Joon Wen
Arte de: Julian Kok Joon Wen

O tempo escorria mais lentamente do que os grãos de areia se assentando entre as rochas. As partículas finas se infiltravam nas articulações de Karn. Ele não sabia há quanto tempo estava deitado ali, preso no escuro. Tinham se passado dias ou semanas? E se meses tivessem voado para longe, como um pássaro pequeno e assustado? E se fosse mais tempo? Anos, décadas, eras—

Não, ele não podia pensar nisso.

Ninguém sentiria sua falta. Ninguém sabia para onde ele tinha ido. Ele deveria ter contado a alguém. Ele deveria ter, pelo menos, contado a Jhoira. Ou a Jaya. Se ele tivesse contado a elas, elas saberiam onde procurar e o teriam libertado ou visto os phyrexianos elas mesmas.

E se os phyrexianos fossem os únicos a encontrá-lo? Seria pior se ninguém o encontrasse? Ele poderia esperar sozinho, para sempre na escuridão. No silêncio.

Areia escorria para baixo. Um ruído de arranhões. Talvez garras raspando em pedra bruta.

Um peso se elevou de sua mão, expondo-a às correntes de ar frio. Ele conseguia mover os dedos. O alívio o atravessou, uma pontada mais poderosa do que as Eternidades Cegas. Ele esticou os dedos, maravilhando-se com a liberdade desse pequeno movimento, a habilidade de fazer qualquer movimento. Algo quente e macio tocou as pontas de seus dedos. Orgânico, impenetrável aos seus sentidos. Não era phyrexiano. Gentil. Atencioso.

Ele fora encontrado.

O calor deixou as pontas de seus dedos. Seu resgatador teria partido?

O arranhar acelerou. Pedras rangeram. Seixos caíram em cascata. Ruídos surdos enquanto grandes pedras arremessadas aterrissavam. O fardo sobre ele diminuiu. Karn fez força. O material ao seu redor cedeu, deslocando-se sob a pressão de sua força enorme. Karn exercitou os poderosos mecanismos em seu torso, empurrando-se para cima. Pedras rolaram para longe. Ele se levantou lentamente. Ele queria tomar cuidado para não ferir seu resgatador com quaisquer pedras perdidas.

À medida que seus esforços aumentavam, o ruído de arranhões cessou. Passos recuaram conforme seu resgatador se afastava. Karn teria que confiar que ele se movera para uma distância segura.

Karn se levantou. Pedras escorreram dele, e ele estava livre. O ar quente acariciou seu corpo. Ele girou os ombros, deleitando-se com o movimento deles. A rocha caindo levantou uma névoa cinzenta. Ele sacudiu as partículas finas de seu corpo e limpou seus olhos.

Ajani estava parado no túnel, seu pelo de um branco impressionante à luz das tochas. A pupila de seu olho azul-claro sem cicatrizes brilhava com o matiz noturno de um predador da noite. Seus ombros tinham uma postura orgulhosa, como se ele estivesse satisfeito por ter encontrado Karn. Ele concedeu a Karn um sorriso amigável, de lábios fechados.

Karn assentiu, hesitante. Ele só havia encontrado Ajani algumas vezes. Para a espécie de Ajani, mostrar os dentes era uma ação hostil, então esse pequeno sorriso era mais amigável do que um largo sorriso humano.

"Como você me encontrou?" Karn limpou a garganta. Ela também parecia empoeirada. O mecanismo dentro dela clicou desconfortavelmente. "Eu não disse a ninguém que estava aqui."

Ajani tossiu, sem jeito, profundamente em seu peito. "Depois que você não respondeu às cartas, Jhoira ficou preocupada com você. Ela pediu a Raff para colocar um feitiço de rastreamento nas cartas, um que só seria ativado quando você — e apenas você — abrisse o envelope. Foi assim que localizei seu acampamento."

Karn paralisou, envergonhado. Jhoira soubera toda vez que ele lera uma carta e a deixara sem resposta? Toda vez que ele afastara as pilhas de papel em sua bancada para abrir espaço para um novo projeto? Ajani teria visto a desordem caótica que povoava seu espaço de trabalho? Karn nunca teria deixado seu acampamento chegar a tal estado se esperasse um visitante.

Ele evitou o olhar de Ajani e investigou as articulações em seu corpo em busca de danos. Ah, a ponta de lança. Ele havia esquecido que a deixara alojada em si.

"Toda vez que você movia as cartas, Jhoira sabia que você estava vivo," disse Ajani, "e não queria conversar. Ela estava determinada a lhe dar o tempo que você precisava e não o pressionar. Ela sabe o quão reservado você pode ser quando está aborrecido."

Karn mexeu na ponta da lança, tentando removê-la de seu corpo. O desmoronamento a tinha entalado ainda mais profundamente nele.

"Mas quando você parou de mexer nas cartas," continuou Ajani, "ela ficou preocupada. E aqui estou eu."

Karn resmungou. Ele balançou a ponta da lança para frente e para trás, tentando soltá-la de entre as placas de seu torso. Seus dedos rombudos, embora capazes do trabalho mais detalhado, não conseguiram cavar fundo o suficiente. Ele ainda não podia acreditar que Jhoira soubera com que frequência ele olhara para aquelas cartas, considerara responder e então as deixara de lado. Vezes demais. "Jhoira está bem?"

"Ela está em sua oficina na Plataforma de Mana." Ajani deu de ombros.

"E o Bons Ventos ?"

"Ela devolveu o Bons Ventos ao seu legítimo proprietário," disse Ajani. "Shanna o capitaneia."

"Ah, bom. Shanna estará à altura da tarefa." Karn servira com Sisay e ficou satisfeito em ver a nau voadora nas mãos de sua descendente. "Você se importa se eu ?" Ajani assentiu para a ponta de lança.

Karn deu de ombros.

Ajani não era tão alto quanto Karn, mas era alto o suficiente para ter que inclinar a cabeça para inspecionar a ponta da lança. Ele inseriu suas garras nas articulações de Karn com uma delicadeza surpreendente. "Sabe, todo Planeswalker passa por fases como esta. Nós nos retiramos, especialmente se tivemos um papel em mudar o destino de um plano. Eu vi isso repetidas vezes. Após uma grande caçada, você banqueteia e dorme. É natural, e não há vergonha nisso."

"Eu não banqueteio e não durmo," disse Karn.

"Isso não significa que você não precise se recuperar." Ajani removeu com cuidado a ponta da lança do corpo de Karn.

Karn nunca tivera permissão para "se recuperar" quando Urza o soltou como uma máquina de guerra. Urza explicara que era desnecessário e, indiferente ao cansaço de Karn, voltara sua atenção para outros projetos mais interessantes.

Ajani examinou a ponta da lança. Seu metal brilhava com um verde doentio na penumbra. "Você encontrou mais do que um desmoronamento de rochas. O que aconteceu aqui, meu amigo?"

Karn não desejava responder à pergunta — não até saber se podia confiar em Ajani. A visão que tivera ao tocar Sheoldred ainda pulsava dentro dele — agentes phyrexianos em todos os lugares, escondidos por toda Dominária. Esperando. "Há quanto tempo estou enterrado?"

"Alguns meses," admitiu Ajani. "Levou tempo para localizá-lo."

Meses perdidos. Meses que poderiam ter sido gastos na preparação.

As partes segmentadas de Sheoldred tinham deslizado por seus braços paralisados, por suas costas; como aranhas, elas tinham se derramado sobre ele. Ela teria tido tempo de sobra para se remontar. Rona também, ele tinha certeza.

"Você se machucou." Karn assentiu para Ajani, cuja garra havia rasgado a cutícula, um ferimento que muito provavelmente ocorrera quando ele cavara para tirar Karn do deslizamento de rochas. "Vamos retornar ao meu acampamento por suprimentos. Também devo verificar o equipamento sensível lá para verificar se ainda está funcional."

Karn não expressou o que mais temia: ele ainda tinha o silex e a tábua de argila?


Nos meses em que Karn estivera enterrado, seu acampamento permanecera imperturbado, mas não inalterado; as pequenas tendas tinham ficado encardidas de mofo.

Ajani encolheu os ombros. Ele tinha a aversão de um Planeswalker por essas cavernas. Mesmo que não se pudesse sentir diretamente as tecnologias interplanares, o modo como elas distorciam o tempo tornava o espaço claustrofóbico. Karn também podia sentir a pressão.

Karn guiou Ajani por seu acampamento bagunçado e então entrou em sua tenda principal. A caixa contendo o silex e a tábua permanecia onde ele a deixara e parecia estar trancada. Karn a ignorou, consciente dos olhos de Ajani sobre ele.

Karn localizou um barril com água — potável, embora ele normalmente a usasse para fins de limpeza — e um trapo. Ele entregou o trapo a Ajani para lavar e enfaixar seu ferimento.

"Por que você estava aqui, Karn?" Ajani enxaguou sua mão, removendo a areia que se alojara em seu ferimento.

Karn inventariou seu equipamento em busca de danos enquanto respondia. "Procurando por artefatos. Devido às propriedades únicas das Cavernas de Koilos, nem mesmo os arqueólogos mais empreendedores ou pesquisadores entusiastas as saquearam." Ele percorreu um circuito ao redor da tenda, em direção à caixa onde escondera o silex e sua tábua. Casualmente. A caixa parecia intacta, mas ele não ousou abri-la. Ele estendeu seus sentidos especiais. A tábua parecia mera argila, uma combinação de alumínio, silício, magnésio, sódio e outros oligoelementos. O silex zumbiu para ele: presente, mas indecifrável devido à sua poderosa magia.

Karn deixou a caixa de lado. Ele encarou Ajani e relatou tudo o que vira.

"Sheoldred escapou?" Ajani andava de um lado para o outro nos confins da tenda. "Karn, devemos avisar—"

"Eu tentei", disse Karn. "Muitas vezes."

"Agora você viu Sheoldred."

Karn desejou poder confiar em Ajani, mas balançou a cabeça. "As cavernas onde descobri o ponto de encontro phyrexiano não estão mais acessíveis. Não tenho provas de que os phyrexianos retornaram a Dominária."

"Não temos?" Ajani estendeu a ponta da lança. "Karn, há uma cúpula de paz entre os keldonianos e os benalitas. Se houver nações que levarão o retorno phyrexiano a sério, são essas duas. Proponho falarmos com seus líderes."

Ajani estava certo. De todas as nações de Dominária, Keld e Nova Benália eram as mais propensas a ouvir o aviso de Karn. Radha, a líder dos keldonianos, forjara novamente aquela nação robusta de guerreiros em uma força militar devastadora. Aron Capashen liderava os cavaleiros de Nova Benália, cuja paixão pela justiça tornava cada um deles valioso por uma dúzia de combatentes. "Deixe-me reunir minhas descobertas e equipamentos sensíveis antes de irmos."

Ajani tocou um amuleto pendurado em seu cinto. "Jhoira me deu um dispositivo de convocação para o Bons Ventos antes de me enviar. Shanna o honrará."

"O Bons Ventos pode ser um navio veloz, mas não é rápido o suficiente." Karn empilhou vários dispositivos sobre o baú que continha o silex e a tábua e carregou tudo em uma mochila. "Proponho que façamos a caminhada entre planos."


Karn não sabia como outros Planeswalkers percebiam as Eternidades Cegas, mas para ele o espaço interminável parecia veludo amassado, sua picada morna às vezes beirando a dor. A vertigem mergulhando através de Karn contrastava com a sensação de que ele não estava se movendo de forma alguma, o que estava em desacordo com a sensação de que ele se puxava por uma corda em direção a um destino desconhecido. Ele irrompeu através de uma fenda sedosa no ar fresco.

Karn estava com a erva até os joelhos entre gramíneas selvagens, papoulas laranjas e cardos de flores roxas. No interior, as fazendas pareciam jovens, terras recentemente desmatadas contendo campos amarelos com canola florescendo. As propriedades rurais se misturavam às montanhas, as florestas temperadas enevoadas pontuadas por prados alpinos esmeralda.

Se ele fosse humano, teria dado um único suspiro trêmulo.

Do seu outro lado, uma grande estátua de pedra protegia um porto cujos edifícios e ruas eram esculpidos em falésias de giz branco. Eras atrás, uma nau de portal phyrexiana deve ter decapitado a estátua, e a carcaça decrépita jazia sobre o pescoço da estátua. Coberta de madressilva, ela sombreava os toldos coloridos da cidade. No centro da baía, uma ilha desgastada e lisa sobressaía da água — a cabeça da estátua, agora lar de aves marinhas.

Ajani guiou Karn por caminhos estreitos, passando por casas modestas esculpidas no giz. Estas pareciam pequenas e bem usadas em contraste com a prefeitura recém-esculpida, que tinha dimensões grandes mas robustas, janelas largas e varandas emolduradas por colunas ornamentadas.

"Você sabe onde as negociações de paz estão ocorrendo?" perguntou Karn.

Ajani parou e inclinou a cabeça. "Siga o som da discussão, suponho."

Karn não conseguia ouvir nada. Os sentidos do leonino deviam ser espetaculares.

Ajani guiou Karn por uma área de recepção grandiosa, mas vazia, e depois por um lance estreito de escadas. Os corredores que ligavam as salas pareciam claustrofóbicos, iluminados apenas por tochas. Eles empurraram portas duplas com bordas de latão para entrar em uma sala cheia de luz dominada por uma longa mesa de granito. Uma ampla varanda dava para o mar, e um tordo-variado macho — peito laranja com colar preto, máscara preta e boné preto, uma criatura linda — pousava em seu parapeito.

De um lado sentavam-se os representantes da Casa Capashen de Benália. O nobre à mesa — Aron Capashen, um homem de meia-idade com pele ocre clara — tinha uma torre orgulhosa com sete janelas coloridas bordada em suas sedas. Os cavaleiros perfilados atrás dele, suas armaduras de prata cinzeladas com ouro, seus escudos de vitral mantidos a postos, possuíam o mesmo motivo dourado em seus peitorais.

Do outro lado, relaxavam os grandes guerreiros keldonianos de pele cinzenta com suas pesadas armaduras de couro e suas armas ainda mais pesadas. Sua senhora da guerra — Radha — sentava-se em frente ao nobre Capashen. Ela tinha a pele cor de cinza de um keldoniano, juba negra e músculos volumosos, mas as orelhas pontudas e as marcações azuis de uma elfa de Skyshroud.

Outros oficiais, liderados por um homem de Nova Argívia que tinha pele clara e cavanhaque preto, alinhavam-se aos lados da mesa de negociação de granito entre as duas partes em conflito.

Ajani e Karn devem ter chegado no momento em que as negociações estava prestes a começar, porque apenas um momento depois ambos Jodah e Jaya chegaram. Jodah entrou por um portal, passando por uma porta que sua magia cortara no ar. Seu escritório, apinhado de livros e quinquilharias, desapareceu quando o portal se fechou. Jaya transplanou para a sala, aparecendo com um clarão e o cheiro de carvão.

"Faz tempo, velho." Jaya deu a Jodah um abraço amigável.

Com seus traços joviais e cabelo castanho desgrenhado, Jodah poderia ser neto de Jaya, embora fosse milhares de anos mais velho que ela. "Veio buscar a prata da família?"

"Oh, não há nada de prata aqui que eu goste o suficiente para guardar — exceto pelo meu cabelo. Já verifiquei seus bolsos. Pensou em começar uma fazenda de cotão?"

Jodah sorriu. "Não estou preocupado. Sua língua é mais rápida que a ponta dos seus dedos."

O olhar de Jaya caiu sobre Karn e Ajani. "Bem, isso é uma surpresa. Vocês dois estão aqui para trabalhar nas negociações também?"

Ajani observou Jaya, solene. "Precisamos falar com você sobre o que Karn viu nas Cavernas de Koilos. Os phyrexianos retornaram a Dominária."

A conversa fiada na mesa de negociação deu lugar a um silêncio chocado. Jodah e Jaya trocaram olhares e depois voltaram sua atenção para Karn. Os keldonianos, benalitas e argivianos explodiram em discussão, os dialetos e sotaques sobrepostos transformando seus medos em balbúrdia. Apenas os cavaleiros benalitas permaneceram em seus postos, sua postura rígida um testemunho de sua disciplina.

Jaya empalidecera. "Parece pouco provável."

"Eu caminhei por este plano por milênios", disse Jodah, "e li as histórias, examinei os relatos. Visitei as ruínas: digo isso não para me gabar, mas para que saiba que falo a verdade — os phyrexianos não podem atravessar as Eternidades Cegas."

"Sheoldred viajou entre planos—", disse Karn.

"Somente Planeswalkers podem fazer isso agora." Jodah beliscou a ponte de seu nariz. "Se bem me lembro, Karn, essa é uma realidade que você ajudou a inaugurar." Sua idade — semelhante à de Urza quando este criara Karn — sobrepunha exaustão aos seus traços jovens. Karn não podia acreditar que Jodah negaria a verdade, não quando ele mesmo vira Sheoldred. Talvez a maioria dos phyrexianos não pudesse sobreviver à jornada pelas Eternidades Cegas, mas Sheoldred sobrevivera: mesmo que isso tivesse queimado seus materiais orgânicos, mesmo que a tivesse danificado e enfraquecido, de alguma forma ela conseguira.

Aron Capashen levantou-se e andou de um lado para o outro. Ele parecia agitado. "Os phyrexianos são história antiga. Não vejo o que você teria a ganhar afirmando isso."

"Localizei um ponto de encontro para uma nova invasão", disse Karn, "liderada por um dos líderes da Nova Phyrexia, uma pretora chamada Sheoldred. A Sociedade de Mishra a serve, e os phyrexianos estão completando dezenas de cidadãos comuns. Não podemos saber quantos phyrexianos estão estacionados pelas nações de Dominária. Eles podem até estar entre nós agora."

"Eu não tenho avisado vocês sobre isso?" O jovem nobre de Nova Argívia levantou-se. Com base em suas vestes bordadas a ouro e forradas de pele, ele devia ser um oficial importante. "Agentes adormecidos phyrexianos irão permear cada camada da sociedade se não agirmos agora. Pelo que sabemos, eles já o fizeram!"

Arte de:  Mila Pesic
Arte de: Mila Pesic

"Stenn, suas tendências alarmistas não estão ajudando", disse Jodah. "Karn, onde estão os phyrexianos agora?"

O tordo-variado fixou um olho miúdo nele, como se estivesse curioso sobre sua resposta.

Karn não tinha uma resposta. "Eles evacuaram enquanto eu estava incapacitado. Eu não sei."

Jodah suspirou. "A situação diplomática é sensível demais para interromper as negociações agora. Se você soubesse onde eles estão, seria uma questão diferente, mas sem informações mais sólidas, como uma localização, como poderíamos agir para erradicá-los?"

"E mesmo que os phyrexianos estivessem em Dominária", disse Jaya, "historicamente eles dividiram antes de conquistar. Se deixarmos este conflito entre Benália e os keldonianos sem solução, faremos exatamente o que eles querem."

O tordo saltitou ao longo do parapeito.

"Karn, você está me ouvindo?" perguntou Jodah.

Karn voltou sua atenção para Jodah. Ele colocou a ponta da lança sobre a mesa. "Estou."

"Eu já vi armas da Sociedade de Mishra antes", disse Jodah, suavemente.

"Quando foi que Karn mentiu?" Ajani rosnou. "Se ele diz que viu Sheoldred completando pessoas, então estamos em perigo."

"Eu acredito em você", disse Aron. "Mas não posso enviar meus soldados caçando sussurros e rumores por Dominária. Entre as hostilidades com os keldonianos e o combate ao ressurgimento da Cabala, eu não tenho combatentes."

"As tropas dele têm os mesmos compromissos que as minhas." Radha riu, um latido curto. "Suponho que tenhamos encontrado um terreno comum nisso."

Jodah olhou entre Radha e Aron. "Os phyrexianos não são uma ameaça há séculos. Eu sei que sua memória é longa, Karn. Assim como a minha. Se resolvermos a questão de hoje — o conflito entre os Capashen e os keldonianos — poderemos então discutir o remanejamento desses mesmos soldados para combater os phyrexianos."

Tantas pessoas tinham gritado no antro de Sheoldred, suas vozes finas e sua dor aguda sob as orações extáticas à glória dela. "E quanto às vidas que Sheoldred tira agora?"

Jodah colocou a mão no ombro de Karn. "Podemos não estar falando de algo tão grandioso quanto uma invasão interplanar, mas vidas estão sendo perdidas neste conflito. Elas importam, também."

"Iremos com você, Karn", disse Jaya. "Nós os procuraremos. Mas agora? Vamos nos concentrar na tarefa em mãos."

Karn sentiu a atenção da sala voltar para a mesa e as negociações.

O tordo voou para longe.

"Stenn", disse Jaya, "peça a alguém que mostre a Karn e Ajani os aposentos de hóspedes."


O quarto de Karn era simples, sua mobília básica mas bem feita: uma cama, uma mesa grande com duas cadeiras e um lavatório com uma bacia de porcelana. Karn empurrou a cama para um lado e moveu a mesa para o centro da sala. Ele descarregou sua mochila, tomando cuidado para garantir que o silex, ainda em seu estojo, estivesse seguro.

"O argumento mais coerente que Jodah e Jaya tiveram contra nos ajudar", disse Karn, "foi que não sabemos onde os phyrexianos estão. Se conseguirmos determinar a localização deles, seremos capazes de persuadir Jodah e Jaya a ajudar."

"E talvez os outros também." Ajani parou, seu corpo poderoso retesado. "Como?"

"Um dispositivo de vidência." Karn levantou a mão acima do tampo da mesa. Ele gerou primeiro o plano de visualização, uma folha de cobre coberta de cristal. Ele preencheu a estreita camada entre os dois materiais com líquido. O restante do dispositivo, uma montagem complexa de peças mecânicas, exigiu sua concentração. Seu corpo zumbia com a magia correndo através dele.

Ajani o observava, o azul pálido de seu olho sem cicatrizes atento. "O que é isso?"

"É para visualizar locais remotos." Karn deixou o orgulho transparecer em sua voz. Ele mesmo desenvolvera o projeto para aquilo e não conhecia nenhum outro dispositivo que pudesse atuar de forma semelhante. Karn concentrou-se em Jhoira. Não em seu rosto. Não em sua presença física, mas em sua essência, nas qualidades que a tornavam Jhoira . Como ela sempre via através das circunstâncias de uma pessoa até sua essência. Como ela estava disposta a dar a todos o benefício da dúvida.

A Plataforma de Mana se formou dentro do cristal. No início embaçada, a imagem se encheu de profundidade e depois de cor. Empoleirada na beira de um penhasco no deserto brutal de Shiv, a estrutura metálica tinha o tamanho e a complexidade de uma pequena cidade. A imagem se fechou em um único local, uma oficina com Jhoira nela. Ela estava sentada em uma bancada, com a cabeça baixa, o cabelo bronzeado preso e caindo entre as escápulas. Ela alternava um interruptor desconectado para frente e para trás, como se estivesse pensando.

"Você consegue ver Sheoldred?" perguntou Ajani.

Com facilidade demais Karn conseguia visualizar Sheoldred: seu torso humanoide erguendo-se de seu corpo semelhante ao de um escorpião; sua voz, íntima e ressonante dentro de sua cabeça. Karn tais planos.

A imagem do vidente dissolveu-se em névoa. Karn recostou-se sobre os calcanhares. Ajani olhou para Karn. "Eles devem ter proteções em vigor para nos impedir de perscrutá-los."

"Uma precaução sensata." Infelizmente.

Ajani tirou do cinto o amuleto que podia convocar o Bons Ventos . Ele o colocou na palma da mão de Karn. "Você precisará disto."

Karn examinou o amuleto. Parecia um dispositivo simples. "Posso duplicar isto."

Ajani sorriu, com os lábios fechados. "Ainda melhor."

Karn estendeu seus sentidos para o amuleto. Ele o reproduziu, o metal se enrolando na ponta de seus dedos para formar um amuleto idêntico. Ajani prendeu o original em seu cinto enquanto Karn fabricava uma corrente para sua cópia. Karn pendurou o amuleto em seu pescoço, sentindo-se estranho com o adorno. Normalmente ele evitava tais coisas.

Um tordo-variado pousou no parapeito da janela de Karn, atrás do ombro de Ajani.

Se Karn pudesse atrair os phyrexianos, não precisaria encontrá-los. Ele saberia onde eles estavam. Os phyrexianos queriam neutralizar as armas mais poderosas de Dominária. Isso incluía o silex. Ele usaria a notícia de sua presença para atraí-los para campo aberto. Mas primeiro ele tinha que esconder o silex em algum lugar seguro.

"Talvez se pudéssemos falar com Jaya sozinhos", sugeriu Ajani, "pudéssemos persuadi-la. Ela não é uma diplomata de coração."

Karn olhou para o tordo-variado, tão quieto, tão atento. "Talvez."

Arte de:  Allen Williams
Arte de: Allen Williams

Karn entrou nas negociações. Stenn estava colocando um tinteiro sobre a mesa de granito enquanto Jodah e Jaya entregavam canetas de pena tanto para Radha quanto para Aron Capashen. Ele não desejava interromper antes que assinassem. A brisa do mar soprava pela varanda, fresca com o toque da primavera.

"Você é uma líder impressionante", disse Aron. "Estou orgulhoso de entrar nesta nova era com você."

Radha sorriu. "Você gosta mesmo de falar bonito."

"E você gosta de ser confundida com um bruto", disse Aron Capashen. "Qualquer um que a tome por uma simples guerreira logo deve se arrepender."

Jodah sorriu. "Radha, Aron levará este acordo às outras casas para apresentá-lo para ratificação. Eu o acompanharei para garantir que este processo seja concluído nos próximos meses, durante os quais todas as hostilidades nas Colinas da Geada cessarão."

Radha levantou as mãos, cedendo. "Sim, sim. Os locais sagrados não valem mais nenhuma guerra — não importa quais artefatos possam conter."

Uma brisa agitou a sala enquanto uma conta de luz azul-claro se formava no ar. A luz girou para fora em um disco que brilhou em azul-celeste enquanto Teferi passava pelo vórtice. Ele envelhecera bem: seus ombros haviam se alargado com a meia-idade, fios grisalhos entremeavam seu cabelo e sua pele âmbar tinha o rubor quente da saúde.

"Outro Planeswalker?" Aron recostou-se em sua cadeira, exasperado."Deve ser um sinal de tempos interessantes," disse Radha.

Jodah se levantou. "O que aconteceu?"

"São os Phyréxianos — eles estavam em Kamigawa." Teferi fechou os olhos e balançou a cabeça. "Dado o que Kaya me contou sobre o que viu em Kaldheim —"

"Eles podem viajar entre planos," disse Jaya, com os lábios cerrados.

Após um momento, Jodah disse: "Isso é alarmante, para dizer o mínimo."

Karn não explicara isso tanto para Jaya quanto para Jodah? Ele tinha visto isso com seus próprios olhos. Sentiu o toque de Sheoldred em seu corpo, em sua mente. No entanto, Teferi chegara trazendo notícias de segunda mão, e Jodah e Jaya acreditaram em suas afirmações? Onde estavam seus pedidos de "prova de um local" agora?

Karn poderia muito bem ter sido uma estátua por toda a consideração que lhe deram. E a ameaça de que Teferi os alertara nem sequer estava em Dominária.

Mas nada disso importava. Apenas um fato permanecia relevante: "Se os Phyréxianos viajaram entre múltiplos planos, então seus planos de invasão são muito mais amplos e bem coordenados do que prevíamos."

Radha ficou tensa. "Então devemos lutar."

Aron balançou a cabeça. Seus cavaleiros pareciam inquietos, as mãos contraindo-se em direção às espadas como se esperassem entrar em ação. "Eu nunca teria pensado que viveria para ver outra invasão phyréxiana."

"O verdadeiro Crepúsculo chegou," sibilou um dos guerreiros de Radha. "Como podemos combater tais criaturas?"

"Por pior que seja," disse Stenn, "o que virá é pior."

Jodah lançou a Jaya sua expressão mais calma de "ajude-me". Jaya acenou com a mão para Karn e Ajani, como se pedisse para que retirassem Teferi, a origem dessa interrupção. Radha e Aron não haviam assinado — e isso fazia parecer que não assinariam. Jodah parecia ter mordido um pedaço de alumínio carregado.

"Tenho a sensação de que meu momento foi menos que imaculado," disse Teferi.

"Não diga," disse Jaya, e deu-lhes um olhar significativo.

"Não tenho certeza sobre esta cláusula de proteção mútua —" Aron começou.

"Pode ser melhor olhar para nossas próprias costas, nossos próprios povos —" disse Radha.

Karn conduziu Teferi em direção à porta. Teferi deixou-se levar.


Como o transplanar havia exaurido Teferi, Karn e Ajani o levaram para a suíte adjacente à deles.

Lá fora, a chuva de primavera tamborilhava contra a encosta do penhasco. As plantas de alecrim crescendo das fendas na pedra perfumavam o ar que entrava pelas janelas sem vidro. O aroma do alecrim agradava Karn porque ele gostava? Ou porque Urza o projetara para gostar? Karn nunca saberia.

Teferi sempre fazia Karn considerar suas origens. Nem sempre de forma confortável.

"Como está Niambi?" Karn perguntou.

"Ela está prestando assistência médica às tribos nômades em Jamuraa." O orgulho de Teferi por sua filha irradiava dele. "E Jhoira?"

"Não falo com Jhoira há algum tempo." Karn desejou que Urza tivesse feito seu rosto com a mobilidade de um humano e sua sutileza em microexpressões, para que fosse mais fácil sinalizar para Teferi que ele não desejava falar sobre isso.

Ajani olhou entre Teferi e Karn como se o silêncio constrangedor que se estendia entre eles fosse visível, um pedaço de corda esticado o suficiente para vibrar. "Algo mais está incomodando você."

"Eu não quis dizer isso diante dos keldonianos e benalitas," admitiu Teferi, "mas eles levaram Tamiyo. Até mesmo Planeswalkers podem ser vulneráveis a eles agora Esperamos tempo demais, Ajani."

Ajani congelou, o choque evidente em seu rosto. "Tamiyo?"

Teferi assentiu cansado. "Podemos discutir isso depois que eu descansar um pouco."

Karn observou enquanto as mãos de Ajani se fechavam em punhos cerrados, raiva e tristeza cruzando o rosto de seu amigo. Ele não sabia que eles eram próximos.

"Eu também deveria descansar," disse o leonin após um momento.

Karn aceitou isso como sua deixa para partir. De volta ao seu quarto, ele abriu a maleta com o silex e a placa dentro. Ele removeu a placa, trancou a maleta novamente e a colocou sobre a mesa. Ele a manteria aqui para pesquisá-la. Mas o silex — aquele ele precisava realocar.

Em algum lugar seguro. E ele conhecia o lugar exato.

Karn pressionou as palmas das mãos no cobre coberto de cristal do vaticinador. A imagem de Jhoira apareceu. Ela não estava mais em sua oficina, mas dormindo, com o rosto amassado no travesseiro, seu cabelo castanho-avermelhado caído em uma trança bagunçada sobre uma bochecha. Karn deixou a imagem desaparecer.


Evadir os guardas da Baía da Ostra foi simples: as pessoas aqui podem ter sido grandes piratas outrora, mas não haviam adotado a banalidade organizada do dever de guarda. Karn, vultoso nas sombras, evitou qualquer luz que pudesse brilhar em seu corpo. Ele escorregou pelas ruas esculpidas da cidade, mantendo-se na escuridão, subindo e contornando até o topo do penhasco.

Ele caminhou ao longo da espinha do navio portal phyréxiano, seu metal degradado suavizado por flores silvestres como ásteres roxos e vara-de-ouro, em direção a uma colina coberta de jovens bordos-vinha. Samambaias roçavam as canelas de Karn, e o ar úmido condensava-se em seu corpo.

Agora a uma distância suficiente para evitar alertar os sentidos de Jaya e Jodah, Karn atravessou as abrasadoras Eternidades Cegas, abrindo uma ferida nelas. As bordas tremularam contra seu corpo. Ele passou por elas para Shiv e o Equipamento de Mana, direto para a oficina de Jhoira. Havia um silêncio ofegante, como se cada instrumento nela esperasse que Jhoira acordasse.

Karn localizou um armário de suprimentos. Ele guardou o silex e sua maleta na prateleira mais baixa, atrás de pedaços de canos cuja poeira prometia que Jhoira não precisara deles recentemente. Ele gerou dois dispositivos: um alarme que dispararia se os canos se movessem, e outro alarme sensível ao peso que o notificaria se alguém movesse a própria caixa. Pronto. O silex estava seguro. Ou tão seguro quanto poderia estar. Karn voltou para as Eternidades Cegas.

Arte por: Adam Paquette
Arte por: Adam Paquette

De volta à colina arborizada, Karn desceu em direção à Baía da Ostra. Uma luz brilhou entre as bétulas pálidas de troncos esguios. Uma silhueta segurava uma lâmpada no alto. Karn parou, mas a lâmpada já havia brilhado em seu corpo. Ele fora visto. A figura se aproximou. Stenn, o nobre de Nova Argívia da mesa de negociações.

Um bacurau cantou, seu gorjeio baixo viajando entre as árvores.

E se suas precauções não tivessem sido suficientes?

"Dando um passeio?" Stenn chamou.

"Sim," disse Karn. "Eu não durmo. Você está acordado até tarde?"

"Não, acordado cedo." À medida que Stenn se aproximava, suas feições tornavam-se mais claras. Sua barba estava aparada e seu cabelo arrumado. "O amanhecer é o único momento em que me sinto verdadeiramente seguro. Em paz. Com o cheiro de pão assando pairando sobre a cidade, com os cidadãos começando a acordar, posso imaginar que não estamos em guerra."

A manhã começara a branquear o céu. O ar tinha gosto de orvalho e canela.

"Ouvi os outros Planeswalkers dizendo que você é imune à influência phyréxiana?"

"Sim."

"Isso significa que você pode ser o único Planeswalker em quem se pode confiar." O manto de zibelina de Stenn estava coberto de gotículas de água. "Você não é o único que sabe ler os sinais de invasão. O Rei Darien me encarregou de descobrir agentes phyréxianos. Obviamente, isso não é de conhecimento comum."

"O que você fará depois de descobrir tal agente?" Karn perguntou.

"O que deve ser feito," disse Stenn. "A única coisa que pode ser feita. Uma vez que alguém é completado — está perdido, quer saiba ou não."

"Eles não sabem eles mesmos?"

"Não," disse Stenn. "Acho que são mais úteis para os Phyréxianos — e mais difíceis de descobrir — se eles mesmos não souberem."

Fazia sentido que aqueles forçados a agir contra seus próprios interesses, suas famílias e seu próprio plano, fossem mantidos alheios às suas próprias ações. Os Phyréxianos deviam estar inserindo esses agentes adormecidos inconscientes em todos os lugares. No entanto, matar tais pessoas, pessoas que já haviam sido tão injustiçadas O Rei Darien deve ter selecionado Stenn por sua crueldade.

"Você já pegou tal agente?" Karn perguntou.

"Não. Ainda não." Stenn contemplou o mar banhado pelo amanhecer. Barcos de pesca deslizavam pelas ondas, velas beges enfunadas. "As notícias de Teferi os assustaram."

Karn assentiu. "Eles deveriam estar assustados. Você acha que Benália e Keld se unirão?"

"Não sei," admitiu Stenn, "mas sei que posso prometer isto: Nova Argívia se mobilizará. Estaremos ao seu lado na defesa de Dominária."

Karn assentiu, aliviado por alguém tê-lo considerado uma fonte confiável. Ele encontrara seu primeiro aliado disposto a fornecer apoio militar. "Podemos discutir os detalhes mais tarde."

Na cidade, poucos pareciam despertos — apenas padeiros colocando pães levedados nos fornos e crianças ordenhando cabras e alimentando galinhas. Às vezes, Karn imaginava suas dores: perder um galo de estimação para a mesa de jantar, derramar um balde de leite necessário. Muito depois de essas pessoas terem morrido, Karn continuaria a ponderar sobre suas vidas.

Ele se sentia velho. Velho e cansado. E a bela brevidade das crianças parecia uma tragédia insuportável nesta manhã silenciosa.

Quando Karn chegou à prefeitura, Ajani estava acordado, andando entre fileiras de trepadeiras de glicínias. Ajani parou, seu corpo tremendo de tensão, e sua cauda chicoteou uma vez. Karn suspeitou que este não fosse um gesto voluntário. Ele vira como o leonin parecia sufocar seus maneirismos não humanos quando perto de humanos. O olho azul de Ajani captou a luz na penumbra, a pupila brilhando com o verde de um predador.

"Karn. Você acha que os humanos já acordaram?" Ajani perguntou. "Jodah e Jaya sentarão os representantes à mesa de negociações mais uma vez hoje."

Karn não conseguia ter paciência com a forma como Jodah continuava a priorizar este pequeno conflito humano antes da ameaça phyréxiana. "Alguns sim. Encontrei Stenn esta manhã, e ele prometeu as forças de Nova Argívia."

"Então vamos falar com Jaya," disse Ajani, "antes que as negociações recomecem."


"Vocês dois seriam muito mais compassivos comigo agora se tivessem ouvido falar de uma substância chamada 'cafeína'," murmurou Jaya.

"Eu ouvi falar dela," disse Karn.

"É vil," disse Ajani.

Teferi entrou na sala e abriu as portas da varanda. A brisa marinha gelada refrescou o ambiente, trazendo consigo o canto dos pássaros da primavera. Uma gaivota pousou na varanda e inclinou a cabeça, olhando para o pãozinho de Teferi de forma significativa. Um tordo-variado pousou no corrimão e saltou por ele. Poderia ser o mesmo pássaro de ontem? Como um pássaro da floresta tão tímido, com seu peito laranja, poderia tolerar uma gaivota?

"Não é importante quem pode cobrar quais impostos em qual fronteira," disse Ajani. "Deveríamos estar priorizando a luta contra os Phyréxianos."

"Correto." Karn observou o tordo. "E manter o silex longe das mãos phyréxianas."

"O silex?" Ajani sobressaltou-se. "Você o trouxe consigo?"

"Eu o tive em minha posse," disse Karn, "pois planejava usá-lo em Nova Phyréxia e erradicar a ameaça phyréxiana em sua fonte, uma vez que determinasse seu funcionamento."

"Karn, concordamos em lidar com isso juntos. Você não pode ir lá sozinho," disse Teferi, sério.

"Você mesmo disse que esperamos tempo demais. Todos vocês me prometeram ajuda e depois me disseram para ser paciente. Não mais," disse Karn.

O tordo nem sequer fingia bicar migalhas invisíveis.

Karn agarrou o pássaro. "Eu sei o que você é."

"Karn —" disse Jaya.

O peito do pássaro se abriu e cabos dispararam. Os cabos, viscosos com sangue e limo, envolveram a cabeça de Karn. Uma gosma escorreu por sua pele e uma bocarra no centro do tentáculo procurou por apoio na bochecha de Karn, seus dentes raspando no metal liso. Karn reajustou sua pegada no corpo escorregadio da criatura, tentando puxá-la de seu rosto. Mas seus fios haviam se enrolado completamente em sua cabeça, travando-se em um emaranhado espesso na nuca. Os dentes da criatura prenderam no lábio de Karn. Ela cravou protuberâncias em forma de agulha nele, como se quisesse injetar alguma substância, e as agulhas quebraram.

"Está perto demais do Karn," gritou Jaya. "Não posso explodi-la."

"Deixe comigo —" disse Ajani.

O limo escorreu da criatura e chiou na pele de Karn, corroendo seu metal. Doeu. A criatura serpenteou seus tentáculos entre as juntas do pescoço de Karn e ao redor de seu colarinho, como se tentasse forçá-lo a se abrir. Karn grunhiu e forçou seus dedos entre o corpo escorregadio da criatura e seu rosto. Ele a arrancou de si, arremessando-a através da sala, onde ela bateu contra a parede oposta e deslizou. A criatura rastejou como uma lagarta em direção à porta.

Teferi ergueu as mãos, desacelerando a criatura dentro de um campo turvo para evitar sua fuga rápida. Ajani lançou-se à frente e perfurou a criatura com suas garras, prendendo-a ao chão. Ela gritou e se contorceu. Ácido jorrou da ferida.

Karn, com o rosto ainda fumegando pelo limo corrosivo da criatura, estendeu ambas as mãos, uma sobre a outra. Ele gerou uma gaiola de pássaros, construindo-a para cima até que as barras se unissem em uma cúpula. Ajani arrancou a monstruosidade do chão e a jogou dentro da gaiola.

Ela sacudiu as barras, guinchando.

Jaya cruzou os braços. "Parece que Jodah tem coisas maiores com que se preocupar do que impostos."


Karn colocou o pássaro phyréxiano sobre a mesa de negociações de granito. Jodah inclinou-se em direção a ele, com os olhos arregalados. A criatura na gaiola sibilou para ele. Aron Capashen parecia doente. Seus cavaleiros benalitas não se moveram, sua disciplina era de ferro. Radha olhou fixamente, com os olhos brilhando. Seus guerreiros começaram a murmurar orações. Os lábios de Stenn se estreitaram em satisfação por seu ponto ter sido provado.

"Eles estão aqui," murmurou Jodah. "Entre nós."

"Eu lhe disse —" disse Stenn.

Três dos cavaleiros benalitas explodiram para fora de suas armaduras. Seus olhos estouraram em uma chuva de óleo preto brilhante e suas mandíbulas se distenderam, dentes de metal emergindo de sua carne para cravar suas bocarras escancaradas. Fibras metálicas saíram por entre as frestas de suas armaduras. Uma das criaturas girou em direção à mesa de granito, com as mãos em garra unidas em um punho duplo. Ela golpeou a mesa de granito com as mãos, partindo-a ao meio.

"As negociações terminaram," disse ela.

Seu camarada agarrou Aron com seus tentáculos contorcidos, envolvendo-o como uma aranha faria com uma mosca.

Karn avançou, Teferi e Ajani flanqueando-o. Jaya ergueu as mãos, invocando fogo em suas palmas. Jodah reuniu energia, distorcendo o ar ao seu redor com fitas de cor, e então a solidificou em um campo de força para proteger os soldados benalitas inalterados dos Phyréxianos.

Arte por: Dominik Mayer
Arte por: Dominik Mayer

"Por Gerrard," bramou uma mulher, erguendo sua espada. Ela se esquivou da barreira de Jodah para atacar seus ex-companheiros. O cavaleiro phyréxiano evitou seu golpe dividindo-se em dois: ele se separou em dois pedaços carnosos, pernas brotando do que antes eram órgãos internos brilhantes. Ambas as metades atacaram.

"O primeiro vento da ascensão é o Forjador," gritou Radha, recuando em direção à porta. Ela — como Aron — viera à mesa de negociações desarmada.

"Queimando a impureza!" Seus guerreiros bramaram, formando-se ao redor dela para protegê-la. Eles lutaram contra os tentáculos que se estendiam para agarrá-la, decepando os membros dos Phyréxianos. Mas qualquer apêndice que atingisse o solo parecia ganhar vida própria, brotando pernas e dentes, contorcendo-se em direção aos keldonianos em retirada.

Os argivianos recuaram, juntando-se aos keldonianos, lutando com seus floretes, as armas de nobres que nunca tinham visto uma batalha e nunca esperavam ver. O próprio Stenn empunhava apenas uma adaga. Separado de seu povo, ele recuou entre os estilhaços da mesa quebrada até alcançar a coroa de chamas protetoras de Jaya. Karn quase alcançara Aron.

O phyréxiano que o segurava soltou uma risada baixa, como uma válvula de vapor se abrindo. Ele enrolou seu corpo ao redor de Aron e saltou para uma varanda vizinha. Ajani rosnou de frustração e lançou-se atrás dele.

Ajani! Karn não podia seguir — as varandas quebrariam sob seu peso se ele tentasse pular atrás do ágil Ajani. Karn fez um ruído baixo no peito, de frustração, e deu um passo atrás. Teferi praguejou.

"Não consigo saltar essa distância," disse Teferi.

Os keldonianos haviam chegado à porta.

"Não desejo deixá-lo, Arquimago," gritou Radha. "Keld está com Dominária — pelos dominarianos. Lutaremos contra esta blasfêmia ao seu lado, para defender todos os povos."

"Vão," gritou Jodah. "Lutaremos juntos outro dia!"

"Há muitos deles," disse Karn. "Bloqueiem-nos nesta sala!"

Radha assentiu uma vez.

As portas duplas de latão se fecharam batendo, trancando os Planeswalkers e o mago na sala com os Phyréxianos.

Jaya girou as mãos para cima e ao redor, bloqueando os Phyréxianos de Jodah, protegendo-o. Sua chama ardia em branco com um calor vicioso. Karn não tinha dúvidas de que a magia de Jaya poderia derrotar até mesmo aquilo. Ele avançou através do calor. Ele queimou os tentáculos que tentavam se infiltrar nas juntas de seu corpo, acabando com eles.

"Por mais que eu adorasse fazer isso o dia todo," disse Jaya, lançando uma bola de fogo em um pedaço retorcido de metal e carne, "Jodah?"

"Reuni a energia." Os olhos de Jodah brilhavam com ela, sua pele incandescente. "Mas preciso saber para onde direcioná-la para criar o portal. Um local seguro."

"Argívia," arquejou Stenn. Ele removeu um pedaço de tentáculo de si com sua lâmina e o pisoteou. Sangue e óleo jorraram sob sua bota, e ele se voltou para o próximo tentáculo que se aproximava e o atravessou. "A torre de vigia de Nova Argívia."

"É um lugar tão seguro quanto qualquer outro." Karn recuou em direção a Jodah, Teferi ao seu lado.

O portal de Jodah surgiu girando atrás dele. Abriu-se como uma porta cortada no próprio ar, revelando uma pequena sala circular.

Jodah recuou através dele para sustentá-lo do outro lado.

"Eu os manterei afastados," disse Jaya, queimando os cabos contorcidos com seu fogo. "Se conseguirem atravessar o portal, explodirei esta sala com tal fogo que nem um único pedaço de phyréxiano restará. Vão!"

"Meus agradecimentos," disse Stenn. Ele também recuou através do portal.

"E os meus também," disse Teferi, e desapareceu através do vórtice giratório.

Jaya sorriu em triunfo enquanto erguia as mãos em um clarão de fogo e incendiava toda a sala. Os gritos dos Phyréxianos, úmidos e não naturais, silvaram.

Karn atravessou o portal. A magia formigou por sua pele e o engoliu, depositando-o do outro lado. Uma forma, no ar, passou rapidamente por ele. Karn virou-se para procurá-la. Ele não conseguia ver nenhum movimento na pequena sala, exceto por aqueles que haviam chegado com ele: Stenn, Jodah, Jaya, Teferi e ele mesmo.

Jaya, a última a atravessar o portal, juntou-se a Karn ao seu lado.

Jodah fechou o portal e desabou, caindo no chão. Transportar tantas pessoas não era tarefa fácil — nem mesmo para Jodah.

Os humanos todos sentaram-se no chão, suando, ofegantes e sangrando, enquanto Karn permanecia de pé. Ele procurou na sala pela sombra bruxuleante. A sala da torre tinha pequenas janelas em arco rodeando-a e estava vazia, exceto por um pedestal no centro, que parecia ter um painel de controle. Acima, uma luz dourada brilhava através de um cristal — não, não um cristal: uma pedra de poder.

Uma sombra passou pela face da pedra de poder.

"Um nos seguiu," disse Karn.

"Não devemos deixá-lo escapar. Poderia causar estragos na cidade." Stenn acionou uma chave no painel de controle central. A torre de vigia estremeceu enquanto as engrenagens ganhavam vida. O interior das paredes ecoou com o tilintar de correntes em movimento. Venezianas de aço e portas blindadas fecharam-se batendo, bloqueando toda a luz. A sala instantaneamente pareceu mais abafada, mais claustrofóbica. Stenn entregou a chave a Karn. "Você é o único que é incorruptível, então é justo que você a tenha."

Jaya bateu o ombro no de Jodah. "Você nunca se cansa de estar certo, não é?"

"Os milênios podem passar, mas não. Não, não me canso." O sorriso de Jodah desapareceu e ele se voltou para Karn.

"Nada e ninguém pode sair enquanto a torre estiver bloqueada," disse Stenn.

Teferi observou as venezianas de aço. "Devemos capturar e destruir o phyréxiano preso aqui. E devemos determinar se algum de nós foi comprometido. Precisamos saber em quem podemos confiar antes de planejarmos como derrotá-los."

"Acordado," disse Jodah.

O grupo revistou a sala. A pequena coisa phyréxiana que viera com eles havia escapado da câmara. Karn presumiu que ela devia ter se escondido através de alguma fenda na pedra. Ele pendurou a chave na mesma corrente que usava para pendurar o vaticinador e o sinalizador para convocar o Bons Ventos e virou-se para encarar seus companheiros. Um calafrio de inquietação percorreu seu corpo, como se uma corrente elétrica o atravessasse. Jodah, Jaya, Teferi, Stenn Como ele poderia determinar em quem confiar?

Se os Phyréxianos já estavam em Dominária, em quem alguém poderia confiar?

Episódio 3: A Torre Trancada

Arte de: Bryan Sola
Arte de: Bryan Sola

Karn desejava estar sozinho. Ele desejava estar trabalhando em pesquisas — se ao menos pudesse se perder na nitidez de uma fórmula matemática, se ao menos pudesse esquecer como era ter óleo e sangue secando em seu corpo. Mas ele não podia escapar. Estava trancado na torre de vigia de Nova Argívia, em uma pequena sala circular no andar superior cercada por janelas com venezianas de aço. O brilho amarelo suave da pedra de energia acima iluminava um pedestal com um painel de controle abaixo dele. Apenas ele tinha a chave que encerraria o bloqueio da torre, e ele não a usaria, não até que tivessem capturado o phyrexiano, e não até que soubesse com certeza que seus companheiros — Jodah e Jaya, Teferi e Stenn — estavam livres da influência de Nova Phyrexia.

"— Onde está o silex? — perguntou Jaya.

— Seguro — respondeu Karn.

Ele se virou para que os outros não vissem seu rosto. Precisava de um pano, mas não conseguia gerar um. Estendeu as mãos e extraiu partículas do éter, criando uma pequena escova de arame, idêntica àquela que usara há tantos anos para se limpar depois que Urza o enviou para a guerra. Suas palmas efervesceram com magia enquanto o metal se acumulava.

— Por que não nos dizer onde está agora? — perguntou Jaya.

Teferi esticou o pescoço como se ainda estivesse procurando a criatura espiã phyrexiana no teto. — Até mesmo Planeswalkers podem ser corrompidos agora. Karn é o único com imunidade ao óleo.

Embora Karn apreciasse o fato de Teferi o defender, não gostava que falassem dele como se não estivesse na sala, como se fosse um objeto. Mas ele supunha que velhos hábitos demoram a morrer. Teferi fora aluno de Urza antes do nascimento de Karn.

— Eu não sou uma espiã. — Jaya parecia insultada.

— Você não saberia se fosse — disse Stenn.

— Tenho um plano para encontrar e derrotar Sheoldred — disse Karn. — Eu lhes direi qual é assim que tivermos assegurado a torre.

Jodah esfregou as têmporas, parecendo irritável e abatido. Karn suspeitava que abrir portais para todos eles tivesse esgotado a capacidade do mago. Jodah disse: — Vou confiar em você. Eu deveria ter feito isso antes, de qualquer forma.

— Não posso dizer que gosto da ideia de ter que me provar para você, Karn — disse Jaya. — Consigo entender por que você acha que temos que fazer isso. Mas não gosto. Meus dias de circo acabaram, e nunca tive muito interesse em fazer truques.

— Precisamos encontrar a criatura phyrexiana primeiro — disse Jodah.

— Dividirmo-nos será a maneira mais eficiente de procurar a criatura — disse Karn.

— Jaya e eu podemos ficar com os andares superiores — disse Jodah. — Teferi e Karn podem ficar com os inferiores.

— Isso me deixa sozinho no nível do porão. — Stenn fez uma careta. — Suponho que seja melhor assim. É basicamente uma grande sala de caldeiras. Estou gostando cada vez menos deste plano.


Karn conduzira Teferi pelas escadas estreitas de metal. A grade rangia sob os pés, projetada para acomodar uma estrutura humana leve, não uma tonelada de metal.

O corredor no terceiro andar era estreito, a pedra cinzenta.

Um clique, e lâmpadas mecânicas oscilaram em uma vida pálida. — O interruptor que controla as luzes fica ao lado da porta — disse Teferi, satisfeito.

— Pode ter passado por aqui. — Karn tocou com os dedos um rastro de sangue e gosma na parede, na altura do ombro. — Vamos segui-lo.

O rastro terminava em uma porta com a etiqueta "ARMAZENAMENTO: OBRAS HIDRÁULICAS". Bolhas de gosma cobriam a dobradiça, como se a criatura tivesse se espremido pela fresta. Teferi agachou-se. Ele não tocou, mas sua mão pairou sobre a sujeira. Olhou para Karn. — Devemos chamar os outros?

— Ainda não. — Karn fez uma pausa. — Não sabemos se a criatura ainda está aqui.

Teferi abriu a porta apenas uma fresta, depois hesitou.

Quando nada saltou pela abertura, Teferi escancarou-a e entrou. Karn o seguiu. Prateleiras altas de canos de cobre não utilizados surgiam de um lado. O outro lado tinha estantes de aço com caixotes de madeira transbordando de engrenagens, flanges e válvulas. Karn não conseguia ver mais sinais da passagem da criatura.

No entanto: — Teferi, vamos revistar a sala.

As passagens apertadas entre as prateleiras de armazenamento foram projetadas para admitir humanos. Karn sentia-se grande e desajeitado. Seus cotovelos batiam nos canos e ele esbarrava em caixas ao passar pelos corredores estreitos. Ele parou, então se ajoelhou, abaixando-se desajeitadamente sob um cano de vapor baixo. Sangue pingava da parte inferior de uma prateleira.

Ele seguiu o fluido para cima, até sua fonte. Parecia que vários canos estavam... sangrando? Um pedaço pulsante de carne havia se prendido, como uma craca, ao cobre. Liberou um jorro de ácido, dissolvendo o metal, e então regurgitou uma farpa metálica de seu flanco. Karn estendeu a mão para o depósito carnudo e o esmagou.

— Karn, preciso que venha aqui.

Karn seguiu a voz de Teferi e o encontrou parado no canto perto de uma estante de madeira com potes de selante empilhados. Teferi pressionou os dedos nos lábios e inclinou a cabeça em um gesto de "escute".

— Não gosto disso. — A voz de Jodah ecoava pelos canos, clara.

— Não gosta de quê? — disse Jaya.

Karn franziu a testa para Teferi. Teferi apontou para um duto.

— Que Karn nos faça procurar antes de nos contar seu plano. — Jodah parecia incomodado. — Não deveríamos conversar sobre isso juntos, resolver os detalhes em equipe?

Karn seguiu o duto com o olhar. Os canos desapareciam no teto.

Apesar da objeção anterior de Jaya sobre ter que se provar, Karn ouviu sua risada baixa. — Oh, so you're assuming your way is the only way to do this? Remind you of anyone?

— Jaya, não é como se...

— Continue. — A risada de Jaya ressoou. — Proteste um pouco mais. Isso realmente vai ajudar o seu caso.

As vozes sumiram.

Karn contemplou o duto acima. — Parece possível que o espião phyrexiano possa usar estes dutos para viajar entre os andares.

Teferi apontou, sem tocar, para o óleo preto no canto do duto, e depois para um duto no chão. Karn agachou-se para observá-lo. Parecia que o metal fora canibalizado, ou possivelmente transformado, em um globo ocular, cercado por dentes pequenos e cruéis em vez de cílios. Pequenos olhos adicionais aninhavam-se ao lado dele, abrindo e fechando. Acima, um ruído de passos rápidos, depois o clique de garras de metal ressoando pelos dutos.

Teferi esticou o pescoço. — O que você acha que devemos fazer?

Karn girou, procurando a fonte do ruído. Ele parou. Ele o havia perdido. — Ao contrário dos outros, você não parece se importar com a minha criação unilateral de um plano.

— Urza usou você como uma ferramenta — disse Teferi. — Eu nunca questionei isso. Eu deveria ter questionado, e recentemente... Niambi me fez pensar. Eu gostaria de ter sido mais atencioso quando era mais jovem. Mais observador. E de ter tratado você melhor.

Karn seguiu um ting-ting-ting ao longo dos canos. Ele o perseguiu até o canto da sala de armazenamento e localizou um pequeno duto no chão. Gosma e sangue escorriam entre as fendas de metal, espessos e coagulando. — Devemos voltar para as escadas e descer para o segundo andar.

Karn conduziu Teferi de volta à escada. O metal rangeu sob seu peso, mas não dobrou. Os parafusos que o fixavam à pedra aguentaram.

As palavras de Teferi não chegaram a ser um pedido de desculpas, mas foram sinceras. Karn entendeu que o que estava prestes a fazer era manipulador, dada a conversa atual deles. Mas sentiu que tinha pouca escolha. — Obrigado, Teferi. Preciso da sua ajuda. Nem mesmo eu consigo vigiar o silex continuamente usando o dispositivo de vidência. Eu o escondi em uma caverna marinha perto de Tolária Ocidental.

Teferi assentiu, solene. — Honro sua confiança em mim. Posso ajudá-lo a guardá-lo.

Um grito ecoou pela escada: Jodah.

Karn inverteu o curso. Correu escada acima, a grade chacoalhando sob seus passos. Teferi correu atrás dele, um pouco mais devagar devido às suas limitações humanas.

Karn localizou Jodah e Jaya no quarto andar, em um pequeno escritório localizado fora do corredor principal. Jodah arremessou o phyrexiano semelhante a uma lula para longe dele, e ele se espatifou contra uma parede. Jaya uniu as mãos e o atingiu com uma chama branca e escaldante — e a criatura se dividiu em metades, evitando o fogo. Cada metade brotou várias pernas multiarticuladas de seu interior sangrento. Bocas famintas floresceram ao longo de sua carapaça, cercadas por dentes minúsculos e afiados como navalhas.

Jaya separou as mãos, dividindo sua chama, para perseguir cada metade. A criatura se dividiu novamente, desta vez em quatro pequenas feras barulhentas com dezenas de pernas crescendo de aglomerados centrais de carne entrelaçados com cabos. As criaturas se espalharam, cada uma seguindo em uma direção diferente.

Arte de: Justyna Dura
Arte de: Justyna Dura

Karn pisou em uma que tentou passar chiando por ele em direção à porta.

Jaya uniu as mãos, prendendo uma entre jorros de chamas sibilantes. — Eu não as comeria — disse ela — mas elas certamente fritam bem.

A criatura gritou ao morrer, um ruído agudo que diminuiu para um lamento borbulhante. Jodah reuniu mais energia branca entre as mãos, mas as outras criaturas haviam fugido.

Teferi chegou, ofegante, à porta, com as mãos prontas — bem a tempo de ver as criaturas se espremerem pelas fendas na pedra, deixando para trás nada além de óleo brilhante e muco como sinal de sua fuga.

Os quatro olharam para o escritório destruído: os papéis carbonizados, a cadeira despedaçada. Stenn chegou, pingando de suor. Tentou espiar por trás de Teferi, depois recuou, curvando-se. Limpou a testa na manga.

— Escadas demais — ele bufou.

— Se elas se dividem assim — disse Teferi — então não podemos saber quantas estão no prédio.

Karn ergueu o pé para examinar a polpa sob ele. — Interessante.

— Embora algumas pessoas possam achar interessante lutar contra um número desconhecido de oponentes que podem se infiltrar pelas paredes e atacar a qualquer momento — disse Jaya — consigo pensar em outras cem maneiras de passar a noite.

— Karn — disse Jodah — por favor... apenas nos conte o seu plano — e a localização do silex.

Teferi, cuidadosamente, não olhou para Karn. — Depois de todos estes anos, Karn — disse Jodah — você não consegue confiar em nenhum de nós?

— Não.

— Sensato — disse Stenn. — Se Sheoldred soubesse a localização do silex, não pararia por nada para obtê-lo. Como qualquer um de nós poderia ser um agente dormente, não podemos arriscar que isso se torne conhecimento comum — e não sabemos o quão bem aquela... aquela coisa consegue ouvir.

— Você deve ser o mais teimoso, o mais inflexível... — disse Jodah.

— Exatamente como algumas pessoas que eu conheço. — Jaya suspirou. — O mínimo que podemos fazer é desenvolver uma maneira de localizar a criatura. Não nos serve de nada procurá-la às cegas.

— Temos amostras biológicas — disse Karn.

Jodah ajoelhou-se para examinar a gosma e suspirou. — Se eu desenvolvesse um... rastreador, de certa forma, usando esse material, ele poderia seguir organismos com tecidos semelhantes. Mas não seria nenhum... detector de phyrexianos. Ele só seria capaz de localizar aquela criatura específica e tudo em que ela se dividiu.

— Parece melhor do que nada — disse Jaya.

Jodah olhou para Karn. — Você poderia gerar invólucros de metal impenetráveis ao redor do material? Não quero arriscar manuseá-lo, mas precisaremos ter a matéria orgânica conosco para guiar e alimentar o feitiço.

— Sim — disse Karn. — Você tem mais orientações sobre a construção do objeto?

Jodah considerou, depois acrescentou: — Coloque uma agulha nele. Encantarei isso diretamente para nos guiar.

— Semelhante a uma bússola — disse Karn.

Jodah assentiu.

Karn criou os itens de metal de acordo com a especificação de Jodah. Criou cada um para ter o tamanho de uma concha de marisco, pequeno o suficiente para caber em mãos humanas, e o construiu ao redor de uma porção de carne phyrexiana. Ele os entregou a Jodah.

Enquanto Jodah os segurava e murmurava, tecendo seus feitiços radiantes, Karn afastou-se para o lado. Em um pequeno nicho entre caixotes, manteve as costas voltadas para os outros e gerou um dispositivo de vidência em miniatura, semelhante ao que fizera na Baía das Ostras, mas menor. Quando terminasse, pretendia pendurá-lo na corrente em volta do pescoço ao lado do sinalizador de Bons Ventos . Ele sentia falta de Ajani e desejava que o leonin estivesse aqui para ajudá-lo.

Uma névoa preencheu a superfície cristalina do amuleto. Karn franziu a testa. Ajani — onde ele estava? O dispositivo de vidência oscilou, depois se estabilizou. Ajani parecia estar lutando. Karn não conseguia distinguir as formas sombrias com as quais Ajani trocava golpes, mas suspeitava que fossem phyrexianas, o que explicava a dificuldade do dispositivo em focar nelas. A imagem clareou, e Karn viu Ajani falando com uma jovem cavaleira Capashen, uma mulher com uma postura impetuosa.

Ele buscou as cavernas marinhas perto de Tolária Ocidental. Nenhum phyrexiano revistava a costa; a área parecia serena. Se Teferi fosse um espião, ainda não havia relatado a Sheoldred. Karn franziu a testa.

Arte de: Donato Giancola
Arte de: Donato Giancola

— Karn, eu... — Jaya parou. A frustração anuviou seu rosto. — O que é isso?

Stenn espiou por trás dela. — Sim, o que é isso?

Karn pendurou-o no colar. — Não é motivo de preocupação.

— Jodah terminou seu amuleto. — Jaya o entregou a ele. — Ele quase terminou.

Karn o inspecionou. Sua agulha localizadora balançava, oscilando entre dois pontos como se estivesse confusa.

Jodah guardou o dele no bolso. — Vou voltar a verificar os andares superiores.

Jaya moveu-se para segui-lo, mas Karn levantou a mão para detê-la. — Deixando de lado sua amizade de longa data, não creio que sua língua afiada tenha um efeito calmante.

— Verdade — admitiu Jaya. — Stenn, dado que esta criatura pode escorrer pelas paredes, existem áreas de manutenção que deveríamos verificar em busca de infestação? Espaços de acesso?

— Sim, na verdade — disse Stenn. — Há um sistema de ventilação elaborado para permitir que o ar escape dos níveis inferiores, caso a cidade precise recuar para a terra por razões defensivas.

Teferi assobiou, claramente impressionado. — Eu vou com Jodah.

— Então eu ficarei com o porão sozinho — disse Karn.

— Melhor você do que eu — disse Stenn, fervoroso. — Aquela sala é desconcertante. Há tanto barulho das caldeiras que você nunca seria capaz de ouvir algo se aproximando furtivamente.

Karn esperou até que Stenn, Jaya e Teferi tivessem saído da sala. Dirigiu-se ao nível do porão, com o localizador em sua palma.

Se Jodah estivesse comprometido, o encantamento sequer funcionaria?

O nível do porão consistia em um corredor curto, mas largo, ladeado por canos. Ao contrário dos canos no armazenamento acima, estes estavam ativos: sibilando com vapor, seus registros abertos, suas válvulas vazando. As salas continham caldeiras e sistemas hidráulicos construídos com uma beleza intrincada de cobre e aço, cada rebite amorosamente colocado e integrado com tecnologia Thran.

— Ah, Karn! — Jodah entrou na sala das caldeiras, gritando para ser ouvido acima do barulho. Teferi o seguiu. — Eu estava procurando por você. Acho que preciso recalibrar os localizadores para que a agulha aponte apenas para a criatura mais próxima. Ela também está tendo dificuldade em diferenciar cima de baixo. Se você pudesse...

Jaya e Stenn abriram a porta.

— Exatamente quem eu estava procurando — disse Jaya. — Essa coisa que você fez não está funcionando, Jodah. É inútil. Continua apontando, depois se movendo, como se não conseguisse se decidir.

Mas Jodah olhou fixamente para ela. — Você está sangrando?

Jaya agarrou o braço. Seus olhos se estreitaram. — Nunca viu um ferimento superficial antes?

— Por que não nos contou? — Jodah perguntou. Ele olhou para Karn, significativamente.

Karn entregou a Jodah seu localizador.

— Por que eu contaria? Não tenho cinco anos. — Jaya parecia insultada. — É apenas um arranhão.

— Não foi isso que eu quis dizer. — Jodah estendeu os dedos sobre o localizador, puxando uma rede de feitiços em malha do dispositivo e ajustando-a. Ele baixou os dedos, e o feitiço voltou para o metal. Jodah devolveu o localizador a Karn. — E se o óleo cintilante tiver entrado em você?

— Não entrou — disse Jaya, fria.

— Se isso é verdade — disse Jodah — então por que esconder?

— Eu não estava escondendo — disse Jaya. — Apenas não era importante.

Nos andares superiores, um chocalhar — depois um estrondo. Parecia que algo havia derrubado uma das prateleiras cheias de canos. Karn calculou que várias dezenas de canos deviam estar rolando no chão para criar tal barulho. — Deve ser lá em cima. Teferi, Stenn, investiguem com Jaya.

Teferi assentiu, seu rosto solene e seus olhos em Jaya. Talvez ele pensasse que Karn pretendia que ele vigiasse Jaya, devido ao seu ferimento. Karn não achava que o óleo cintilante pudesse infectar tão rapidamente, e ainda assim... como ele poderia ter certeza?

Jodah entregou um localizador a Karn. — Você poderia mudar a agulha para que ela repouse em um rolamento? Ou pelo menos algo que possa girar? Acho que ela deveria ser capaz de apontar para cima e para baixo, bem como em um movimento circular.

Karn assentiu e começou a trabalhar na alteração dos mecanismos. Jodah inclinou-se sobre os localizadores. Ele passou as mãos sobre eles, puxando os feitiços para que pairassem no ar em redes mágicas brilhantes e delicadas. Ele mexeu, alterando como os nós e as cores se conectavam.

Normalmente Karn gostava de trabalhar ao lado de alguém em uma tarefa mecânica. Era pacífico. Mas não com Jodah.

Jodah recostou-se nos calcanhares e afastou o cabelo desgrenhado do rosto. Ele exibia uma expressão de arrependimento, sua qualidade atemporal em desacordo com sua aparente juventude. — Você parece... diferente desde o seu retorno de Nova Phyrexia.

Quando Karn retornou e descobriu que Jodah e Jhoira se envolveram enquanto ele estava fora, ele ficara... surpreso. E desconfortável. Embora o relacionamento de Jodah e Jhoira não tivesse continuado, seus efeitos posteriores permaneceram. Karn considerou responder com mais tato. Mas quem sabia o que um momento de honestidade poderia revelar ali? — Recentemente, a maneira como você oferece conselhos me lembrou Urza.

— Ah, e eu, o antigo, sábio e poderoso mago... posso ter me tornado arrogante ao longo das eras. — Jodah pressionou as mãos nos feitiços, empurrando a magia de volta para o metal. — Jhoira vê você como vulnerável. Isso me fez sentir que eu tinha que cuidar de você, por causa dela.

As agulhas nos localizadores tremeram. Cada uma girou descontroladamente, em direções diferentes.

— Eu preferiria ser seu parceiro nesta empreitada — disse Karn.

— Parceiros confiam um no outro — disse Jodah.

Karn fingiu hesitar. Ele assentiu, lentamente. — Se você estivesse comprometido, não acredito que seria tão óbvio em sua raiva e impaciência. O silex está localizado em um armazém em Estark.

Jodah riu disso. — Bem. Obrigado por isso, suponho.

As agulhas apontavam em direções diferentes. Todas as direções.

Jodah olhou para os localizadores, consternado. — Como eu pude errar isso duas vezes?

— Você não errou — disse Karn.

As paredes sussurraram com um movimento súbito.

Criaturas lançaram-se contra Karn e Jodah, com cabos estendidos e bocas à procura. Jodah tentou preparar sua magia, mas a luz ao redor de suas mãos era pálida, oscilante. Ele havia se exaurido ao transportá-los para a torre e depois ao criar os localizadores.

Mais meia dúzia de criaturas lançaram-se contra Jodah, úmidas e agitadas. Karn ajustou sua postura para defender Jodah. Ele agarrou uma criatura no ar e a rasgou ao meio. Arremessou-a para fora, contra as outras criaturas. Golpeou outra no ar. Mas eram muitas — algumas passaram.

Jodah queimou uma com um jato de luz pálida, depois caiu de joelhos de exaustão. Criaturas começaram a subir em seu corpo, suas bocas investigadoras procurando sua pele. Embora os instintos de Karn gritassem para que ele vigiasse as paredes, ele se voltou para Jodah. Ele arrancou as criaturas, rasgando tentáculos aderentes no processo, e as jogou de lado. Os tentáculos desconectados prenderam-se a Jodah em coágulos. Os aglomerados começaram a desenvolver bocas sugadoras.

As chamas rugiram por toda a sala. O rugido ensurdeceu Karn. O calor percorreu a sala, esterilizando-a, e derramou-se sobre seu corpo em lençóis. Parecia agradável, quente e cócegas. As chamas avançaram e lamberam Jodah, suavemente. As criaturas alojadas em seu corpo borbulharam.

Karn estendeu a mão e, desta vez, conseguiu remover as criaturas restantes uma de cada vez. Os membros caíram livres. Ele puxou o resto do corpo prostrado de Jodah, depois virou-se para enfrentar sua salvadora: Jaya. Seu fogo se concentrava ao redor dela, branco e incandescente, e iluminava seu rosto. Sua luz punha em relevo as linhas marcadas em sua pele, e o calor que ondulava no ar fazia seu cabelo branco chicotear ao seu redor. Seus olhos refletiam a luz do fogo. Ela sorriu, com os lábios cerrados.

Stenn entrou correndo na sala. O jato de Jaya envolveu-o, sem tocá-lo, mas repelindo seus atacantes phyrexianos. Ele esfaqueou uma pequena criatura que corria como um caranguejo pelo chão, prendendo-a. Ela se contorceu, com as pernas estendidas e tremendo, e ele usou uma adaga para bissectá-la.

— Ele está bem? — Jaya acenou para Jodah.

— Sim — disse Karn. — A boa notícia é que seus localizadores parecem estar funcionando corretamente.

Karn olhou para os localizadores. Eles apontavam para cima, mas suas agulhas não tremiam com tensão como nos momentos antes do ataque. Ele pegou seu localizador e virou-se para as paredes para ver como as criaturas phyrexianas se aproximaram deles. Não conseguiu encontrar pistas de como tantas se aproximaram sem serem detectadas. Dentro das paredes, a tecnologia Thran brilhava em dourado. Provavelmente se conectava à pedra de energia e alimentava o sistema hidráulico.

— Que alívio. — A risada de Jodah transformou-se em tosse.

— Onde está Teferi? — perguntou Stenn. — Seria de se esperar que ele tivesse ouvido a confusão.

O silêncio transformou-se em desconforto. E se esse ataque em massa tivesse sido apenas uma distração para que Teferi pudesse tentar transmitir a localização do silex aos phyrexianos? E se os phyrexianos agora mesmo estivessem revistando Tolária Ocidental, devastando sua costa? Karn desejava olhar em seu dispositivo de vidência, mas não ousava entregar sua vantagem.

— Vou procurá-lo — disse Jaya.

Karn moveu-se para se juntar a ela, colocando-se ao seu lado. Talvez tivesse a oportunidade de examinar seu dispositivo de vidência. — E eu também.

Stenn agachou-se perto de Jodah. — Eu fico aqui. Ele... não está parecendo muito bem.

Jodah afastou Stenn, debilmente. — Preciso de um minuto para recuperar minhas forças. Vão. Se Teferi estiver sozinho e sofrer um ataque como o que acabamos de sofrer, os resultados podem ser terríveis. Ele pode ser completado. Ou morto.

— E você está fraco demais para repelir um segundo ataque sozinho — disse Stenn, sensatamente.

— Você é orgulhoso demais, velho — disse Jaya. — Aprenda a aceitar ajuda.

Pela forma como o rosto de Jodah se contraiu, Karn adivinhou que aquela era uma discussão antiga entre ele e Jaya, uma da qual ele não fora informado. Jaya acenou para que Karn a seguisse, e os dois deixaram o porão, retornando à escada barulhenta. Subiram em silêncio. Os passos de Karn, apesar de seu cuidado, pareciam altos, metal contra metal. Jaya subia ágil como um gato.

— Sua magia é extremamente eficaz contra as criaturas phyrexianas — disse Karn.

Embora Karn não pudesse ver o rosto de Jaya, podia ouvir o sorriso em sua voz. — Devo dizer que a piromania controlada é a melhor parte de ser uma maga do fogo. Você acaba percebendo o que queima.

— Seu fogo parece esterilizá-los — disse Karn. — Como se fosse hostil.

Jaya ergueu a mão, gesticulando para que fizessem silêncio. Karn parou. Os ombros de Jaya ficaram tensos. Ele não conseguia ouvir nada. Jaya balançou a cabeça e continuou a subir.

— Não consigo acreditar que alguém com tal magia seria um espião phyrexiano — disse Karn, embora pudesse, de fato, acreditar. Um phyrexiano seria capaz de qualquer subterfúgio. — Você matou mais dessas criaturas do que o resto de nós juntos. Se algo acontecer comigo, alguém deve saber onde o silex está, para que possa ser usado.

— Você finalmente decidiu que podia confiar em mim? — Jaya riu. — Estou lisonjeada.

— Sim — disse Karn. — Ele está escondido em Suq'Ata.

Jaya não parou. — Já era hora de você me contar isso. Manter a localização do silex em apenas uma mente é perigoso. Centelha de Venser ou não, ninguém é invulnerável. Nem mesmo você.

Ela tinha razão.

Nos andares superiores, Teferi gritou, e ambos partiram em disparada. Encontraram Teferi preso ao chão por uma monstruosidade phyrexiana que pairava sobre ele como uma aranha faminta. Sangue encharcava suas vestes devido a um corte em sua barriga.

Karn arrancou a criatura do corpo de Teferi — mesmo que suas garras, presas em sua carne, tenham levado músculos junto. Ele a esmagou contra a parede, pulverizando-a.

Jaya entrou correndo na sala. — Abaixe-se!

Karn girou e curvou seu corpo sobre Teferi para protegê-lo.

Jaya banhou a sala em fogo. Monstruosidades phyrexianas — dezenas delas, muitas — gritaram de agonia. Os gritos tornaram-se um borbulhar desesperado, gemidos e depois silêncio. As chamas assaram as costas de Karn, queimando o sangue e as entranhas em seu corpo de metal.

— Limpo — disse Jaya.

Karn levantou-se.

— Karn, obrigado. — Teferi tocou o topo do cabelo e descobriu que não estava chamuscado.

Jodah, com o braço sobre o pescoço de Stenn, juntou-se a eles. Jodah pareceu exausto. Ele examinou os destroços na sala — que fora um escritório, completo com arquivos.

— Isso envolve muito, muito mais do que uma criatura — disse Jodah.

— Você tem razão. — Stenn esquivou-se de debaixo do braço de Jodah. — Usamos muita tecnologia Thran em Argívia, e parece que os phyrexianos a... cooptaram de alguma forma. Integraram-se a ela. As gavinhas daquela coisa se espalharam por toda a torre de vigia.

Karn examinou o ferimento de Teferi. Ele precisava de cuidados médicos. — Talvez devamos considerar baixar a barreira para obter um médico para Teferi. Ele está gravemente ferido.

— Você determinou que estamos todos seguros? — perguntou Teferi.

— Ele pode se dar ao luxo disso? — disse Jodah. — Ele poderia esperar. Poderia duvidar de si mesmo para sempre. Poderia testar todos nós mil vezes. Como ele poderia saber? Como alguém poderia?

Jaya disse: — Acho que deveríamos erradicar quaisquer phyrexianos dentro da torre antes de baixar a barreira. Se aquela criatura se integrou tão facilmente a uma única torre, o que ela poderia fazer com uma cidade?

— O que você acha que devemos fazer? — perguntou Stenn.

— Ir para a pedra de energia — disse Jaya. — Vamos erradicar isso. Na fonte.

Teferi fez uma careta. — Si alguém puder me levar até lá, estou disposto a seguir o plano de Jaya. Podemos muito bem tentar.

— Eu posso carregar você — disse Karn.

Teferi lançou-lhe um longo olhar, depois suspirou.

— Está decidido — disse Jodah.

Jaya gargalhou. — Oh, você esteve esperando a noite toda para ser quem diria isso, não foi?

Jodah ainda tinha energia suficiente para parecer irritado. Karn balançou a cabeça com a troca de palavras e ajoelhou-se para erguer Teferi — cuidadosamente.

Na câmara mais alta, o brilho da pedra de energia dominava o espaço claustrofóbico, incidindo diretamente sobre o painel de controle do pedestal central e preenchendo a pequena sala circular com sua luz amarela doentia. As janelas em arco que circundavam a sala ainda estavam firmemente fechadas com aço. Karn desejava poder abrir uma e sentir o ar fresco da noite em seu corpo. Encontrou um painel de acesso de metal e o abriu. A pedra de energia parecia integrada em um ninho de fios, que sem dúvida se conectava ao sistema de bloqueio, à sala das caldeiras, aos dutos e a tudo o mais na torre. Stenn pressionou-se contra o painel para olhar. — É pior do que eu pensava.

Karn olhou para Stenn. Ele contara a cada Planeswalker uma localização falsa para o silex, mas ainda não testara Stenn. Falou baixo o suficiente para que os outros não ouvissem. — Preciso confiar a localização do silex. Se eu for danificado e não puder alcançá-lo, o conhecimento não pode ser perdido.

— Eu compreendo — disse Stenn, solene. Ele não parecia nem um pouco perturbado. Seu foco estava nos fios nas paredes.

— Caso isso aconteça — disse Karn — você deve determinar em qual dos Planeswalkers pode confiar para que o silex possa ser levado a Nova Phyrexia a fim de destruir os phyrexianos em seu centro. Hesito em pedir isso, pois envolveria pedir a um Planeswalker que se sacrificasse para reparar meu erro...

— Seria uma responsabilidade imensa — disse Stenn.

Karn fingiu relutância, depois falou. — Eu o escondi nas ruínas de Trokair, em Sarpádia.

— Isso é tudo o que eu precisava — disse Stenn. Sua voz, um sibilo repentino, soou horrivelmente familiar.

Stenn atirou as vestes dos ombros. Linhas de cirurgia, anteriormente invisíveis, aprofundaram-se em sua pele. Os botões de sua camisa saltaram enquanto seu peito parecia inchar e inchar — apenas para explodir, abrindo-se como uma borboleta, com as costelas escancaradas. Cordões de ferro jorraram da cavidade do tronco em vez de intestinos, vertendo muco e sangue. Seu rosto, diante de todo esse horror, parecia extasiado — como se finalmente tivesse encontrado seu propósito e o cumprido. Levantou a cabeça, com os olhos focados para cima, os lábios movendo-se como em oração. Garras em forma de mãos emergiram de seus olhos e envolveram seu crânio, para segurá-lo. Seus intestinos metálicos rastejaram pelo chão, conectando-se à pedra de energia Thran, e todo o seu corpo ficou rígido. A luz da pedra de energia pulsou e depois diminuiu, enquanto Stenn consumia sua energia. Sua boca escancarou-se, congelada em um sussurro sem voz.

Ele converteu seu corpo inteiro em uma antena, percebeu Karn, e transmitiu seu conhecimento arduamente conquistado para Sheoldred, confiando a ela a localização do silex.

Sua localização falsa.

— Parem-no — grunhiu Teferi. Ele agarrou o ferimento no ventre, e seus olhos brilharam de raiva. — Não deixem que ele...

Jaya lançou-se à frente, com as mãos estendidas. O fogo brilhou.

Stenn não lhe deu um olhar. Seus fios sangrentos ergueram-se do chão, com detritos grudados em sua sujeira, e envolveram-se ao redor dela como anacondas, prendendo suas mãos e fixando-as aos seus lados. Jaya, incapaz de usar sua magia sem se queimar, lutou contra Stenn para libertar as mãos. Mas não conseguia respirar. Seu rosto ficou azulado.

Karn avançou em direção a ela. Por mais rápido que arrancasse fibras de seu corpo, mais se contorciam no lugar. Pequenas linhas apertadas enfiavam-se entre seus dedos, desafiando-o. Os olhos de Jaya pareciam tão arregalados, tão em pânico.

Teferi sentou-se e preparou sua magia, mas seu feitiço, lançado em estado tão enfraquecido, fez pouco mais do que oscilar em uma névoa azul nebulosa antes de desaparecer. Teferi gemeu e desabou de volta no chão. O sangue que encharcava suas roupas escureceu à medida que se espalhava pelo tecido. Jodah correu para o lado de Teferi, murmurando um feitiço de cura em voz baixa.

— Temos que sair daqui! — gritou Jodah.

Karn concordou. O painel de controle tinha um layout simples. Ele inseriu a chave que Stenn lhe dera no pedestal. Abriu uma tampa de metal e acionou o interruptor. As venezianas de aço subiram bruscamente, a corrente dentro das paredes chacoalhou e as engrenagens rangeram. O ar fresco da noite inundou a torre. Mas junto com esse ar fresco vieram ruídos: guinchos e gritos, vindos da cidade abaixo.

Karn não conseguia libertar Jaya dos cabos que se contorciam ao redor dela, então virou-se. Ele desmembrou Stenn — não, não Stenn, o phyrexiano que matara Stenn, que o completara e tomara seu lugar — com eficiência. Tentou não pensar em suas ações: removeu ossos das articulações e jogou as peças de lado, com a mesma facilidade de desossar um frango em um banquete.

Jaya inalou, com a respiração um estertor que ecoou pela escuridão, e então atingiu o não-Stenn com um jato de chamas escarlates. O fogo derramou-se sobre Karn e sibilou pela carne do não-Stenn, fritando seus componentes orgânicos.

O phyrexiano desabou no chão, uma coleção de metal enegrecido e matéria orgânica crestada. Jodah olhou para Jaya. Suas mãos estavam estendidas sobre o estômago de Teferi. — Estou exausto demais para curá-lo. Consigo evitar que ele sangre até a morte, mas é só isso. Precisamos de ajuda.

— É hora de eu chamar o Bons Ventos — disse Karn.

— Por que não damos mais alguns minutos? Até que as coisas fiquem realmente desesperadoras? — disse Jaya.

Karn abriu o amuleto de convocação como um medalhão. Acionou o interruptor interno.

A voz de Shanna, baixa e metálica, soou. — O que foi, Ajani?

— Aqui é Karn. Jodah, Teferi, Jaya e eu precisamos ser levados para um lugar seguro. Teferi está ferido.

Houve uma pausa do outro lado. — Sua localização?

— Argívia. Na torre de vigia. Sob ataque de phyrexianos.

— Phyrexianos? — Karn podia ouvir o Bons Ventos rangendo aos ventos. Quando ela falou novamente, sua voz soou calma e determinada: — Vocês estão com sorte — não estamos longe. Se os ventos nos favorecerem, chegaremos logo.

— Entendido.

— Até breve. Shanna desligando.

Os ruídos phyrexianos pareciam estar se aproximando; ecoando pelos dutos, entre as paredes, guinchos e borbulhos pontuavam cliques mecânicos e sussurros carnais. A torre inteira estava infestada — talvez até a cidade inteira. Stenn havia supervisionado a erradicação de agentes phyrexianos em Argívia. Era justo assumir que ele fizera exatamente o oposto.

— Teferi está ferido demais para se mover. Devemos resistir até que Shanna chegue — disse Karn. — Jaya, você parece estar na melhor forma entre nós. Você liderará. Eu assumirei uma posição central, pois devo defender Teferi. Jodah, vigie a retaguarda.

Jodah abriu a boca. Jaya acendeu duas bolas de fogo em suas mãos. Ela as pesou e ergueu as sobrancelhas para Jodah. Jodah, abashed, fechou a boca.

Após um momento, ele falou, suave: — Eu ia dizer que este é um excelente plano.

De Volta ao Lar

Cada plano era diferente, e todos que caminhavam entre eles sabiam; era impossível não saber. O ar em Innistrad não era o ar em Zendikar, que não era o ar em Kaldheim. As flores não eram as mesmas, e, portanto, nem o pólen; as canções dos pequenos pássaros nas árvores nunca se alinhavam perfeitamente. Liliana sabia que não havia dois planos idênticos, sabia desde o momento em que sua centelha despertou e a levou involuntariamente para Innistrad, terra de sombras profundas e lentas e do rico mel de Gavony.

Ela nunca encontrara nada mais doce em nenhum outro lugar do Multiverso, e seu chá matinal sempre sofria com sua ausência.

Então sim, cada plano era diferente, e Liliana sabia disso muito antes de vir para Arcavios e para os corredores sagrados de Strixhaven, mas como ela nunca tentara fazer de um daqueles planos desconhecidos seu lar, ela nunca considerara como, enquanto os dias se estendiam em aulas e caos controlado, em horas sem fim, as noites poderiam começar a desgastá-la. Os sons noturnos eram diferentes aqui do que eram em Dominária. Os sapos cantavam uma canção diferente.

Ela não esperava que se tornasse tão difícil de carregar.

Ela estava feliz o suficiente durante os dias. Estava ajudando a moldar mentes jovens, moldando-as com suas palavras. Com o tempo, ela poderia guiá-los para longe dos inúmeros erros que ela vira e cometera durante sua própria juventude, quando o poder parecia ilimitado e as consequências, embora inevitáveis, sempre foram algo que ela podia adiar para outro dia.

Havia outros Planeswalkers no campus, o que era algo que ela não previra quando viera se esconder na academia, mas os Kenrith eram jovens o suficiente para não conhecerem os detalhes de seu passado, e quando ela fora uma estudante de Murchaflor, não tinha o hábito de mencionar seus professores em conversas casuais. A menos que suas viagens pelas Eternidades Cegas os colocassem em contato com uma das pessoas que a culpavam por tudo a que ela já estivera próxima, era improvável que eles algum dia ouvissem seu nome em conjunto com seu passado, ou que a mencionassem para outros. Liliana Vess, Senhora da Própria Morte, poderia desaparecer, e a Professora Vess poderia ensinar para sempre.

Se ao menos ela pudesse aprender a dormir durante as noites de Arcavios.

Ela estava à janela de seus aposentos pessoais, olhando para a glória necroluminescente do Charco de Junco enquanto ele brilhava fracamente na escuridão. Não mudara desde seus próprios dias de escola, não exatamente, exceto no sentido de que o Charco de Junco estava em constante mudança, uma paisagem em eterno fluxo de florescimento e decomposição. A primeira vez que o vira, pensara que era a coisa mais bonita de todos os planos. Ela ainda pensava assim.

Mas oh, ela se lembrava de como era muito mais fácil dormir naqueles dias, antes da Guerra, antes do Véu de Corrente, antes das Sentinelas e de Nicol Bolas e Gideon

O nome dele era um sino quebrado pendurado onde seu coração deveria estar, e toda vez que ela o tocava, lembrava-se de que merecia as noites sem dormir. Ela merecia algo muito pior do que isso, do que seus quartos confortáveis e a vista de seu amado Charco de Junco, ela merecia a dissolução que caíra sobre seu companheiro —

"Aí está você, Lili," ronronou uma voz, familiar, fria e sedutora, tudo ao mesmo tempo. "Eu estava me perguntando se tinha perdido você para sempre."

Suas mãos se apertaram na xícara de chá que segurava, praticamente um espasmo, mas ela não se virou.

"Vamos lá, minha querida, você não pode ter acreditado que eu a abandonaria tão facilmente assim. Eu sei que já faz algum tempo, mas em minha defesa, você estava um tanto imersa na perda de todo aquele poder, e parecia improvável que minha presença apressasse o assunto de qualquer forma mensurável."

Liliana, a maior necromante do Multiverso, líder de exércitos e conquistadora da própria morte, respirou fundo, pousou sua xícara de chá no parapeito da janela e se virou.

Atrás dela estava um homem, aparentemente humano, exceto pelos olhos, que eram de um ouro batido mais brilhantes do que tinham qualquer direito de ser. Seu cabelo e barba eram brancos, impecavelmente aparados e modelados, e suas roupas, embora antiquadas, eram claramente feitas sob medida. Ele parecia nobreza. Ele parecia poder.

Ele parecia não ter envelhecido um dia desde a primeira vez que aparecera para ela, doces mentiras em sua boca e falsa consideração em suas palavras.

Arte de: Chris Rahn
Arte de: Chris Rahn

"Pensei que você finalmente tivesse se cansado de mim," disse ela. "Pensei que tivéssemos acabado com este jogo tolo de... é gato e rato quando o rato persegue o gato? Eu não preciso de você. Deixe-me."

"Para quê? Uma vida sem alegria de notas e redações mal escritas? De pestes e futilidades?" Ele riu, e foi um som amargo. "Você sabe que isso não prenderá sua atenção por muito tempo. Você precisa de novidade. Você precisa de poder . Venha para casa para mim, e tudo o que você deseja poderá ser seu finalmente."

Ela conteve o próprio riso. "Duvido disso. Duvido sinceramente, sinceramente."

"Você sabe o que posso lhe oferecer. Você sabe o que podemos ser juntos."

"Eu sei que há mortes que não posso desfazer," ela retrucou. "Sei que às vezes o que se foi, foi, e às vezes tudo o que posso fazer é honrar os mortos."

"Ao se contar entre eles?" Ele olhou para ela com tristeza. "Venha para casa , minha Lili. Volte para onde você cresceu como uma flor fresca da primavera, onde primeiro a colhi para mim. Venha para casa para mim."

Então ele se foi, tornando-se uma tempestade rodopiante de corvos, todos voando em sua direção e passando por ela, pela janela aberta, derrubando sua xícara de chá no chão.

O som da porcelana se estilhaçando penetrou seu pesadelo, e Liliana sentou-se com um suspiro, apertando contra o peito o cobertor fino sob o qual estivera enrolada. Ela olhou freneticamente ao redor do quarto. Nenhum homem; nenhum pássaro. Nenhuma pegada ou penas caídas. Ela estava sozinha.

Sozinha com o martelar frenético de seu coração e o gosto metálico do medo em sua boca. Ela afastou as cobertas, deslizando os pés para o chão e para dentro de seus chinelos, e levantou-se, indo em direção ao fogo. Uma xícara de chá tiraria aquele gosto. Já era difícil o suficiente adormecer nestas noites quentes de Arcavios; a mistura adequada de ervas e flores só poderia facilitar o caminho

Algo rangeu sob seu pé. Ela parou, olhando para os restos de sua xícara de chá favorita, então se inclinou, tocando as pontas dos dedos no líquido espalhado ao redor deles.

Ainda estava morno.

Ao olhar para a janela aberta, ela quase pensou ter ouvido ele rindo.


As lições do dia seguinte se arrastaram em uma névoa de estudantes, silêncios constrangedores e lições quase arruinadas. Depois que o terceiro ansioso segundanista de Murchaflor explodiu uma peste em um spray de magia impressionante, porém inútil, Liliana dispensou sua classe de princípios de necromancia, dizendo-lhes para irem trabalhar em suas redações antes que decepcionassem outro professor tão profundamente quanto a haviam decepcionado.

Fechando sua sala de aula, ela se dirigiu ao Biblioplex. Alucinação, espírito ou manifestação descontrolada de seu próprio poder, não importava; isso tinha que parar. Já teria sido ruim o suficiente se esta tivesse sido a primeira vez que ele aparecera para ela em Arcavios, mas ele vinha surgindo há meses, suas visitas acelerando em frequência, até que era uma noite rara em que ela conseguia dormir até de manhã. A fadiga estava se instalando. Se isso continuasse por muito mais tempo, ela teria que envolver outra pessoa, e isso significava colocá-la em risco. Não. Ela não fazia mais isso. Fosse o que fosse, ela precisava acabar com isso em seus próprios termos, e precisava acabar com isso sozinha.

Se ele fosse real — e ela acreditava cada vez mais que ele poderia ser, depois de tudo o que ele lhe mostrara, tudo o que lhe dissera, tudo o que ele fizera — o Biblioplex lhe diria o que ela precisava saber. Poderia não conter todo o conhecimento do Multiverso, mas chegava perto o suficiente para os propósitos de qualquer ser razoável.

A visão da imponente Professora Vess caminhando pela escola no meio do dia era incomum, mas não o suficiente para atrair muita atenção. Ela seguiu rapidamente para a grande biblioteca, requisitando um dos pequenos botes de vara necessários para atravessar para a seção sobre a história antiga de Dominária que ela localizara alguns meses antes, e começou sua busca.

Ela estava folheando tomos antigos e consultando pergaminhos empoeirados por quase uma hora quando ele falou, mais uma vez atrás dela, como tantas vezes parecia estar. A sombra em seus calcanhares, o predador em seu encalço.

"Você não está voltando o suficiente no tempo," disse ele. "Se você quer me trazer para casa, minha Lili, precisará olhar muito mais fundo do que tem olhado."

Ela fechou bruscamente o livro que segurava. "Então você está me dizendo que é real, afinal."

"Estou lhe dizendo que fui real, uma vez, e posso muito bem ser novamente, se for assim que as estrelas se alinharem. Estou lhe dizendo para vir para casa para mim. Se esta é a armadura que você sente que precisa usar para o nosso reencontro, conhecimento e nomes antigos, então eu a ajudarei a encontrá-los, conforme eu puder."

Liliana girou, fulminando-o com o olhar. Ele olhou de volta impassível.

"Eu disse para me deixar em paz," ela sibilou. "Disse que tinha acabado com você. Não serei usada. Não serei uma arma nas mãos de outro monstro."

"Mas você será um monstro por conta própria?" Ele abriu as próprias mãos vazias. "Você está tão perto, Lili. Você quase tem tudo de que precisa. Venha para casa, e eu posso lhe dar o que lhe falta."

"Fora. Daqui."

"Como quiser. Mas você virá a mim. Você sempre vem a mim."

Então o homem se foi e os corvos preencheram o espaço onde ele estivera, subindo em espiral no ar com asas cor de carvão, penas derrubando a poeira das lombadas de tomos antigos, garras puxando um desses volumes da prateleira e enviando-o ruidosamente ao chão. Liliana lançou-se à frente, quase o pegando, e quando os pássaros se foram, apanhou-o e olhou para a capa.

Uma História de Terisiare dizia o título. Nenhum autor estava listado. Liliana franziu a testa, levando o livro consigo para a mesa mais próxima e, ao sentar-se, começou a ler.

Quando ela se levantou, algumas horas depois, fê-lo com uma nova, embora terrível, compreensão, e com um nome, um em que ela não ousava pensar demais, para não dar a ele um poder que ele não possuía atualmente. Mas ele tinha um nome, e isso significava que existia fora da mente dela. Ele não era sua criação, mesmo que ela fosse, de certa forma, dele.

O monstro que assombrava seus sonhos, que pegara uma garota assustada e poderosa e a moldara em uma mulher aterrorizante e quase vilã... ele era real. Ele poderia ser parado. Poderia ser destruído.

Ela poderia limpar esse pedacinho de mal do Multiverso, por amor a Gideon.

Mantendo esse pensamento firme na mente, ela deixou o Biblioplex e foi para os escritórios administrativos solicitar uma licença. O processo foi mais fácil do que ela temia que pudesse ser, facilitado por seu estado distraído nas últimas semanas. Alunos estavam descontentes e suas queixas começaram a se espalhar; embora sua posição ainda estivesse mais do que segura, um pouco de tempo fora parecia aconselhável. Para o bem de todos, na verdade. Foi menos de um dia depois que ela se aproximou da borda do Charco de Junco, olhando para sua paisagem estranha e amada, e fechou os olhos.

"Tudo bem, seu bastardo," disse ela. "Estou voltando para casa."

A escuridão subiu ao redor dela enquanto sua centelha brilhava, fundindo-se em uma nuvem de trevas impenetráveis. Quando se dissipou, alguns segundos depois, Liliana Vess havia partido.


Ele a convidara para voltar para casa, para onde a encontrara pela primeira vez, onde a convencera pela primeira vez a ouvir suas verdades que teriam sido mais gentis se fossem mentiras; isso significava Dominária e, mais ainda, significava a propriedade da família Vess. Aparecendo em um redemoinho negro na pequena elevação atrás da casa, Liliana olhou para as ruínas do que outrora fora seu mundo inteiro.

O chão era uma confusão pantanosa, o solo erodido e corrompido. Estranho que ela amasse tanto um pântano quando um pântano destruíra sua casa. A Mansão Vess era uma ruína, mais decrépita do que poderia ser explicado apenas pelo tempo, e a fortaleza que deveria tê-la mantido sob sua sombra protetora erguia-se como um membro podre fincado no chão, inclinado e instável. Liliana respirou fundo e começou a caminhar em direção à casa, não permitindo que sua magia a protegesse da lama que rangia sob seus pés ou da água que penetrava em seus sapatos.

"Venha para casa," sussurrou a voz vinda de seu passado, ecoando entre seus ouvidos, implacável e antiga. "Venha para casa para mim."

Ela continuou caminhando, em direção às ruínas de sua casa de família, memórias de tempos melhores tentando inundar sua mente. Longos dias de treinamento com Lady Ana e a Ordem de Vanguarda, de correr pelos campos ensolarados com seu irmão, de rolar no feno com os garotos da vila atraídos por seus encantos florescentes. Liliana afastou esses fragmentos de luz idílica. Aquela garota fora uma curandeira e a filha de um general, destinada a decorar uma corte e a pendurar-se no braço de um nobre, um adereço na melhor das hipóteses, não um diamante por direito próprio. Tudo o que sofrera, tudo o que perdera, servira para torná-la mais do que aquela garota jamais poderia ter sido.

Ela não tinha arrependimentos. Nem permitiria que eles se infiltrassem em sua mente como a corrupção ainda se infiltrava pelo solo, uma lembrança de Belzenlok que Dominária talvez nunca expulse.

A casa estava instável, ela podia ver claramente, e por isso desviou dela, movendo-se em direção ao cemitério onde gerações de suplicantes e ancestrais Vess estavam enterrados.

Arte de: Martina Fačková
Arte de: Martina Fačková

O solo ali era mais firme, menos maleável, como se até Belzenlok e Josu tivessem sido capazes de superar o peso de tantos mortos. Ela caminhou até chegar ao grande carvalho dominariano no centro do cemitério, então sentou-se, com as costas no tronco, e fechou os olhos.

Quando os abriu novamente, a casa estava como fora em sua juventude, a luz dourada e inocente em seu brilho, e tudo tinha o brilho tênue nas bordas que lhe dizia que estava sonhando. Como se isso não bastasse, o Homem Corvo estava diante dela, a única coisa na recriação da Mansão Vess cujo contorno não brilhava, mas parecia, em vez disso, engolir a luz.

"Então estou aqui, e estou dormindo, o que sei que você gosta, já que é menos provável que eu o esfaqueie quando estou inconsciente," disse ela. "O que você quer de mim?"

"Eu queria que você me encontrasse, e parece que encontrou. Você cresceu e se tornou o que eu sabia que poderia ser. Você está quase pronta para mim."

"Pronta para quê, Lim-Dûl ?" Ela enfatizou o nome dele o máximo que pôde, observando sua reação.

Para sua decepção, ele simplesmente riu. "Faz algum tempo que não ouço esse nome ser pronunciado, dentro ou fora dos sonhos."

"Se isso lhe agrada, não farei novamente. Se lhe prejudica, nunca pararei."

He riu de novo, e desta vez foi o grito de um corvo, primal e faminto. "Oh, Lili, você se pergunta por que sempre a quis tanto? Por que você foi o prêmio que escolhi cultivar? Poderíamos operar milagres juntos. Poderíamos..."

Liliana fulminou-o com o olhar. "Diga-me por que você queria que eu viesse aqui."

Ele fez uma pausa. "Não é o suficiente eu querer me reunir com minha querida Liliana?"

"Não."

"Você conhece meu nome. O que ele lhe contou da minha história?"

"Grande necromante. Tirano. Derrotado e desonrado, preso em um objeto mágico que depois foi perdido."

"Então você sabe que eu não descanso, nem nunca descansarei. Nem mesmo você, Lili, conseguiria me dar repouso se tentasse. A corrente da qual sou um único elo é longa e poderosa demais." Ele suspirou. "Pensamos em adicionar você."

"Você quer dizer que pensou em me ter para si," ela retrucou. "Você estava me moldando para ser seu receptáculo perfeito. Você alguma vez perguntou se a Liliana Vess que estava criando era a que eu desejava ser?"

"Algum pai pergunta?" Ele balançou a cabeça. "Você teria sido minha obra-prima, mas suas próprias escolhas arruinaram você."

Ela se levantou, afastando-se da árvore. "Então por que me chamou aqui?"

"Porque não sou o único aqui." Ele olhou para ela, olhos dourados solenes como o túmulo. "Eles destruirão tudo se for permitido. Eu já me envolvi com eles, você sabe, mas eles sempre deram mais trabalho do que valiam, isso me custou duas vidas. Eles me destruirão se puderem, e destruirão você também. Destruirão tudo."

"Então você me chamou para ser sua arma ?"

"Sim, e por uma vez, não. Eu a chamei para ser a arma de Dominária. Lute pelo plano que a gerou. Salve-me, salve-os... salve a si mesma." Lim-Dûl começou a dizer algo mais, então parou, os olhos se arregalando no que parecia muito com medo. "Salve a si mesma," repetiu ele, e estalou os dedos, explodindo em uma nuvem de pássaros de asas negras. Eles voaram em todas as direções, grasnando alto e, quando o último deles se foi, a paisagem estava como quando ela chegara. As bordas nebulosas do sonho haviam se dissipado; ela estava acordada e — se ele falava a verdade desta vez — estava em perigo.

Liliana levantou-se, olhando ao redor da paisagem desolada, tentando encontrar qualquer coisa que tivesse mudado desde sua última visita. O solo pantanoso nunca era o mesmo de um momento para o outro, mas isso era de se esperar; as paredes da casa rangiam e balançavam, mas a decadência era natural, mesmo quando provocada por meios não naturais. Ela estava buscando algo mais. Algo mais profundo, algo mais sombrio, algo errado .

Ela estendeu um fio de magia. Ela — e, por extensão, a terra — nascera ali, e mesmo em seu estado atual de corrupção, a terra a conhecia. Ela surgiu para responder à sua presença como um cão faminto respondendo ao chamado de seu dono. Ela a acariciou gentilmente enquanto continuava a estendê-la, aproveitando o momento de conexão, de familiaridade, de...

Seu fio mágico atingiu uma bolsa de algo tão alienígena e estranho que a repeliu, voltando seu poder contra si mesmo e afastando-o. Não era corrupção. Liliana conhecia a corrupção. Sabia o que significava quando uma terra se tornava impura. Não era podridão ou decadência, mas era uma mácula, do mesmo jeito, nova e horrível e antiga ao mesmo tempo. Ela recolheu seu poder de volta para casa e olhou na direção que estivera alcançando, tentando entender o que fora aquilo em que esbarrara. Ela não se moveu. No momento, parecia que o único solo seguro que tinha era o solo que pertencia aos mortos de sua família.

Mas desde quando ela buscava segurança? Liliana respirou fundo, baixou o queixo em direção ao peito e marchou pelo lamaçal, indo em direção ao rastro de anormalidade . Se fosse tão vivo e terrível quanto parecia, tinha que saber que ela estava lá. Melhor enfrentá-lo de frente do que se esconder dele como a criança que ela nunca mais seria.

Sozinha, Liliana Vess caminhou para a escuridão enquanto uma solitária pena de corvo afundava no lodo atrás dela.


A floresta ao redor da propriedade fora consumida pelo pântano, mas muitas árvores permaneciam, projetando-se rebeldes para cima, mesmo com suas raízes apodrecendo e suas folhas caindo. Um dia elas tombaria, e a transformação desta terra estaria completa. Liliana continuou caminhando, sem estar disposta a estender outro fio de magia para verificar se a anormalidade permanecia. O que ela tocara não dava a impressão de ser algo que se soltaria tão facilmente.

Sua consciência da terra continuava tremendo na borda de sua mente, a propriedade grata por seu retorno de uma forma que nunca teria acontecido quando era uma floresta verdadeira, verde e exuberante, dedicada à vida. Aquela fora a terra de outra Liliana. Esta terra, porém... esta terra pertencia a ela, até os ossos, e estava terrivelmente feliz por tê-la de volta. Ela continuou caminhando, confiante em sua conexão com o solo sob seus pés e em sua capacidade de remover a coisa que não deveria estar ali.

Um novo cheiro apareceu no ar, metálico, mas não metal ao mesmo tempo, nem sangue nem ferrugem, mas agudo no fundo da língua como qualquer uma dessas coisas poderia ser. Cheirava mal . Ela parou de caminhar. Se estava perto o suficiente para cheirar o que quer que estivesse acontecendo ali, estava perto o suficiente.

Fumaça negra reuniu-se ao redor de suas mãos enquanto ela se concentrava no lugar onde sentira a mudança em seu lar ancestral, rodopiando e retorcendo-se com a força de seu comando. Liliana estreitou os olhos. Ter sido chamada até ali já era ruim o suficiente; ter sido chamada para enfrentar algum perigo invisível, com nada mais do que algumas poucas palavras de aviso dadas de má vontade, era uma ofensa.

Ela ainda estava atraindo a magia para si quando uma figura saiu de entre as árvores. Sua pele era o branco giz mais comum entre os kor, e ela não tinha cabelo, nem no topo da cabeça nem ao redor dos olhos, que vertiam fluxos constantes de um líquido preto viscoso. Mais do líquido pingava de sua mão esquerda, parecendo infiltrar-se de sua pele, e coisas que pareciam tubos estendiam-se de suas costas, desaparecendo sob suas roupas.

Arte de: G-host Lee
Arte de: G-host Lee

"Fique onde está," disse ela, e sua voz pertencia a um construto, não a um ser vivo, cheia de ecos e harmônicos horríveis. "Você entrou em nossos campos de reunião e, portanto, está perdida."

"Entrei em terras da minha própria família, e nada em mim é ou jamais foi perdido," Liliana respondeu. "Eu ficarei. Você irá embora."

"Não," disse a figura, e sorriu o sorriso horrível de alguém que esquecera como tais expressões deveriam ser formadas, como deveriam ser usadas. "Nós somos os donos deste lugar. É tarde demais para você. Você nunca deveria ter vindo aqui."

O mais leve dos respingos atrás dela fez Liliana olhar ao redor, confiante no que encontraria ali. Em vez da emboscada comum que ela previa, deparou-se com um horror.

A morte não guardava mistérios nem temores para Liliana: ela a vira em todas as suas formas, da pacífica à profana. A decomposição era natural. A reanimação também era natural, à sua maneira, e nada de que se esquivar. Mas essas criaturas...

As figuras dispostas atrás dela haviam sido, de alguma forma, distorcidas de suas próprias naturezas, remendadas com carne morta e viva ao mesmo tempo, e a carne morta não matava a viva, e a carne viva não ressuscitava a morta. Conexões de tecido artificial e aquele óleo pingando e impossível as mantinham unidas, suturas de prata e fios brilhantes, e a visão delas era repulsiva e fascinante ao mesmo tempo. Pareciam ter sido criadas a partir de fontes díspares, humanos e elfos e kor e tritões e outros, desmontadas e remontadas em algo mais eficiente do que a soma de suas partes. Todas tinham garras, ou presas, ou lâminas em forma de foice onde seus antebraços deveriam estar. Algumas tinham membros extras, ou mandíbulas, e a observavam com olhos desapaixonados. Sua vida ou morte não importava para elas. Elas a matariam sem consideração ou arrependimento.

Arte de: Brock Grossman
Arte de: Brock Grossman

Ela olhou de volta para a mulher kor que aparecera primeiro. Ela ainda a observava. Não se movera.

"Você ainda pode ser útil," disse ela. "Os remanescentes do espírito se apegam a você. Ele a chamou aqui. Nós o queremos."

"O Homem Corvo?" perguntou ela. Se essa figura estranha não tinha o nome dele, ela não iria fornecê-lo. "Que assunto você pode ter com ele?"

"Esse assunto é nosso," ela respondeu. "Que assunto você tem?"

"Ele me assombra desde que eu era jovem, e eu gostaria de me livrar dele."

"Então entregue-o a nós e nós a libertaremos." A mulher kor sorriu novamente. "Phyrexia é a maior das liberdades."

"Acho que prefiro buscar a liberdade por conta própria," disse Liliana. Como era possível que ela nunca tivesse enfrentado Phyrexia antes? Ela conhecia as histórias, é claro — era uma filha de Dominária, e ninguém que caminhasse pelas Eternidades Cegas o fazia sem saber da grande traição de Yawgmoth. Mas ela pensara que a contaminação estava contida no que fora Mirrodin, e o fato de ter perdido aquela batalha não a tornava menos ciente do perigo em que se encontrava de repente.

Ela liberou o poder que vinha acumulando, buscando, em vez disso, a força de sua centelha, a conexão que a permitiria fugir dali para algo mais hospitaleiro. Ela saltou ao seu chamado e, por um momento, a tentação de simplesmente caminhar pelos planos para longe e deixar esse problema para outra pessoa foi forte. Ela olhou para a mulher kor, que olhou de volta, sem parecer perceber o que ela estava fazendo, sem parecer vê-la como qualquer tipo de ameaça.

Bem. Ela o ensinaria o erro dessa forma de pensar em breve.

"Por que aqui?" ela perguntou. "Por que nas terras da minha família?"

"O espírito que perseguimos está ancorado em um objeto em algum lugar deste lugar," disse ela. "Ele foi afundado profundamente no solo, adormecido e esquecido. Nossas escavações o trarão à luz."

Se ela partisse, eles desenterrariam a relíquia que ancorava o Homem Corvo e o levariam embora. Ela nunca mais seria assombrada. Lim-Dûl seria finalmente esquecido, e ninguém mais ficaria emaranhado em suas maquinações incompreensíveis.

Isso, mais do que qualquer coisa, decidiu o que ela fez a seguir. Ela liberou a lenta extração de poder de sua centelha e olhou para a mulher kor. "Qual é o seu nome?"

"Tenho a honra de ser chamada de Elas il-Kor," disse ela. "Eu sou Um, mas também sou distinta, por causa do que deve ser feito. Por que me pergunta?"

"Para eu saber o que colocar em sua lápide," disse Liliana despreocupadamente. Ela buscou novamente a magia que dormia no pântano e desta vez a agarrou e a puxou com força como um fio vibrante, o ar ao seu redor tornando-se espesso como ectoplasma e frio como o túmulo. Os horrores de carne e aço que a cercavam congelaram por um momento, surpresos demais por essa transição para reagir.

Liliana virou-se e correu.

A arte de Murchaflor estava no crescimento e na decomposição. A magia da vida nunca lhe respondera facilmente, mas a magia da morte sim, e o pântano era um sepulcro por direito próprio, cheio dos ossos e corpos de mil criaturas menores. Elas il-Kor tinha oito terrores do próprio design de Phyrexia. Liliana tinha os mortos de um bioma inteiro. Enquanto ela fugia e os phyrexianos a perseguiam, eles se viram assaltados por todos os lados por cobras, roedores, cervos, até mesmo um grande cão morto há muito tempo apodrecido até o osso e restos de tendão.

As criaturas de Liliana não eram zumbis verdadeiros: assim que a atenção de Liliana estivesse em outro lugar, elas voltariam para seus túmulos. Elas se erguiam apenas para obedecer ao seu comando de massacre e cairiam novamente assim que terminassem.

Elas il-Kor observava, parecendo quase divertida com a inundação esmagadora de feras mortas-vivas. Elas individualmente não eram páreo para os phyrexianos, que as fatiaram, golpearam e rasgaram em pedaços. Ainda assim, seus próprios números contavam a ela tudo o que precisava saber sobre a força dessa necromante. Ela era um bônus inesperado desta tarefa longa e irritante. Eles eram guerreiros, não arqueólogos!

But o que Sheoldred comandava, ela teria, e Elas il-Kor sentia-se honrada em servir de qualquer maneira. Se agora parecia que o serviço poderia render um bônus inesperado para fortalecer a posição phyrexiana em Dominária, tanto melhor.

"Eu a quero viva," disse ela, perfeitamente calma, enquanto sua equipe terminava de golpear a força de assalto de Liliana no ar e começava a persegui-la. Ela seguia atrás em um ritmo mais calmo, sem pressa. Phyrexia não precisava ter pressa.

Phyrexia sempre vencia, no final.


Era quase insultante, pensou Liliana, correndo para o cemitério onde ossos mais poderosos aguardavam seu chamado; eles não a estavam caçando. Eles estavam seguindo , o que era algo totalmente diferente. Se não fosse pelo fato de estar em desvantagem numérica, ela teria parado, se virado e mostrado exatamente por que eles lhe deviam uma perseguição adequada. Mas ela não vivera tanto tempo sendo tola e, por isso, correu, sentindo sua conexão com a terra sob seus pés se fortalecer a cada passo, até que estivesse sobre seus ancestrais. Então parou, virou-se e enfrentou as forças de Phyrexia.

Seis deles restavam, Elas il-Kor e os cinco... soldados que respondiam ao seu comando. Todos eram artificiais em algum grau ou outro, transformados como o pântano fora, afastados de suas verdadeiras naturezas. Bem, ela não era a pessoa para purificá-los. Esse nunca fora seu papel no Multiverso. Ela ergueu as mãos, agarrando o poder de uma dúzia de gerações de mortos, baseando-se no que poderiam ter sido e nunca foram, e atacou os phyrexianos que se aproximavam em uma explosão terrível de luz pútrida. Eles eram artificiais, sim, mas também eram naturais, e as partes deles que eram carne sabiam como apodrecer.

No entanto, graças à mácula não natural correndo em suas veias, parecia que eles não sabiam mais como morrer. Eles gritaram enquanto seus corpos se eriçavam com gangrena e murchavam com a corrupção necrosante, mas continuaram correndo em sua direção, mais visivelmente artificiais agora do que haviam sido apenas um momento antes. Sua carne pingava enquanto avançavam, desfeita pelos estragos da rápida decadência.

Elas il-Kor sacou um dardo das costas, a ponta perversamente farpada pingando uma substância imunda e viscosa. Liliana não podia se mover sem liberar o controle que sua magia envolvera nos phyrexianos, e por isso ela a fulminou com o olhar, mantendo sua posição, mantendo seu solo enquanto ela recuava e preparava seu arremesso.

Elas era uma atiradora mestre. Ela não mirava tanto quanto simplesmente se posicionava e confiava em seu braço para encontrar o alvo. A lança era uma combinação do mesmo metal que brilhava nos corpos de seus soldados e madeira endurecida pelo fogo que qualquer guerreiro kor teria orgulho de carregar. Liliana esperava que a madeira na lança fosse mais dominante do que parecia. O metal nos corpos dos outros ainda estava limpo e sem manchas, não enferrujando ou apodrecendo como seus corpos estavam.

O funcionamento da morte poderia parecer muito com a passagem do tempo, quando focado corretamente. Elas il-Kor arremessou. O dardo voou. Liliana puxou com mais força o solo corrompido e ensopado de morte, arrancando para si a mácula demoníaca e a morte natural tão rápido quanto jamais fizera, e fazendo-o dependendo de nada além de si mesma. Sem Véu de Corrente, sem contrato demoníaco. Apenas Liliana, os ossos de seus próprios mortos e a terra.

E profundamente abaixo do resto, o receptáculo que contivera um necromante que derrubaria um império, que fora possuído por um maior que ele mesmo, que estivera preparando-a para se tornar sua ferramenta: um simples anel. Sua magia exploradora, buscando outros reservatórios de poder, agarrou-se a ele, puxando tanta força de seu reservatório quanto poderia ser gerida apenas por instinto, sem uma intenção verdadeira e focada.

No alto, um corvo gritou e, por um momento, Liliana viu .

Viu o primeiro mago dominariano a canalizar o próprio poder da morte, o primeiro homem a deter a força do túmulo em suas mãos e fazê-la dançar conforme seus caprichos. Viu seu espírito, seu poder, passar para seu próprio aluno, possuindo-a, e depois para um novo receptáculo pouco tempo depois, repetidamente, até chegar a Lim-Dûl. Viu seu anel mudar de mãos até cair nas de seu ancestral, que o enterrou ali para escondê-lo daqueles que o abusariam — mas aquele não fora o fim. Ela viu o Homem Corvo, um pedaço da alma fraturada do antigo necromante, agitando-se em um receptáculo que ela conhecia muito bem, chamado por ele de além dos planos pelas incursões necromânticas de uma jovem mulher. Viu a mesma mulher finalmente romper o elo quando se libertou do Véu, a corrente parada bruscamente por uma ausência de mãos para segurá-la, e viu o que fora destinado a ela.

Ela fora destinada a ser mais um elo em uma linha que remontava àquele primeiro mago, agora sem nome, sua vontade submetida aos remanescentes da dele, sua alma refeita à imagem daqueles que vieram antes dela. O anel sussurrou para ela sobre poder sem limites se ela apenas cedesse, apenas se tornasse o receptáculo que Lim-Dûl a moldara para ser. Apenas se tornasse Lim-Dûl, de certa forma; ela ainda seria Liliana Vess, mas a parte dela que amava seus alunos, amava o Charco de Junco, chorava por Gideon e por seu irmão... essa parte desapareceria misericordiosamente.

Eu não me rendo a ninguém , pensou ela, empurrando a promessa do artefato para o lado, e agarrou apenas o poder que o cercava, o poder que poderia ser seu sem aceitar o fardo do manto de Lim-Dûl.

Liliana desencadeou uma onda revolta de névoa negra para varrer os phyrexianos em decomposição, pegando o dardo no meio do voo. A madeira apodreceu instantaneamente, deixando o metal brilhante para trás. O arremesso de Elas il-Kor fora certeiro, mas a perda súbita da madeira desviou a trajetória do dardo, e ele atingiu Liliana no ombro. Ela gritou.

Ela era uma maga poderosa, sim, e uma guerreira por direito próprio, mas o silêncio diante da dor nunca fora uma virtude dominariana, e a ponta do dardo queimava como gelo e ácido. Estendendo a mão, ela arrancou o dardo. Suas tatuagens brilharam em dourado. Se a onda de trevas revoltas parecera absoluta antes, o pulso seguinte fluindo para fora de seu corpo fez parecer que o primeiro fora apenas uma leve névoa. Isso era a verdadeira escuridão: isso era a morte recebendo permissão para correr pelo mundo dos vivos sem amarras.

Os phyrexianos pegos na onda inicial cambalearam e caíram sobre seus joelhos multiarticulados, o metal exposto finalmente sucumbindo à mancha enquanto decaía. Elas il-Kor estava longe demais para que a nuvem a alcançasse. Ela observou, um pequeno franzir de testa sendo o único sinal de sua desaprovação, enquanto suas tropas caíam e não se moviam mais.

Então eles começaram a se agitar novamente, erguendo-se aos solavancos do chão e virando-se para olhar para ela com olhos que nada mais eram do que poços de escuridão brilhante. Eles avançaram em direção a Elas enquanto a nuvem se dissipava, revelando Liliana com as mãos erguidas e tatuagens brilhando, direcionando sua nova força em direção à antiga líder deles.

Elas il-Kor deu um passo para trás. "Isto é uma perversão!" gritou ela. "Uma vez que você pertence a Phyrexia, você permanece dentro de Phyrexia!"

Liliana rangeu os dentes, lutando para manter seus lacaios reanimados. Ela não estava errada. Podia sentir a mácula que perdurava em seus ossos lutando para se reafirmar; quando ela os soltasse, eles se ergueriam novamente, retornando à sua família horrível. Mas por enquanto, aquele era o solo dos Vess, e ela estava enraizada nos mortos abaixo dela, e eles eram dela antes de qualquer outra coisa.

Elas il-Kor deu outro passo atrás. Então, escolhendo a sobrevivência sobre o destino de seus soldados, ela fugiu.

Liliana vacilou onde estava, mas manteve-se firme sobre os phyrexianos. Assim que afrouxasse o aperto, sabia que os perderia. O anel que sentira abaixo dela, o poço transbordante de poder necromântico, era profundo o suficiente para que lhe faltasse a força para trazê-lo à superfície enquanto mantinha seus novos escravos. Sem litomancia, ela teria que movê-lo através das mãos dos mortos, um passando para o próximo acima, e isso poderia levar dias. Mas ela também não podia deixá-lo onde estava. O pouco que sabia de Phyrexia, pelas histórias e relatos, dizia-lhe que se eles queriam algo, era melhor negá-lo a eles. Extraindo a força restante dos ossos abaixo dela, ela empurrou o artefato para baixo, ordenando aos antigos mortos que escondessem o objeto, o mais longe possível sob o solo dominariano.

Finalmente, ela liberou os phyrexianos para caírem e se contorcerem, então reuniu a magia que ainda dormia dentro dela e entrou nas Eternidades Cegas, desaparecendo em um redemoinho de escuridão. Ela voltaria ali em breve, para limpar sua terra e proteger o que enterrara. Só esperava que não fosse para encontrar os mortos virados contra ela. Mas por enquanto, Arcavios e o Charco de Junco esperavam para limpar suas feridas e repor suas reservas.

Das sombras, um homem de olhos dourados a viu partir, satisfeito por ter manipulado seus fios mais uma vez. Ela ainda era sua criatura, mesmo depois de tudo. Ela o protegera, no fim.

E um dia, ela voltaria para casa.

Episódio 4: Um Golpe Brutal

Estar no convés da Bons Ventos deixou Karn nostálgico. Embora uma tripulação diferente se apressasse em seu cordame, risse enquanto trabalhava no convés e mexesse em seus mecanismos brilhantes, os aromas e sons pareciam confortavelmente eternos. A luz dourada se espalhava entre as nuvens brancas abaixo e brilhava nos conveses encerados. Céus azuis se estendiam até o horizonte. A brisa do mar gelava seu corpo de metal. Apenas algumas horas antes, os quatro — Teferi, Jaya, Jodah e o próprio Karn — tinham sido retirados do andar superior da torre de vigia de Argívia um a um, pendurados em uma escada de corda como insetos acima da vasta cidade abaixo.

"Shanna está esperando", disse Jodah. "Devemos traçar o curso da Bons Ventos."

Karn assentiu, e Jaya se pôs a caminhar ao lado deles, seu cabelo branco fluindo atrás dela como um estandarte. Eles entraram na cabine do capitão. Shanna estava perto de uma mesa oval, os braços cruzados sobre sua couraça de couro polido. Arvad, sua pele já branca doentiamente pálida com sua palidez de vampiro, mantinha-se nas sombras atrás dela. Teferi estava deitado em um catre próximo, de olhos fechados. Raff havia puxado um banquinho de três pernas ao lado dele. Ele espalhara as mãos sobre o ferimento na barriga de Teferi e o brilho prateado de sua magia emanava de suas palmas como ondas de calor. Pelego-limo juntou-se a eles, filhotes semelhantes a cogumelos saltitando em sua base. Tiana apertou suas asas rente ao corpo para passar pela porta.

Shanna pegou uma fruteira que Karn pensara ser ornamental e sentou-se. "Eu posso ser a capitã, Karn, mas você é quem está traçando o curso. Diga-me para onde a Bons Ventos voa."

"Devemos forçar os phyrexianos a uma guerra aberta", disse Karn, "antes que ganhem força e convertam mais populações. Faremos isso atraindo-os com as três coisas que os phyrexianos desejam mais do que qualquer outra: o sílex, a Plataforma de Mana e... eu."

Jodah olhou para Karn, a preocupação iluminando seus olhos. "É um plano arriscado. A derrota significaria perder os artefatos mais preciosos de Dominária — e você, Karn. Não gosto da ideia de você em tal perigo."

"Eu gosto de um pouco de risco", disse Jaya. "Se os atrairmos, se vencermos, mataremos os phyrexianos na raiz. Eles são como hera: você tem que arrancá-la cedo. Uma vez estabelecida, ela se espalhará."

"Se os eventos em Argívia nos ensinaram algo", disse Karn, "é que nossas forças são mais fortes juntas do que separadas. As táticas phyrexianas dependem de nos dividir, do trabalho secreto que os agentes adormecidos podem realizar nas sombras. Se estivermos separados, estaremos vulneráveis. Juntos, menos."

"Ainda assim", disse Jodah, "nossos aliados estão espalhados por toda Dominária. Com a queda de Argívia, a força armada mais poderosa deste continente não é mais nossa — é deles. Temos que recrutar todos os aliados que pudermos para resistir."

"Então nos dividimos", disse Jaya. "Recrutamos aliados e os levamos para a Plataforma de Mana."

A tripulação da Bons Ventos estivera quieta durante esta discussão, mas agora Raff suspirou. A magia desapareceu de seus dedos. He olhou para Karn. "Minha irmã lutará por você."

"Vou procurar por Danitha", decidiu Jaya.

"Yavimaya também foi atacada", disse Jodah. "Os elfos nos ajudarão. Posso ir até eles para recrutá-los para lutar ao nosso lado."

"Eu irei diretamente para a Plataforma de Mana", disse Karn, "para falar com Jhoira. Sou o único que leu e consegue lembrar da chave que encontrei para o sílex. Preciso registrar essa informação para que outros a examinem."

Teferi despertou de seu torpor. "Eu irei com você, Karn. Preciso de tempo para me recuperar e também posso recrutar nossos aliados shivanos enquanto a Plataforma de Mana e o sílex o ocupam."

"Você não tem boa sorte", disse Karn, observando os ferimentos de Teferi.

"Acho que tenho uma sorte excelente", disse Teferi. "Eu sobrevivi, não sobrevivi?"

"Se nos separarmos", disse Jaya, o cabelo soprando em volta do rosto, "como saberemos se algum de nós foi comprometido? Stenn nem sabia que era um deles."

"O vidente tem dificuldade em focar nos phyrexianos", disse Karn. "Se eu não puder ver vocês, assumirei que foram comprometidos."

"Ainda bem que você não dorme", disse Jaya.

Shanna olhou para sua tripulação, que ouvia pacientemente. "Está decidido. Vamos zarpar."


As Montanhas de Ferro Vermelho eram tão bonitas que planejar uma guerra aqui parecia irreverente. Não que Jaya fosse do tipo devoto, mas aqueles picos escarpados e rudes com xisto caindo pelas ravinas, brancos sob a luz, e as flores alpinas pendendo dos prados em ramos de roxo e ouro, e aquela enorme estátua andrógina de algum herói cuja história se perdera no tempo...

Bem, talvez ela estivesse envelhecendo, mas Jaya conseguia se ver relaxando do lado de fora de uma pequena cabana em uma banheira de madeira de cedro em um daqueles vales sombreados onde máquinas de guerra apodreciam, esquecidas sob musgos esmeralda e samambaias-espada eretas, inertes como pedregulhos. Talvez com um chá de hortelã gelado na mão. Isso sim seria uma maneira relaxante de passar uma década ou duas.

Ela bufou para si mesma. Não é como se você fosse se aposentar algum dia!

"Jaya!" Ajani surgiu das sombras profundas das árvores, seu pelo branco brilhando na luz e sua capa ondulando atrás dele. "Danitha me disse que você chegou. Tenho procurado veados para alimentar o acampamento. Há boa caça aqui."

Arte de: Matt Stewart
Arte de: Matt Stewart

"Alguma sorte?", perguntou Jaya.

Ajani ofereceu-lhe um sorriso feroz que revelou seus dentes. "Sempre. Os milenários de Llanowar lembram-se bem da invasão phyrexiana e já enviaram batedores para se juntarem a nós. Alguns dos melhores arqueiros de Dominária."

Quando ele saltou atrás de Aron Capashen, Jaya se preocupou. "Parece que você não resgatou Aron?"

Ajani voltou seu olhar para o acampamento de Danitha, estabelecido à beira de um lago glacial verde-turvo. Seus cavaleiros benalitas haviam montado tendas de lona branca. Além da orgulhosa torre da Casa Capashen com sete janelas, a bandeira da Casa Tarmula voava, com uma estrela de sete pontas. Um caldeirão perfumava o ar com o cheiro de cebolas cozinhando.

"Eles me distanciaram e, quando dei a volta, vocês tinham partido. Então comecei a rastreá-los e encontrei Danitha."

Danitha Capashen caminhou pelo acampamento em direção a Jaya e Ajani. Sua pele castanho-clara brilhava de saúde e seu cabelo, raspado nas laterais, fora puxado para trás em uma pluma apertada. Sua armadura brilhava em prata com fitas de ouro cruzadas em seu peito como a faixa de Gerrard, incrustada com vitrais que brilhavam em pétalas vermelhas, escarlates e amarelas.

"Rastreei os phyrexianos até uma base ao sul daqui, escondida em algumas cavernas", disse Ajani.

"Meu pai deve estar lá." Danitha virou-se para Jaya. "Danitha Capashen, filha de Aron Capashen, herdeira da Casa Capashen. E você é?"

Ora, ora... fazia algum tempo que Jaya não deixava de ser reconhecida.

"Jaya Ballard", Ajani limpou a garganta, "luta ao lado de Jodah, o Eterno."

Jaya bufou. Jodah colecionava apelidos como alguns meninos colecionavam bolas de gude. "Estou aqui para convidá-la a levar reforços para Shiv."

"Qualquer amigo de Ajani é bem-vindo aqui", disse Danitha. "Mas infelizmente, não posso comprometer minhas tropas para lutar em Shiv até que eu tenha resgatado meu pai."

"O atraso—"

"Vale a pena, e se você quiser me assistir, eu agradeceria sua ajuda", disse Danitha. "Se meu pai estiver vivo, você terá a gratidão e os cavaleiros da Casa Capashen à sua disposição. E se ele não estiver... bem, você terá o novo líder da Casa Capashen em dívida com você."

Jaya esticou os dedos, puxando chamas do ar. O calor irradiou por sua pele. "Bem, uma maneira certa de tirar alguém de uma caverna é fumaça."


Se havia algum lugar em Dominária onde Jodah se sentia jovem, era nas ruínas de Kroog, em Yavimaya. O antigo edifício abobadado, com seu teto arqueado aberto para o céu, sua pedra dourada adornada com jiboias pendentes, parecia reter as cores do pôr do sol como um tesouro guardado por um dragão. Exposto quando um enorme arvorite se desenraizou e migrou para o mar, ainda cheirava a terra.

"Jodah?"

Ele não reconheceu a voz. Uma borboleta azul-celeste pousou em seu ombro. Ele fez menção de espantá-la, mas hesitou.

Uma elfa olhava para ele, sua pele clara salpicada de dourado ao redor de seus olhos brilhantes e inteligentes. Embora Jodah não soubesse dizer o porquê, ela parecia jovem. Ela usava uma armadura de couro de guerreiro; escarlate, ocre e laranja, porém, ao contrário da armadura que ele vira em outros elfos de Yavimaya, ela integrara tecnologia Thran reaproveitada.

Arte de: Aurore Folny
Arte de: Aurore Folny

"Você é Jodah, o Eterno?", disse ela. "O Arquimago Jodah?"

Jodah tossiu. Por algum motivo, com a elfa encarando-o, ele se sentiu particularmente constrangido com a borboleta batendo preguiçosamente suas asas do tamanho de um prato perto de seu rosto.

"O Druida Ancião Jenson Carthalion me contou tudo sobre você. Algumas pessoas dizem que houve muitos Jodahs diferentes que usaram seu nome como título, mas eu sempre pensei que houvesse apenas um."

"Estou aqui para negociar com Meria", disse Jodah, "para recrutar tropas para lutar pela Nova Coalizão em Shiv."

"Você deve ter quatro mil anos!" Ela o olhou de cima a baixo como se olhasse para um artefato arqueológico. A borboleta voou para longe. Jodah limpou a garganta. Ele se sentiu avaliado, uma sensação que não apreciava.

Então a elfa suspirou. "Eu gostaria de poder ajudá-lo, Jodah. Desde que eu era criança, sonhei em lutar ao seu lado, em liderar meu povo em seu auxílio... em salvarmos Dominária juntos. Mas sinto muito. Devo pensar no meu povo."

Jodah sorriu. Então esta era Meria. Apenas séculos de prática em diplomacia permitiram-lhe esconder seu choque. Raramente os elfos seguiam alguém com o frescor da juventude estampado em suas feições — uma das razões pelas quais ele pensara ser melhor realizar essas negociações pessoalmente. Mas então, raramente os elfos buscavam abrigo em ruínas antigas, edifícios de pedra e metal. Dominária estava mudando. "Os phyrexianos estão invadindo, Meria. Não é uma questão de se você lutará. É uma questão de quando, de como — e as respostas a ambas as perguntas, se ficaremos juntos, determinarão se alcançaremos a vitória."

Meria baixou a cabeça em solene reconhecimento. "Você é sábio, Jodah, o Eterno. Sinto-me honrada em conhecê-lo. Verdadeiramente, estou. Mas nem suas palavras nem seu nome me influenciarão. Não vejo razão para meus guerreiros abandonarem seus lares por sua causa. Sim, se os phyrexianos sombreassem nossa copa, lutaríamos — em nossa terra natal, com a vantagem. Mas viajar para Shiv? Não, acho que não."

"Os phyrexianos podem criar agentes adormecidos", disse Jodah. "Eles podem se infiltrar—"

"Nós sabemos", disse Meria. "Mas quando Yavimaya permitir que meu povo retorne, Multani separará os bons dos maus."

"Você preferiria que a luta viesse até aqui?", disse Jodah. "Melhor extinguir a ameaça phyrexiana agora do que deixar Yavimaya queimar."

Os olhos de Meria brilharam. Ela não estava zangada. Ela não estava assustada. Ela não estava sequer implacável. Ela estava divertida, e isso foi o que mais confundiu Jodah. Ele não estava acostumado a ser alvo de riso de alguém com uma fração de sua idade.

"Argumentos muito convincentes." Meria sorriu e deu um tapinha em seu ombro. Mas Jodah percebeu, enquanto ela se afastava, que ela já havia tomado sua decisão.

Jodah falhara. Meria não lideraria seu povo para Shiv.


Jaya encolheu-se atrás de um afloramento rochoso que dominava todo o vale. Não era a posição mais confortável, mas ela não podia reclamar da vista. No final de uma ravina estreita, a grande bica triangular da caverna se abria. Dois phyrexianos guardavam a abertura, monstruosidades semelhantes a centopeias com corpos humanos retalhados em seus núcleos. Seus múltiplos membros brilhavam à luz do sol, inquietos.

De sua posição vantajosa, Jaya podia ver o que as monstruosidades phyrexianas não podiam.

Ajani liderava meia dúzia de batedores de Llanowar para remover os guardas do perímetro, limpando as criaturas que espreitavam nas florestas sombrias. Ele tivera sucesso — até agora. Nenhuma criatura agonizante gritara um alerta.

Danitha liderava o grosso de sua força. Seus cavaleiros esperavam emboscados perto da entrada da caverna, escondendo-se em valas, atrás de arbustos e árvores, nos nichos musgosos atrás de pedregulhos de granito. Danitha ergueu a mão, sinalizando: Jaya, é hora.

Jaya destilou seu foco até que fosse afiado como uma lâmina dentro dela. Ela estreitou os olhos para a caverna. O próprio ar entrou em combustão, explodindo em chamas. O gramado de agulhas de pinheiro fumegou, enviando densas nuvens de fumaça em direção ao céu.

Os guardas phyrexianos entraram em ação, fervilhando pela vegetação rasteira. Danitha apontou para três cavaleiros, que avançaram, fendendo a monstruosidade mais próxima com suas espadas largas. Ela caiu em pedaços sangrentos, cada um dos quais desenvolveu dezenas de pernas minúsculas. Danitha ergueu a mão novamente e enviou outra força dissidente para conduzir os pedaços phyrexianos em direção à posição de Jaya.

Assim que estavam perto o suficiente, Jaya enviou plumas de fogo atrás de cada segmento. Desta vez, quando os cavaleiros esfaquearam os pedaços phyrexianos fumegantes, eles permaneceram mortos.

"Já vai tarde", murmurou Jaya.

Na entrada da caverna, uma fumaça densa se enroscava no ar. Mais phyrexianos saíram da caverna — bem mais de duas dúzias de abominações humanoides.

"Nove Infernos", murmurou Jaya. Os cavaleiros se revelaram cedo demais. Sua inexperiência ficou evidente: eles lutavam como se seus oponentes fossem soldados comuns, em vez de horrores interplanares.

Com um vórtice de chamas protegendo-a, Jaya desceu a encosta. Enquanto explodia os phyrexianos, ela vislumbrava horrores breves por trás de suas lufadas de fogo: uma mulher completada, bobinas de ferro escapando de seu coração, arrancando a armadura de um cavaleiro benalita como uma criança removendo os membros de um inseto; uma criança completada, mergulhando seus fios sob a armadura de outro cavaleiro, explodindo-o por dentro. Danitha lutava costas com costas com seu segundo em comando, seu rosto sombrio.

Os benalitas estavam sendo subjugados.

Ajani liderou seus batedores de Llanowar para a briga, fendendo as monstruosidades phyrexianas com seu machado de duas cabeças. O avanço phyrexiano parou, frustrado.

Arte de: Manuel Castañón
Arte de: Manuel Castañón

Jaya pensou, por um momento de esperança, que o leonino tivesse virado a batalha a seu favor, até que um novo phyrexiano emergiu da caverna, com mais monstruosidades em seus calcanhares. Ele tinha forma humana, largo e musculoso, com uma armadura pálida fundindo-se em seu torso. Espigões de metal curvavam-se através de seu cabelo loiro-pálido como chifres e seus olhos de íris laranja choravam óleo negro sobre suas bochechas brancas como gelo. Ele ergueu seu par duplo de braços, que se fundiam nos bíceps, em uma recepção irônica. "E aqui estava eu esperando que alguns da minha antiga tripulação pudessem estar no grupo de resgate. Que pena — eu estava tão ansioso para colocar o papo em dia."

Jaya, apesar do fogo em suas mãos, sentiu um calafrio até as entranhas. Ertai. Ela já ouvira falar dele, com certeza — um da tripulação original da Bons Ventos. Ele estivera morto por séculos — e ainda tinha a palidez da morte, embora alguma força reanimasse suas feições trêmulas. Seus olhos possuíam uma inteligência terrível.

"É um prazer imenso estar de volta", disse ele. "E eu aprendi tanto, tanto mesmo em meu tempo fora. Gostariam de ver?"

E Aron Capashen saiu da boca da caverna.


Karn pegou seu esboço da tabuleta de argila que encontrara nas Cavernas de Koilos e depois perdera na Baía das Ostras. Ele traçou os símbolos em arco. Embora pudesse se lembrar perfeitamente do que encontrara, não conseguia fazer sentido daquilo.

"Karn?" Teferi espreitou na oficina de Jhoira, da qual Karn, em sua ausência, havia se apropriado. "Falei com Darigaaz, mas os dragões ainda estão deliberando."

"E os Ghitu?"

"Os Ghitu não se comprometerão até que os dragões o façam. É política de conselho."

"Os viashinos?"

"A mesma história." Teferi inclinou a cabeça. "Apenas os goblins se apresentaram."

"Os goblins? Isso é uma surpresa", admitiu Karn.

"Eles queriam ser os primeiros", disse Teferi. "Eles estão confiantes de que os dragões, os Ghitu e os viashinos virão lutar quando os phyrexianos atacarem, mas os goblins queriam poder dizer que eles se juntaram primeiro, para que possam usar isso como vantagem em relações futuras." Teferi deitou-se no catre de Jhoira. Ele fechou os olhos de exaustão. Embora a magia o tivesse curado, ele ainda estava se recuperando.

Um guincho quebrou o silêncio da oficina — tão alto que os béqueres mais finos de Jhoira se estilhaçaram. Teferi sentou-se abruptamente, agora alerta. Um segundo depois, um impacto ressoou, sacudindo poeira sobre os aparelhos delicados, arruinando experimentos. O odor sulfuroso que entrava pela porta fez Teferi tossir, embora os sentidos de Karn lhe dissessem que sua concentração não era alta o suficiente para prejudicar a vida humana.

"O que—" começou Teferi.

Karn pressionou o dedo nos lábios pedindo silêncio. Ele estava ouvindo. A Bons Ventos. Karn saiu da oficina. Embora cansado, Teferi o seguiu.

Nos céus de Shiv — tão quentes que não eram azuis, mas de um branco causticante — a Bons Ventos girava pelo céu, envolta nos detritos apodrecidos que vinha usando como camuflagem dos phyrexianos que os caçavam. Parecia que não tinham conseguido eludir um deles, no entanto, que os circulava como um predador. Desdobrado, o phyrexiano dominava o céu. Suas asas finas como as de morcego tinham garras de metal com articulações excessivas, e seu corpo era uma massa de fibras. A Bons Ventos lutava contra ele, disparando arpões na fera, mas as farpas passavam pela malha solta de fibras, inúteis. Magia piscava pelo céu, mas até Karn podia ver que aquela criatura superava sem esforço a Bons Ventos.

Mas então uma pequena sombra no céu branco de Shiv se aproximou, abrindo duas asas enormes: um dragão. Até Karn tinha que apreciar um dragão adulto: não existia ser mais poderoso em Dominária, o ápice tanto da violência quanto da sabedoria. A sombra brilhou, cintilando conforme o sol atingia suas escamas. Darigaaz viera em seu auxílio. Ele virou para baixo, mergulhando, e ganhou velocidade até atingir a monstruosidade.

O phyrexiano explodiu com o impacto, partindo-se em uma massa contorcida. Ainda no ar, seu corpo fragmentado pendia entre suas asas. A monstruosidade tentou se recompor. Fibras de ferro escorregadias teciam-se e se entrelaçavam.

But Darigaaz já havia girado no ar. Ele exalou uma chama tão branca e quente sobre a monstruosidade phyrexiana que ela não queimou: ela vaporizou. Gotas de metal fundido choveram sobre o convés da Plataforma de Mana, seguidas pelo próprio Darigaaz. As pessoas se espalharam, recuando a uma distância respeitosa.

"Planeswalker Teferi." Darigaaz inclinou a cabeça. "Aceito sua proposta de lutar aqui em Shiv. Defenderei nossos céus — sem dúvida, meus irmãos se juntarão a mim. Assim como aqueles das outras nações que têm assento no conselho shivano."

Teferi caminhou em direção ao dragão. He fez uma reverência. "Aceitamos a aliança dos dragões de Shiv. Com respeito, é claro."

Darigaaz inclinou a cabeça, solene. Ele se lançou ao céu, sua decolagem uma economia de poder, e subiu em espiral em direção ao azul.

No silêncio, Jhoira deslizou por uma corda do convés da Bons Ventos para a Plataforma de Mana. Sua coruja mergulhou e pousou em seu ombro, seu corpo de metal brilhando ao sol. "É difícil superar essa performance."


Aron Capashen saiu da caverna. As linhas cirúrgicas em seu rosto ainda tinham bordas vivas, mas não vertiam sangue: em vez disso, óleo negro brilhava perto das suturas. As linhas pareciam... artísticas, Jaya tinha que admitir, como se Ertai tivesse considerado cuidadosamente cada corte arqueado sobre as maçãs do rosto de Aron, e então o contrastado deliberadamente com a linha irregular em sua testa. Mas, de resto, Aron parecia devastadoramente humano. Sua expressão era angustiada — ao contrário dos outros phyrexianos, ele parecia autoconsciente. Ele ainda era Aron Capashen, e sabia o que fora feito com ele, o que isso significava. Seus lábios formaram as palavras: por favor, não olhe para mim. Mas ele não emitiu, não conseguia emitir som algum.

"Pai." O suspiro de Danitha foi rouco — porém tão sofrido. Jaya desejava poder oferecer um pingo de conforto.

"O que você fez?", exigiu Ajani.

"Sheoldred me ensinou que a beleza reside na mudança", disse Ertai. "É uma lição difícil quando aplicada a si mesmo. Mas quando aplicada a outros, a beleza da mudança torna-se mais aparente, sua estética uma revolução. Observe."O rosto de Aron abriu-se ao longo das linhas de incisão cirúrgica, desdobrando-se para revelar que seu crânio fora substituído por aço, seu olho por uma lente de cristal, e que seu cérebro jazia protegido sob vidro. Ao contrário de outras monstruosidades phyrexianas, as mudanças de Aron tinham uma complexidade de engrenagens, cada mecanismo delicado tiquetaqueando e zumbindo. Isso lembrou Jaya de um mapa estelar.

"Meu pai não é seu brinquedo." A voz de Danitha soou monótona de choque, mas seus olhos ardiam de raiva. Com as mãos em seu espadão, ela avançou em direção a Ertai e Aron. Seu pai a observava com uma esperança dolorosa — para o quê, Jaya não sabia.

Nenhum phyrexiano se moveu para interceptá-la.

Ertai observava com fascinação. "Aron? Cumpra seu dever."

Aron lançou-se à frente. Ele ergueu as mãos, aos solavancos, e sacou sua espada. Ele investiu contra Danitha. Ela parou o golpe, parecendo assustada. Seus movimentos pareciam bizarros, espasmódicos e desajeitados, como se ele estivesse resistindo a si mesmo. Ou resistindo ao comando de Ertai? Ele golpeou para baixo novamente, e desta vez Danitha aparou o golpe em seu espadão. Ela o forçou para trás, desequilibrando-o. Seu olho intacto chorava óleo brilhante enquanto ele marchava em direção a ela novamente.

"Danitha," disse Aron, sua voz estranha e distorcida. "Cumpra seu dever." Suas palavras eram um eco distorcido das de Ertai.

A devastação cruzou o rosto de Danitha tão rapidamente que Jaya, a esta distância, quase não percebeu. Mas então os lábios de Danitha se firmaram. Seu olhar tornou-se ao mesmo tempo gélido e piedoso. "Sim, Pai."

Desta vez, quando ele desceu sua lâmina sobre ela, Danitha esquivou-se. Ela ergueu seu espadão e o desceu em um arco gracioso, separando a cabeça dele de seus ombros.

Ertai observava tudo isso com desapego. "Sem respeito pela arte. Mas suponho que eu sempre possa costurar isso de volta."

Ele acenou com uma mão de três dedos.

As montanhas tremeram. Pedras se quebraram e escombros despencaram. Xisto afiado girou passando por Jaya, cortando sua bochecha. Ela arquejou e levou a mão ao ferimento. Uma monstruosidade phyrexiana libertou-se da montanha à frente deles, despedaçando-a em escombros. O estrondo da rocha deslizando de seu corpo trouxe lágrimas aos olhos de Jaya. A monstruosidade ergueu-se no céu, tão grande que ocultou o sol. Seu corpo blindado elevou-se, repleto de mecanismos complexos e armamento, empoleirado sobre pernas imensas e enganosamente finas. Sua cabeça era um aríete, e sua cauda terminava em um ferrão, pingando veneno oleoso.

"Chifres estúpidos do Dim-Bulb isso é enorme ," Jaya sussurrou. Um encouraçado phyrexiano. Tinha que ser o maior que ela já vira. "Como deveríamos lutar contra isso ?"


Meria parou, com a cabeça inclinada. Pássaros cruzavam o céu acima, gritando. Ela os observava, com uma carranca marcando a testa entre as sobrancelhas. Guinchos ecoavam por toda a floresta enquanto macacos gritavam o alarme, e Jodah ouviu até mesmo o rugido tossido de algum grande felino da floresta.

Meria virou-se para encará-lo. "Algo está vindo."

Ela girou e correu para fora do edifício. Jodah seguiu o passo ao lado dela. À distância, galhos de árvores balançaram — depois estilhaçaram-se, explodindo para cima em uma erupção de vegetação enquanto uma maquinaria dragão erguia-se nos céus azuis vazios de Yavimaya.

Jodah nunca vira um mecanismo tão vasto. Seu crânio de bronze brilhava na luz tropical quente, ocultando o sol. Seu dorso de bordas afiadas estendia-se pela floresta tropical, mais longo que a crista de uma colina, e ele avançava por entre as árvores — em direção a Jodah, Meria e os elfos.

A boca serrilhada da maquinaria dragão abriu-se em um rugido silencioso. Seu zumbido era tão profundo que Jodah não conseguia ouvi-lo: ele só podia senti-lo, como um golpe no coração. As vibrações viajavam pela paisagem, estilhaçando galhos. Papagaios caíam das árvores, atordoados. Pequenos marsupiais caíam, com olhos e narizes sangrando. Jodah tocou o rosto, pressionando o dedo indicador no fio quente que escorria por seus lábios. Ele também sangrava. Elfos de Yavimaya emergiam de seus edifícios, correndo para se armar. Cavaleiros conduziam seus kavus dos estábulos nas copas das árvores. Um elfo saiu cambaleando de sua cabana segurando um bebê que sangrava pelo nariz. Ele olhou para Meria com olhos suplicantes.

A maquinaria dragão rasgou a floresta tropical, arrancando uma árvore.

Meria arquejou. "Está destruindo Magnigodos. Essas árvores estão de pé há séculos!"

Jodah começou a catalisar seus feitiços. Ele podia sentir o poder subindo dentro dele, tão brilhante que vertia de sua pele, que o levantava do chão, que o embalava. Manter toda essa magia pronta Era tão integrante de seu ser quanto suas veias. Ele se preparou.

Ao seu redor, elfos de Yavimaya evacuavam suas casas, arrastando crianças e pertences para longe da luta. Jodah vislumbrou despedidas lacrimosas mas breves enquanto guerreiros diziam a seus filhos para serem quietos e corajosos, e então abraçavam seus parceiros antes de partirem.

Guerreiros montados em kavus agarravam-se a cada galho de árvore, seus arcos, lanças e lâminas em punho. Conjuradores estavam em falanges sobre o gramado musgoso, mais brilhantes que flores em suas vestes, com os dedos entrelaçados, os lábios já se movendo com cânticos para ocultar os civis em retirada. Meria deu a Jodah um olhar angustiado e o conduziu para a vanguarda de seus guerreiros.

Com um golpe, a maquinaria dragão limpou o terreno entre ela e a vila yavimayana. Árvores ancestrais desabaram no chão, estilhaçando-se, as casas em forma de folha em seus galhos esmagadas. O solo turvou o ar, depois assentou, revelando uma vala bruta entre Yavimaya e a maquinaria dragão. A maquinaria dragão não apenas arrancara árvores ancestrais de modo que suas raízes emolduravam o campo de batalha, expondo a terra — ela também revelara artefatos da cidade Thran profundamente enterrada sob as Ruínas de Kroog. Água subterrânea infiltrava-se pelo rico lodo, empoçando ao redor dos objetos dourados. Meria arquejou.

"Eu reconheço aquilo," ela sussurrou. "Dos meus estudos. Oh, aquilo — Jodah, aquilo é a nossa esperança."

Jodah não conseguia determinar qual objeto Meria queria dizer naquela confusão, mas o fato de ela ter escolhido um artefato a esta distância era notável. Não era de admirar que os yavimayanos a seguissem.

A maquinaria dragão inclinou a cabeça como se para olhar para suas forças armadas. Dentro de seu crânio, sua piloto sentava-se como uma joia, iluminada com uma luz azul pálida. Mesmo a esta distância, Jodah conseguia distinguir suas feições, ver a luz vermelha de seu olho substituído. Ela correspondia às descrições de Karn: Rona. Seus dentes estavam à mostra em um sorriso feroz.

Em um eco da própria linguagem corporal de Rona, a maquinaria dragão abriu-se, expondo suas mandíbulas farpadas. Dentro de suas placas de armadura mecanizadas, restos de pequenas criaturas da floresta apodrecendo pendiam suspensos entre ligamentos oleosos. Rona os abatera para restaurar a massa da maquinaria dragão.

O estômago de Jodah revirou.

"Arqueiros!" gritou Meria.

Os yavimayanos soltaram suas flechas, mas elas eram inúteis contra as placas da maquinaria dragão. Jodah podia sentir a máquina acumulando energia — e, a esta proximidade, outro rugido os aniquilaria.


Ertai riu suavemente. He ergueu os braços. O par superior tinha apenas três dedos curtos em cada mão, com os quais ele fez um sinal de chamada. O encouraçado girou sua cauda e esmagou tanto phyrexianos quanto cavaleiros benalitas enquanto jorrava veneno. O fluido viscoso arqueou-se, tão ácido que derreteu árvores e ferveu o riacho alpino. O golpe ecoou por toda a cordilheira, provocando desmoronamentos e avalanches distantes.

Apesar da cacofonia de rochas desabando, Jaya ainda conseguia ouvir a risada deleitada de Ertai. Ele acenou com os braços, e os phyrexianos lançaram-se contra as forças benalitas devastadas. Ajani lutava às costas de Jaya, golpeando as criaturas que se aproximavam dela. Danitha recuou para ajudar suas tropas. Ela gritou ordens que fizeram os cavaleiros benalitas se reformarem ao redor dos arqueiros de Llanowar, formando um círculo agora que estavam cercados.

"Fogo," ela ordenou, e os elfos de Llanowar soltaram as cordas de seus arcos. Suas flechas ricochetearam nas pernas do encouraçado, sem nem mesmo amassar sua armadura.

O encouraçado espreguiçou-se e posicionou-se sobre o campo de batalha. Ele arqueou a espinha. Se liberasse mais ácido, eles estariam certamente condenados

"Parem!" gritou Ertai. Seus phyrexianos recuaram, retirando-se para as rochas como caranguejos. As criaturas ex-humanas maiores correram em direção às pernas do encouraçado e agarraram-se ali. Alguns cavaleiros pararam. "Interrompa seus combatentes, Danitha."

"Ou ?" perguntou Danitha.

Ertai sorriu. Ele apontou para o encouraçado com uma das mãos superiores e para a escória derretida de seu jato de ácido com a outra. Ele ergueu as sobrancelhas. As cerdas ao longo de sua cabeça pareciam se elevar com prazer.

"Ou," disse ele.

Danitha ergueu uma mão. Seus cavaleiros pararam de lutar. Jaya deixou suas chamas morrerem, o excesso de esforço percorrendo seu corpo. Ajani recuou, seu machado de duas mãos pesado entre as palmas com mais do que certa relutância, dentes arreganhados. Ele encontrou o olhar de Jaya, e ela lhe deu um de ombros exausto. Ela não tinha um plano.

"Jaya. Ajani. Se vocês não se entregarem a mim," disse Ertai, "eu direi ao encouraçado para erradicar este povo. Todos eles."


Jodah ergueu as mãos, elevando sua energia para formar uma barreira protetora. O escudo ondulou de seu ponto mais brilhante, um brilho branco que coloria o próprio ar. Ele não conseguia mitigar os efeitos do rugido estrondoso do dragão, mas podia suavizá-los — mesmo que seu feitiço, por mais poderoso que fosse, resistisse apenas a uma explosão.

"Ali. Eu preciso alcançar aquilo." Meria apontou para um artefato Thran descoberto que jazia na terra entre suas tropas e a maquinaria dragão. Ela tocou o braço de Jodah e olhou para ele esperançosa. "Você pode deixar esse escudo aí para proteger meu povo enquanto vem comigo? Lá no campo de batalha, quero dizer."

Jodah assentiu. Qual era a natureza deste artefato, para que Meria confiasse a vida de seu povo a ele? "Sim, eu posso fazer isso."

Meria ergueu a voz em um grito, que Jodah assumiu significar "aguardar", porque ele viu os arqueiros mudarem de posturas ofensivas para defensivas, olhos cautelosos. Ela assentiu satisfeita, depois voltou sua atenção para Jodah. "Pronta?"

Jodah estendeu os dedos e os pressionou contra o ar. O feitiço brilhou em resposta, depois estabilizou-se. Meria sorriu para ele, seu rosto aguçado com inteligência e entusiasmo. Ela bateu sua lança no chão, e um intrincado traçado Thran iluminou seu comprimento. Esporas de metal dispararam de uma extremidade da lança, e uma teia translúcida desdobrou-se entre elas. Sua lança parecia funcionar também como um planador Thran energizado.

Meria passou um braço ao redor dele. "Segure firme!"

Jodah ficou tenso — mas tarde demais. O planador os tirou do chão bruscamente. Ele se viu agarrado cerimoniosamente a Meria enquanto o planador os conduzia pelo ar. Eles passaram velozes por sua barreira mágica. Ela ofereceu alguma resistência, flexionando-se, mas permitiu a passagem. Magia quente zumbiu por sua pele, chocante em seu poder. O planador fez uma curva fechada, depois mergulhou em direção à terra. Eles aterrissaram em uma cratera que se enchia rapidamente com água salobra — bem aos pés da maquinaria dragão.

"Cubra-me," disse Meria.

"É por isso que estou aqui?" disse Jodah, secamente. Mas ele preparou seus feitiços. Ele ainda podia sentir o escudo que haviam deixado para trás para proteger os guerreiros yavimayanos drenando-o. Isso não o impediu de convocar suas reservas. "Farei o meu melhor."

"Bom." Meria, indiferente à sujeira, caiu de joelhos e começou a vasculhar as águas lacentas. "Está aqui em algum lugar. Eu sei que vi "

A maquinaria dragão rugiu. Jodah lançou uma bolha branca radiante, protegendo-os. A força sônica golpeou ambos os escudos de Jodah. Ele convocou mais força arcana para encontrar e anular a energia de impacto; o rugido da maquinaria dragão aumentou, depois cessou. Os escudos de Jodah desapareceram com ele, e exausto, ele caiu de joelhos. Seu corpo inteiro sentia-se espancado, como se ele tivesse se esticado fisicamente atrás daqueles escudos para mantê-los. Ele não tinha forças para fazer isso de novo.

A maquinaria dragão inclinou a cabeça em direção a eles. Jodah tinha a terrível suspeita de que Rona pretendia atingir tanto ele quanto Meria mais diretamente com seu próximo golpe. "Depressa!"

"Aha!" Meria pescou do lodo um globo prateado coberto de delicados traçados Thran dourados. "Encontrei! Eu sabia que tinha visto um destes."

A visão de Meria tinha que ser extraordinária para ela localizar e reconhecer um artefato Thran entre as raízes, terra e escombros após o ataque da maquinaria dragão. "O que é isso?"

Meria girou o globo, realinhando os símbolos em novas configurações. Ele acendeu. Um brilho percorreu o equador do globo em um ritmo cada vez mais rápido. Jodah reconheceria uma contagem regressiva em qualquer lugar. Meria inclinou a cabeça. "Quão rápido você acha que consegue nos tirar daqui?"

Jodah rangeu os dentes e preparou um portal. O esforço o deixou sem fôlego, embora ele tivesse configurado o portal para transportá-los apenas por uma curta distância. Mas ele já havia gasto grande parte de sua força nesta batalha. Parecia que ele abria aquela porta-no-ar com as unhas.

Meria mergulhou, e Jodah saltou atrás dela. Ele girou, estendeu a mão e fechou o punho. O portal colapsou — bem a tempo. O artefato Thran brilhou, uma luz vermelha brilhante que saturou a paisagem como se fosse um aviso, e então, em vez de um estrondo, houve —

Silêncio.

Entre os elfos yavimayanos e a maquinaria dragão, uma fina película parecia ter se formado. Mas não era uma película, não exatamente. De um lado — o lado em que Jodah estava — o ar estava espesso com pólen turvo, poeira que a maquinaria dragão havia levantado e umidade. Ele nunca havia percebido que o ar tinha uma cor: não até que olhasse de uma área com ar para uma área sem ele.

A arma Thran criara um vácuo esférico. A maquinaria dragão estava no centro dele, e rugia — e rugia — em silêncio absoluto.

Mas mesmo daqui Jodah conseguia ver como a maquinaria dragão falhava: as partes orgânicas dentro dela morriam. Os restos dilacerados das criaturas da floresta, confrontados com o vácuo, congelaram. Dentro da maquinaria dragão, tendões romperam-se, órgãos tornaram-se gelo viscoso ou explodiram, e as fibras musculares solidificaram-se. Os fios do dragão, contorcendo-se sob sua armadura, pareciam ter se tornado mais quebradiços. Mais do que alguns se romperam. As luzes desapareceram da maquinaria dragão, escurecendo dentro de seu crânio.

"Eu não acho que o artefato seja uma arma, na verdade." Meria apoiou uma mão no quadril. "Eu acho que os Thran o usavam para conduzir experimentos científicos no vácuo. É o que eu faria."

Não, pensou Jodah. Isso era uma arma. Talvez até uma Esfera de Amortecimento, embora ele nunca tivesse visto uma fazer aquilo antes.

A maquinaria dragão cambaleou em direção à borda do campo, depois desabou através da barreira. Caiu de modo que metade de seu corpo estava na floresta e a outra metade permaneceu no vácuo. Rona, uma marca distante na cabeça da maquinaria dragão, abriu uma escotilha e saiu cambaleando de sua cavidade. Ela meio que deslizou, meio que escalou da cabeça da maquinaria dragão descendo por seu corpo inclinado. A velocidade com que ela fez sua descida impressionou Jodah — mas então ele supôs que também estaria desesperado. Ela parou na borda da floresta, com as mãos nos joelhos enquanto, aparentemente, respirava.

Meria fez um pequeno gesto com uma mão. Cavaleiros de kavu empunhando lanças destacaram-se, disparando pela periferia em direção a Rona. Ela lançou um olhar para trás e fugiu. Meria observou a perseguição, solene. Seu olhar voltou-se para os Magnigodos caídos. "Centenas de anos de vida — perdidos em um instante."

Jodah inclinou a cabeça. "Isso é a guerra."

"Eles vão nos encontrar, não vão?" disse Meria. "Onde quer que meu povo vá."

Jodah assentiu. Os olhos de Meria brilhavam com raiva e pesar.

"Então há apenas um caminho para nós. E ele não jaz em Yavimaya."


"Por que estou preocupada que você não vá deixá-los ir, mesmo se eu me entregar?" disse Jaya para Ertai. Ela endireitou os ombros. Ela não pretendia se entregar, mas também não tinha outro plano. Talvez, se ela chegasse perto o suficiente, pudesse convocar uma lança fundida para atravessar o coração dele ou superaquecer o ar ao redor da cabeça de Ertai algo, qualquer coisa que pudesse tirá-los dessa —

Uma brisa doce dissipou o fedor do campo de batalha. Trouxe consigo o aroma limpo de couro e óleo. O horizonte começou a brilhar — o horizonte ocidental — com o brilho do ouro. O ar adquiriu uma qualidade peculiar, sobrenatural, como se suas partículas zumbissem com uma tensão antiga.

Um navio dourado imenso mas elegante rasgou os escombros das montanhas, com pedras saltando em seu rastro. A embarcação cintilante mergulhou em um círculo ao redor do encouraçado phyrexiano. Centenas de guerreiros keldonianos saltaram do navio, pousando no dorso largo e escamoso do encouraçado, e cravaram suas lâminas e botas com travas no couro da criatura para se segurarem.

Arte de: Daniel Ljunggren
Arte de: Daniel Ljunggren

A Argos de Ouro ! Jaya pensara que ela fora perdida para a lenda. Radha mencionara que encontrara um artefato durante as negociações em Oyster Bay, mas Jaya nunca imaginara que Radha redescobrira aquele navio antigo.

A própria Radha liderava seus guerreiros sobre a cabeça de aríete do encouraçado phyrexiano. As monstruosidades phyrexianas ainda no chão pareceram perceber que o encouraçado estava vulnerável a este assalto. Em vez de se abrigarem contra as pernas do encouraçado, elas também começaram a escalá-lo para atacar os keldonianos.

"Arqueiros, cubram-nos. Cavaleiros, atrás de mim." Danitha investiu contra o encouraçado. "Por Dominária!"

Os cavaleiros rugiram e a seguiram, avançando contra os phyrexianos que buscavam defender o encouraçado. O encouraçado, sob o ataque keldoniano, soltou um gemido que sacudiu toda a paisagem.

Ajani bradou, "Arqueiros, comigo! Atirem nos phyrexianos escalando o encouraçado!"

Jaya ergueu as mãos. Sua chama brilhou com seus espíritos renovados, e ela explodiu as criaturas rastejantes que haviam girado para atacar os arqueiros. Ajani manteve-se perto dela, defendendo-a de qualquer phyrexiano que se dirigisse a ela.

Radha perfurara o olho do encouraçado, deixando um corte grande o suficiente para que ela ficasse de pé dentro da órbita. O humor aquoso espirrou, seguido pela gosma transparente mais espessa do gel vítreo. Radha golpeou a íris muscular. O encouraçado guinchou em agonia, sacudindo a cabeça para derrubá-la. Sua mandíbula inferior abriu-se. Sangue, fluido negro e matéria orgânica rosada pingavam de sua boca.

Ertai bradou, "Sheoldred saberá disso!"

"Espero que saiba!" gritou Jaya.

A criatura desmoronou, uma articulação de cada vez relaxando na morte. Os keldonianos em seu dorso soltaram um grito de alegria e então se achataram, preparando-se para suportar a queda. Os cavaleiros benalitas que lutavam sob o encouraçado dispersaram-se. Jaya e Ajani olharam para cima para a massa próxima do ventre do encouraçado, como ele ocultava o céu. Jaya saiu rastejando de baixo do encouraçado, escapando por pouco de seu estrondo final contra a terra. O som ecoou nas montanhas. Então, depois disso, o estrondo de avalanches e pedras rolando, até que isso também diminuiu até o silêncio.

Arte de: Aurore Folny
Arte de: Aurore Folny

Karn olhou para cima quando Jhoira entrou em sua oficina.

"Esconder-se aqui não é a maneira mais inteligente de me evitar," disse Jhoira.

Karn encarou-a. "Não estou me escondendo."

"Você nunca respondeu minhas cartas." Jhoira não parecia ferida — mais arrependida.

"Você desejava falar sobre Venser," disse Karn. "Eu não."

"Mas deseja agora?"

Karn inclinou a cabeça. "Foi egocentrismo de minha parte estar tão consumido pelas ramificações pessoais do sacrifício de Venser. Ele também era seu amigo."

Jhoira inclinou a cabeça. "Sim, eu também sinto muito. Eu estava de luto. Você estava se retirando porque também estava. Nada egoísta nisso."

"Apenas reações diferentes ao mesmo estímulo," refletiu Karn.

"Ah, eu senti sua falta." Jhoira riu e o abraçou. Sua coruja mecânica, perturbada, voou de seu ombro e pousou nas vigas da oficina acima.

Karn duvidava que ela tivesse obtido o conforto que buscava: seu corpo tinha um calor semelhante ao de um humano, mas ele não podia oferecer a ela a mesma suavidade da carne. Ele apreciava a proximidade dela de qualquer forma. Seus amigos eram tão pequenos e tão misteriosos. Ele conseguia adivinhar o funcionamento interno do quartzo, mas ainda assim nunca entenderia Jhoira perfeitamente.

Jhoira deu tapinhas no braço de Karn e depois o soltou. Ela tirou algumas peças de metal brilhantes do bolso, Thran pelo aspecto do traçado dourado nelas. "Estas me ajudarão a instalar um mecanismo de autodestruição na Plataforma de Mana. Ela é poderosa demais para permitir que caia em mãos phyrexianas Karn, faz muito tempo. Não deveríamos ter deixado a vida se interpor entre nós."

"Ou a desvida," disse Karn.

Jhoira riu. "Eu sempre esqueço que você tem senso de humor."

Seu comunicador para a Bons Ventos tocou em seu pescoço. Karn, embora surpreso que alguém o usasse quando não estivesse se comunicando com a Bons Ventos, agarrou-o para ativá-lo. "Estou ouvindo."

A voz de Jodah veio, clara como se ele estivesse na sala ao lado deles. "Estou indo em direção a Shiv com os elfos yavimayanos. Meria conseguiu recrutar vários grupos vizinhos. Como estamos viajando por meio de ents, levará algum tempo para chegarmos até você. Karn, há algo que você precisa saber."

"Sim?" perguntou Karn.

Jodah hesitou. "Há um espião na Nova Coalizão."

A Educação de Ulf

#align(center)[#strong[I]]

Ulf era, ele admitia relutantemente para si mesmo, um pesquisador melhor do que um mago. Sua magia prática era rudimentar, na melhor das hipóteses, e ele quase nunca inscrevia uma runa corretamente — mas talvez isso viesse com o tempo. Até que viesse, ele tentava manter a cabeça baixa em suas aulas em Tolária, não chamando muita atenção para si mesmo, tornando-se útil limpando os estábulos e assumindo as outras tarefas servis que ninguém queria fazer. Enquanto isso, ele estudava desesperadamente, esperando por um avanço.

Arte por: Adam Paquette
Arte por: Adam Paquette

Mas ele só conseguiu passar despercebido por um certo tempo. Logo um de seus docentes, um artífice anão de rosto corado chamado Thranegeld, o escolheu depois da aula.

"Você não é bom em magia, Ulf", disse ele em sua voz rouca.

"Sinto muito, senhor", disse Ulf.

"Também não é bom em artifício."

Ulf apenas assentiu.

"Em que você é bom?"

"Eu não sei, senhor."

"Por que você está aqui?"

"Eu quero ser um mago, senhor."

"Você não acha que o programa agrícola seria uma escolha melhor para você? Ouvi dizer que você tem mãos habilidosas nos estábulos."

"Eu vim para cá para ser um mago", disse Ulf obstinadamente. Seu pai fora contra, queria que Ulf ficasse e herdasse a fazenda. Sua mãe poderia ter encorajado se estivesse por perto — corria o boato de que havia magia no lado da família dela — mas ela morrera quando ele era jovem. Tinha sido uma batalha difícil o caminho todo.

Os olhos do anão se estreitaram. Ele pegou uma lâmpada estranha da mesa e a levantou, iluminando os olhos de Ulf. Ulf piscou, desviou o olhar. Quando o anão desligou a lâmpada, sua expressão suavizou.

"Eu temia que você pudesse ser um deles, mas não. Isso é bom."

"Um de quem, senhor?"

"Um agente phyrexiano", disse ele. Quando Ulf pareceu confuso, ele continuou. "Habitantes dos Infernos das Máquinas que esperam tornar nosso plano deles. Eles se passam por humanos, mas são misturas hediondas de carne e máquinas. Eles anseiam por destruir tudo o que prezamos."

"Eles estão aqui, em Lat-Nam, na academia?"

O anão assentiu. "Eles estão em todos os lugares." Ele franziu a testa. "Quanto a você, vamos começar pelo que você é bom. Pesquisa. Você consegue fazer isso, eu admito. Vamos fazer um acordo. Você pode continuar vindo às aulas, mas fará uma pequena pesquisa para mim por fora."


Parecia um pedido comum o suficiente. Ulf ouvira os outros alunos conversando: mais de um recebera alguma tarefa extra de um dos docentes. A aula de Thranegeld era sobre o mundo antigo, sobre o que o mundo fora antes da Era das Fendas. Cada aluno recebera um projeto para pesquisar. O que significava que Ulf tinha seu tópico regular atribuído, sobre a explosão do sylex, sobre o qual teria que relatar na aula. Mas agora ele também tinha outro projeto especial.

"Corondor", rosnou Thranegeld. "Vejamos quão bom pesquisador você é, garoto. Descubra o que puder. Não o de sempre, veja bem: túneis laterais." E quando Ulf se virou para sair: "Não há necessidade de discutir isso com seus colegas de classe."

Ao pesquisar a explosão do sylex, ele se viu na mesma seção da biblioteca que os outros alunos, debruçado sobre a coleção de livros bem manuseados que os alunos vinham usando para escrever as mesmas tarefas há anos. Isso rapidamente lhe deu o suficiente para seu relatório — embora ele também tenha rastreado um ou dois livros mais distantes que davam um pouco mais: detalhes que ele imaginava não terem aparecido em trabalhos de alunos antes. Pesquisar Corondor era mais difícil. Na seção onde encontrara as primeiras informações sobre a explosão do sylex, havia muito pouco, apenas detalhes sem graça, as histórias de consenso que toda criança conhecia. Mesmo quando estendeu sua busca, não havia muito. Em uma prateleira inferior onde os textos relevantes deveriam estar guardados, havia apenas uma lacuna vazia: os livros estavam faltando, e não havia registro claro de quem os tinha. Extraviados, talvez? Ou havia algo mais nisso?

Ou talvez fosse algum tipo de teste. Talvez o próprio Thranegeld tivesse escondido os livros, estivesse esperando para ver o que Ulf faria.

Pelas semanas seguintes, Ulf passou cada momento livre na biblioteca. Ele ia de prateleira em prateleira, examinando os títulos, recolocando livros que estavam fora do lugar. No início, não havia sinal dos volumes perdidos. Mais tarde, ele se perguntou se eles algum dia existiram. Eventualmente, ele se viu longe das estantes principais, em câmaras laterais que cheiravam a escuro e mofo, onde pergaminhos e tomos estavam empilhados em vez de prateleiras. Mas nenhum deles tocava em Corondor de forma mais do que superficial.

E então, em um canto esquecido de uma dessas câmaras laterais, ele viu onde uma pilha havia tombado e derramado alguns livros contra a parede. Entre eles estava um volume velho e mofado, com a capa arrancada. Ele o pegou e limpou a sujeira, viu círculos redondos de mofo no que restava da página de título, obscurecendo-a de tal forma que era impossível decifrar. São realmente círculos de mofo? ele se perguntou, traçando-os com as pontas dos dedos. Poderiam ser runas gastas ou quebradas? Ele abriu o livro e viu que estava escrito em uma caligrafia rebuscada e em vodaliano antigo. Ele não conseguia entender algumas das palavras — eram desconhecidas e arcanas. A linguagem era tão evasiva e obscura que ele não tinha certeza se a estava interpretando corretamente, mas parecia se referir a uma figura mítica — Sol'kanar, o Rei Demônio de Corondor. Sol'kanar fora uma vez um mago-maro, um guardião da floresta, até ser amaldiçoado pela Planeswalker Geyadrone Dihada. Como servo demoníaco de Dihada, Sol'kanar empunhara a lendária Lâmina Negra contra o próprio Dakkon, bem como contra Carth, o Leão, o fundador da Casa Carthalion. O livro detalhava a maldição e uma variedade de maneiras pelas quais a maldição poderia ser levantada, uma das quais era através da morte de Dihada. Ele sorriu. A Casa Carthalion era a governante legítima de Corondor, mas o reino fora usurpado por Sol'kanar há algum tempo. Os detalhes de sua verdadeira história — e até mesmo como quebrar sua maldição — seriam muito valiosos para qualquer um que buscasse libertar Corondor. Este achado impressionaria Thranegeld. Ele teria que admitir que Ulf realmente descobrira algo. Tudo o que ele precisava fazer era organizar o que realmente encontrara, escrever sua pesquisa e então Thranegeld reconheceria que ele pertencia àquele lugar.

Seu sorriso vacilou. E se tudo isso fosse bobagem? Certamente, se fosse realmente um tomo importante, teria sido preservado com mais cuidado. E se este livro fosse apenas um conto de fadas? Ou uma fantasia?

Antes de ver Thranegeld, ele precisaria de uma segunda opinião.


Ulf bateu à porta dos aposentos de Silas Brotten. Brotten apenas ensinava os alunos avançados. Ele era um autor estimado, um especialista em vodaliano antigo, bem como no período em que o livro fora escrito. Por um longo momento, não houve resposta. Ulf estava levantando a mão para bater novamente quando ouviu Brotten limpar a garganta e dizer suavemente: "Sim?"

Ulf abriu a porta e entrou. Brotten estava sentado em uma poltrona estofada, um pergaminho antigo aberto em seu colo, um cachimbo repousando em um prato de estanho na mesa ao lado. Por um momento, ele pareceu confuso, e então seu rosto se iluminou. "Ah, o garoto do estábulo. Não são más notícias sobre o meu corcel, espero?"

Ulf corou. "Não, senhor", disse ele. "Eu tenho uma pergunta."

Brotten enrolou o pergaminho e o deixou de lado. "Eu não tinha percebido que você também era um estudante", disse ele. "Programa agrícola?"

"Não, senhor", disse ele. "Estou estudando magia."

Brotten arqueou uma sobrancelha. "Eu suponho que posso lhe dispensar alguns minutos." Ele gesticulou para uma cadeira. "Por favor, sente-se."

"Eu encontrei algo", disse Ulf, e estendeu o livro para ele.

Brotten pegou o livro preguiçosamente, folheou-o, lendo algumas palavras. De repente, sua atenção mudou. Ele se endireitou, voltou as páginas, começou a ler do início. Ele olhou para Ulf. "Onde você encontrou isto?" ele perguntou.

Quando ele admitiu que o encontrara na biblioteca, o olhar de Brotten se aguçou. "O que você estava procurando que o levou a encontrar isto?"

"Estou em um projeto para o meu docente", disse Ulf.

"Qual docente seria?"

"Thranegeld, senhor."

"Ah, o artífice anão. Seu relatório do primeiro ano."

"Não exatamente", disse Ulf, mas hesitou em continuar.

"Tudo bem", disse Brotten, suavemente. "Você pode me contar. Afinal, eu sou um docente."

"Um projeto especial, senhor", admitiu Ulf. "Ele me enviou para pesquisar Corondor."

Brotten assentiu. "Bem, isto é um grande achado", disse ele. "Na verdade, talvez fosse melhor se você o deixasse aqui comigo."

Ulf hesitou, depois balançou a cabeça. "Eu acho que não posso, senhor."

"Não?"

"Eu devo mostrá-lo ao meu docente primeiro."

Por um momento, Brotten segurou o livro, olhando para as próprias mãos, e então o devolveu. "Como desejar", disse ele. Ele se virou, parecendo entediado, desinteressado. "Vou deixar que você encontre a saída sozinho."


As mãos de Thranegeld tremiam enquanto ele segurava o livro. "Você sabe há quanto tempo isto está perdido? Onde diabos você o encontrou?" Ele observou Ulf de perto. "Estou começando a achar que há mais em você do que os olhos podem ver."

"O que o senhor vai fazer com ele?"

"Eu? Nada. Não seria sensato eu ficar com ele, já que não fui eu quem o encontrou. Regras da mina: você o desenterra, você o guarda. Não, não apenas guardá-lo: esconda-o em algum lugar seguro."

"Onde?"

Thranegeld balançou a cabeça. "Você decide, mas não me conte. Não conte a ninguém, ouviu? E não diga a ninguém que você o tem."

Confuso, Ulf concordou. Ele pegou o livro e se virou para sair, depois se virou de volta. "Senhor, não é exatamente esse tipo de conhecimento que deveríamos compartilhar?"

"Bem, sim", disse Thranegeld. "Em princípio, pelo menos." Ele deu um tapinha no braço de Ulf. "Nós o compartilharemos", disse ele. "Vou escrever para um amigo para colocar as coisas em movimento. Quando o momento estiver maduro e quando tivermos certeza de quem são nossos amigos, nós o compartilharemos."


#align(center)[#strong[II]]

Nos estábulos, na parede onde guardava as pás e ancinhos que usava para limpar as baias, havia um pequeno nicho embutido. Ele embrulhou o livro em um oleado e o prendeu ali, sob dois punhados de palha.

Ele continuou a agir normalmente, retornando à biblioteca. Procurou por mais livros sobre Corondor, mas sem sucesso real. Alguns dias depois, voltando à noite de mais uma expedição inútil, encontrou a porta de seu quarto entreaberta. Olhando mais de perto, viu que o batente da porta estava rachado, a fechadura forçada.

Ele parou e ouviu, mas não ouviu som algum vindo de dentro. Estranho: a esta hora da noite, todos os seus três colegas de quarto costumavam estar lá.

Cautelosamente, ele empurrou a porta mais um pouco. Primeiro viu páginas espalhadas por todo o chão, depois roupas de cama espalhadas e rasgadas também. O armário estava aberto, seu conteúdo derramado. Algum de seus colegas de classe praticara um feitiço que dera errado?

"Olá?" ele começou a dizer, mas assim que abriu mais a porta, silenciou-se.

A extremidade oposta do quarto estava salpicada de sangue. O que ele viu a seguir o fez sentir como se seu próprio coração tivesse parado de bater. Um de seus colegas de quarto estava caído ali, cortes nos braços, garganta cortada. Outro estava virado para a parede, em uma poça de seu próprio sangue. O terceiro, ele não viu até entrar um pouco mais, mas era o pior de todos. Ele fora desmembrado, os pedaços dele empilhados em uma pilha cuidadosa perto da parede.

Ele fugiu.


O livro ainda estava lá, ainda seguro. Mas por quanto tempo seria assim? Não, quer Thranegeld quisesse aceitá-lo ou não, ele tinha que entregá-lo a ele. Ele lhe contaria o que acontecera. Juntos, eles descobririam o que fazer.

Ele voltou dos estábulos com o livro embrulhado no oleado apertado contra o peito. Manteve a cabeça baixa, tentando parecer discreto. Alunos suficientes ainda estavam do lado de fora, rindo e conversando, de modo que ele provavelmente não parecia muito fora de lugar. Ainda assim, sentia como se houvesse um alvo em suas costas.

Assim que entrou, foi direto para os aposentos do Docente Thranegeld. Entrou apressado, sem bater. Thranegeld estava em sua mesa, mas com a cadeira virada de costas, de frente para a janela. "Senhor", disse ele, "senhor! Eles estão mortos, todos eles! O livro não está seguro, temos que "

Sua voz sumiu. Thranegeld não se virara ao som de suas palavras. Ele nem sequer se movera.

"Senhor?" disse ele.

A garganta de Ulf parecia apertada. Ele avançou lentamente e contornou a mesa. Deu mais um passo, e depois outro, até estar diretamente atrás de seu professor, e então estendeu a mão e sacudiu seu ombro.

Por um instante nada aconteceu, e então o anão inclinou-se e escorregou da cadeira para o chão. Quando o virou de rosto para cima, Ulf viu que seu rosto estava branco como osso, gravado de terror. O que quer que tivesse acontecido com ele, não fora uma morte fácil.


Para onde posso ir? ele se perguntou. E então disse a si mesmo, Apenas continue se movendo enquanto pensa. Em quem ele poderia confiar? Ele tinha que falar com alguém, tinha que descobrir o que fazer rapidamente. Se não o fizesse, logo estaria morto também.

Ele se dirigiu a um banheiro e se trancou. Ficou ali respirando fundo tentando se acalmar. Eventualmente suas mãos pararam de tremer. Ele enfiou o livro no bolso de sua túnica, onde ficaria fora de vista.

Ele poderia pegar o livro e fugir, mas para onde iria? Para quem poderia levá-lo? Outra academia? Ou deveria ficar aqui e entregá-lo ao arquimago? E se ele fosse aos aposentos do arquimago e o encontrasse morto também?

Não, melhor apenas sair enquanto ainda podia.

Por outro lado, se ele saísse, não seria culpado pelos assassinatos?

Ele não sabia o que fazer, não sabia de jeito nenhum. Precisava de alguém com quem conversar, de outra pessoa para ajudá-lo a resolver isso.


"O que foi, meu erudito rústico?" perguntou Brotten, e então olhou mais de perto para Ulf. Seu rosto se contraiu de preocupação. "O que há de errado? Você parece que viu um fantasma."

"Ele está morto", disse Ulf. "Todos estão."

"Quem está morto? Vá devagar, garoto do estábulo. Pare de falar bobagens."

Ulf explicou aos trancos e barrancos o que acontecera. Lentamente Brotten conseguiu juntar as peças.

"Eu não sei o que fazer", concluuiu Ulf.

Brotten assentiu. Ele caminhou pelo seu escritório, pensando. "Meu melhor conselho", ele finalmente disse lentamente, "seria livrar-se do livro. É obviamente isso o que eles estão procurando."

"Mas por quê? Por que eles o querem? E quem são eles ?"

"Esperemos que você nunca precise saber as respostas para essas perguntas", disse Brotten. "Você é jovem e sem treinamento, e dificilmente está em posição de proteger o livro." E então, como se tivesse acabado de pensar nisso, "Seria mais seguro, talvez, se você deixasse o livro comigo."

Quase por reflexo Ulf começou a levar a mão ao bolso de sua túnica. Ele estava tão acostumado a ouvir seus docentes, a obedecê-los, que era difícil não o fazer. Mas no meio do caminho, sua mão parou. Ele hesitou.

"Você está com o livro?" instigou Brotten, "ou terá que me levar até ele?" E por apenas um instante Ulf viu um desejo nítido no rosto de Brotten.

"I", disse Ulf, "Eu preciso " e começou a recuar lentamente em direção à porta.

Antes que ele a alcançasse, uma transformação começou. O rosto de Brotten perdeu toda a expressão, uma linha sangrenta subitamente traçando seu caminho do centro da testa até o queixo. Com um som úmido seu rosto se partiu e escorregou para cada lado sobre seus ombros como um manto, revelando um feixe de cabos no lugar de um pescoço e um crânio de metal gravado com ácido. Seus olhos eram verdes, possuidores de uma luz sobrenatural. Um phyrexiano , Ulf percebeu com horror. Ele fora exatamente à pessoa errada. Ele caminhara direto para as mandíbulas do mal.

Brotten ficou parado ali, uma mistura de sangue e óleo preto gotejando em seu crânio. Ele quase casualmente arrancou a carne solta que fora seu rosto e deixou-a cair no chão. Sua voz, quando falou, era diferente agora, cruel, mecânica, cada gota de calor humano esvaída dela.

"Dê-me o livro", ele rosnou. "Agora!"

Ulf saltou para trás. Ele conseguiu, ao sair, bater a porta atrás de si, com o trinco prendendo bem no momento em que Brotten saltou para a frente. Ouviu o uivo de irritação do homem enquanto ele batia contra a porta fechada.

Ulf correu como um rato pelo corredor. Um momento depois, a porta explodiu enquanto Brotten irrompia por ela sem se dar ao trabalho de abri-la.

"Desista agora, garoto!" ele gritou atrás de Ulf. "Se o fizer, talvez eu o deixe viver!"

Ulf disparou pelo corredor, ziguezagueando entre um par de estudantes assustados. Um momento depois, ouviu-os arquejar de horror. Ele se virou e viu um deles tentar lançar um raio de energia na criatura que fora Brotten. O raio o atingiu no peito, deixando um buraco escancarado na carne que revelava uma rede de fios semelhantes a antenas contorcendo-se por baixo. Um deles chicoteou em um flash e penetrou profundamente no olho do estudante e saindo pela parte de trás de seu crânio. A outra estudante, gritando, tentou correr, mas Brotten rapidamente a alcançou, lâminas surgindo subitamente de seus dedos.

E então Ulf dobrou o corredor novamente. De longe, ouviu o grito agudo da estudante e então, abruptamente, ele cessou. Ele atravessou uma sala de aula e saiu pela porta dos fundos, então subiu as escadas rapidamente, dois degraus de cada vez. No topo, prendeu a respiração e esperou, mas quase imediatamente ouviu passos pesados. Brotten devia estar rastreando-o de alguma forma — ou talvez Ulf simplesmente não tivesse sido tão astuto quanto acreditava. Ele correu pelo corredor em direção a uma estudante distraída, uma veterana do segundo ano que ele conhecia vagamente.

"Corra!" gritou Ulf, mas a estudante apenas ficou ali, paralisada. Ela vai ser morta , pensou Ulf, mas enquanto passava correndo por ela, percebeu que a estudante estava chorando lágrimas pretas. Óleo.

A estudante atirou-se contra ele. Ulf esquivou-se desesperadamente e continuou correndo.

"Socorro!" gritou ele. "Socorro!" A estudante com as lágrimas oleosas estava ganhando terreno, e Brotten estava logo atrás. Ulf sentiu a mão da estudante agarrar sua túnica, e ele se virou o suficiente para desferir um golpe. Ela tropeçou e caiu. Ulf esquivou-se para a esquerda e depois para a direita, deu uma pequena arrancada e então virou à direita novamente apenas para perceber que o corredor terminava em um beco sem saída.

Ele tentou voltar, mas era tarde demais. Ela estava bloqueando seu caminho. Um momento depois, Brotten chegou também.

"Cavalariço", disse Brotten enquanto Ulf recuava lentamente. Havia uma saída? Sua mente corria enquanto ele tentava descobrir o que poderia fazer.

"Vou te dar uma escolha", disse Brotten. "Sou um homem bondoso, mesmo que, tecnicamente, eu seja mais do que um homem." Ele deu um passo à frente. "Ou você entrega o livro e morre de uma morte limpa e simples, ou recusa e é despedaçado dolorosamente." Ele deu outro passo. "De qualquer forma, você morre. Mas a segunda morte, eu garanto, será decididamente mais dolorosa."

"Dê mais um passo e eu destruo o livro", disse Ulf.

Brotten sorriu, embora em seu rosto de metal o sorriso parecesse um rictus de dor. "Talvez seja precisamente isso que pretendemos fazer com ele nós mesmos." Brotten deu outro passo. "Dê-me o livro."

"Não", disse Ulf. Ele fechou os olhos e esperou pelo fim.

Mas o fim não veio. Em vez disso, com um estrondo, a parede ao lado dele explodiu. Poeira e fumaça encheram o ar, e através dela apareceu uma criatura colossal, humanoide mas não humana. Ele tinha a pele e as escamas de um lagarto e a aparência de um dinossauro. Um viashino. "Corra!" ele disse a Ulf. "Encontre-o! Eu os segurarei o máximo que puder."

"Encontrar quem?" perguntou Ulf.

Mas o viashino já havia se virado. Encarando Brotten, ele sibilou e saltou para frente. A estudante se colocou entre ele e Brotten, e com um urro, o viashino a afastou com um golpe.

Arte de: Joshua Raphael
Arte de: Joshua Raphael

"Não!" gritou Brotten para a estudante. "Fique com o livro! Não perca o tolo!"

Ferida, vazando óleo de um lado agora, a estudante lutou para se levantar. "Corra!" o viashino gritou novamente, e desta vez Ulf obedeceu.


Era melhor, ele decidiu, se esconder, e se esconder no lugar que conhecia melhor: a biblioteca. Ele percorreu seu caminho entre as estantes, passando por um bibliotecário assustado, e correu para a seção mais antiga e mal iluminada. Ele diminuiu o passo, começou a andar silenciosamente. Poderia se esconder na sala lateral onde encontrara o livro? Arriscado demais: ele poderia ter mencionado isso a Brotten. Em outro lugar, então.

E então ele se lembrou da prateleira inferior que havia sido esvaziada de livros sobre Corondor. Ele caminhou rapidamente para lá. Havia espaço suficiente para se espremer? Sim, se ele empurrasse alguns livros para baixo, movesse outros para outro lugar. Ele era pequeno: havia espaço justo para ele rastejar para dentro. Ele ficaria invisível para qualquer um que não estivesse de mãos e joelhos no chão. Talvez isso fosse o suficiente.

Ele ficou ali esperando, tentando respirar suavemente. Como ele saberia quando seria seguro sair? Certamente a essa altura outros já haviam notado a confusão e estavam se apressando para defender a escola dos Phyrexianos.

A menos que , pensou Ulf, todos eles sejam Phyrexianos .

Não, ele não podia pensar assim. Isso era paranoia. Ele tinha que confiar que ainda havia alguém humano lá fora.

Ele ouviu um ruído nas estantes, a um ou dois corredores de distância. Ele ficou em silêncio. Ele estava visível de alguma forma? Não, ele estava bem. Ninguém passando veria ele. Ele estaria seguro.

Os passos recuaram por um momento e depois retornaram, crescendo lentamente. Eles estavam em seu corredor agora. Ele segurou a respiração. O barulho crescia cada vez mais e então ele viu um par de pernas passar a alguns centímetros de seu rosto e continuar.

Ele exalou silenciosamente, relaxou.

E então ele ouviu os passos pararem.

Um momento depois, o rosto manchado de óleo da estudante estava bem ali, encarando-o. Entrelaçados em seu cabelo agora estavam os fios de cabos que haviam forçado seu caminho para fora de sua pele.

"Dê-me o livro", a garota sibilou.

A garota começou a esticar o braço e então, subitamente, empinou-se para trás, seu rosto desaparecendo. Outro par de pernas estava ali. A estudante deu um grito. Sua cabeça caiu no chão e quicou, não mais presa ao corpo. Alguns segundos depois, seu corpo a seguiu, colapsando em uma massa de carne e fios.

Ulf ficou boquiaberto.

Rapidamente ele saiu rastejando. Parado sobre o corpo da estudante estava um homem grisalho. Ele tinha longos cabelos castanhos com mechas cinzas, seus pulsos envoltos em punhos de couro. Ele era forte, até mesmo colossal, e carregava em uma mão uma espada feita para duas. Uma energia rodopiante e ígnea envolvia a lâmina, da qual pingava o óleo outrora escondido dentro da carne da estudante. Ele sibilava no metal estranho. O homem virou-se para ele, e Ulf viu em sua bochecha direita, logo abaixo do olho, a Marca do Druida Ancião — aquela rara marca de distinção que Ulf pensou que nunca veria. Ele lera sobre ela ao pesquisar Corondor, sabia que era dada apenas a alguns poucos escolhidos. Mas a única pessoa que ele conhecia com tal marca, que se parecia com isso e que carregava uma espada como essa, não era vista há muitos anos Não podia ser

"Obrigado", Ulf conseguiu dizer.

Havia um lampejo de tristeza na expressão do homem. "Ela era uma inocente. Provavelmente nem sabia o que haviam implantado nela."

"Quem é você?" perguntou Ulf.

"O quê?" disse o homem. E então ele saiu de seu devaneio e tornou-se ríspido e pronto para a ação. "Sou seu salvador", disse ele. Ele limpou sua espada nas túnicas da garota morta e a embainhou. E então ele agarrou Ulf rudemente.

"Ei, o que você está fazendo?" disse Ulf.

"Cale a boca e fique parado", disse o homem. Rapidamente, ele passou as mãos pelo cabelo de Ulf, apalpando seus ombros, seus flancos, seus braços, suas pernas. Quando ele soltou, estava segurando o que parecia ser um pequeno carrapicho metálico em sua mão.

"Eu imaginei", disse o homem. Ele deixou o carrapicho cair no chão e o esmagou. "Rastreador. Eles terão dificuldade em encontrar você agora." Agarrando Ulf pelo braço, ele o impulsionou para frente.

"Mova-se", disse ele. "Precisamos sair daqui antes que seja tarde demais."


O homem o conduziu lentamente pelas estantes. "Você está com ele, certo?" ele sussurrou.

"Com o quê?"

"O livro. Por que você acha que estamos aqui?"

Era inteligente admitir que o tinha? Não deveria ser cauteloso? "Eu sei onde ele está. Você o quer?"

"Querê-lo? Não, fique com ele. Preciso ter minhas mãos livres", disse ele, e sacou sua espada. Ela parecia terrivelmente afiada. Um estudante perto do balcão de referência deu um ganido e saiu correndo. "Além disso", disse o homem. "Eles visarão quem quer que esteja com o livro. Então, que tal deixarmos você segurando ele?"

"Hum, obrigado?" disse Ulf.

Ninguém estava no balcão de referência. Aproximando-se da porta da biblioteca, o homem fez sinal para Ulf ficar para trás. Ele deitou-se de bruços e espiou sob a fresta.

"Cinco pares de pés", ele sussurrou quando se levantou. "Esperando por nós."

"O que fazemos?" perguntou Ulf.

"O que você acha?" disse o homem. "Nós os matamos."

"Eu não sei como matar ninguém", sussurrou Ulf.

O homem o olhou de cima a baixo. "É claro que não sabe", disse ele. "Não se preocupe: você aprenderá."


#align(center)[#strong[III]]

Os agentes adormecidos Phyrexianos esperavam, cabos e peças metálicas brotando de seus corpos. Um deles, um estudante elfo, perguntou àquela que fora sua preceptora: "Você tem certeza de que ele está lá dentro?"

"Foi lá que ele estava quando o rastreador parou de funcionar", disse ela.

"Precisamos mesmo esperar por Silas?" disse outro.

Mas ninguém se moveu.

"Existe outra saída da biblioteca?" perguntou o elfo.

"Não", disse a ex-preceptora. "Tenho certeza disso. Eles estão encurralados."

Foi quando a parede ao lado deles explodiu. Chamas estavam por toda parte, o corredor inteiro se incendiou, e três dos cinco foram derrubados. Os outros dois correram para o buraco, armas em punho. Um momento depois eles recuaram, mortos, esfaqueados, e ficaram fumegando.

Gemendo, os três restantes se levantaram.

"Eu não acho que deveríamos olhar no buraco", disse o elfo.

"Vamos esperar", concordou a preceptora.

"Sim, vamos", disse uma voz profunda atrás deles. Eles se viraram bruscamente para encontrar um homem, sua lâmina pulsando com chamas, atrás deles. Eles tatearam em busca de suas armas, mas o feitiço do homem já havia sido lançado, e o corredor inteiro se incendiou. Por um momento, eles se debateram em chamas, gritando, e então ficaram imóveis.

"Vamos!" gritou o homem. Ele seguiu pelo outro corredor. O fogo atrás deles, Ulf viu, estava fora de controle, começando a se espalhar.

"Não deveríamos tentar apagá-lo?" Ulf perguntou.

O homem balançou a cabeça. "Precisamos de uma boa distração."

Eles se apressaram pelos corredores, esquivando-se para dentro de salas de aula a qualquer sinal de alguém se aproximando. Uma vez, através de uma porta entreaberta, Ulf viu uma criatura que nunca poderia ter sido humana, seu corpo estranhamente lacunado e rearranjado. Era tão alta que sua cabeça raspava o teto. Aquilo deu náuseas em Ulf. O homem esperou até que passasse, então sacudiu a maçaneta da porta pelo lado de dentro. No corredor do lado de fora, eles ouviram a criatura parar, rosnar. Quando ela retornou para abrir a porta, o homem decepou seu braço, então enterrou a lâmina profundamente em seu núcleo e girou. Ela desabou em uma chuva de faíscas e fumaça.

Eles passaram por um trecho de corredor quebrado e chamuscado, os restos de uma batalha. Ali, em meio a tudo, jazia o viashino que salvara Ulf. Ele estava morto, seu ventre aberto. O homem parou solenemente sobre ele. "Você lutou com honra, velho amigo", murmurou ele, "Prometo que não será em vão."


O salão de entrada estava à vista finalmente. Estamos quase seguros , pensou Ulf. Ele começou a caminhar em direção a ele, mas o homem agarrou seu braço, parando-o.

"Não", rosnou ele, "Fácil demais. Algo está errado."

Em vez disso, ele abriu a porta de uma sala de aula próxima e entrou. Retornou um momento depois carregando uma mesa. Com uma mão só, ele a arremessou no espaço perto da saída.

Assim que tocou o chão, ela foi fatiada por uma dúzia de lâminas, reduzida a estilhaços. Algumas lâminas perdidas ricochetearam nas paredes e vieram em direção a eles. Enquanto Ulf se encolhia, o homem as afastou facilmente com sua espada.

"Eu te avisei", disse ele.

"Então como saímos?" perguntou Ulf, levantando-se novamente.

O homem deu de ombros. "A runa foi descarregada. Está tudo bem agora." Ele olhou para Ulf. "Você não consegue sentir?" Quando Ulf balançou a cabeça, o homem estreitou os olhos. "Você realmente não tem muita habilidade mágica, não é? Tem certeza de que pertence a um programa de magia em uma academia Tolariana?"

"Eu eu sou um bom pesquisador." Ele observou a mão do homem pousar no pomo de sua espada.

"Se você for um daqueles malditos agentes adormecidos, eu pessoalmente me certificarei de que você seja cortado em mais pedaços do que aquela mesa foi. Diga-me a verdade. Por que você está realmente aqui?"

"Acho que queriam alguém para limpar as estrebarias."

O homem relaxou. "Faz sentido. A última coisa que a maioria dos magos quer é sujar as mãos."


Eles seguiram pela porta até o vestíbulo, apenas para encontrar alguém à espera deles.

"Silas Brotten", disse o homem. "Não posso dizer que estou surpreso. Leve o livro, mas deixe o garoto ir."

"Jared Carthalion", disse Brotten, e com um choque, Ulf percebeu que estivera certo. "Pode ser? Não me importo com o livro ou o garoto agora que você está aqui. Você sempre foi o prêmio, Carthalion. E agora não preciso de ajuda para encontrá-lo."

Jared lançou a Ulf um olhar rápido, e Ulf viu algo diferente nele desta vez, uma certa curiosidade. "Você não pode ter o garoto e não pode me ter", disse Jared. E ele sacou sua espada.

Arte de: Manuel Castañón
Arte de: Manuel Castañón

Ulf viu a espada de Jared brilhar, viu também os ombros de Brotten se eriçarem enquanto uma armadura interna repentina irrompia para a superfície. Brotten tocou o peito, e uma longa fatia de metal curva e farpada subitamente saltou para fora. Ele fechou a mão sobre ela e a arrancou. Ela continuou a se desdobrar e articular para se tornar uma espada farpada e ornamentada.

Eles lutaram de um lado para o outro, Jared o lutador superior, mas Brotten conseguindo se manter firme e, por causa de seus componentes de máquina, não se cansando. Eles circulavam um ao outro cautelosamente, e então se aproximaram, Carthalion soltando um grito de guerra feroz enquanto avançava, empurrando Brotten de volta contra a parede. Ele quase o tinha ali, estava forçando sua vantagem, quando Ulf viu algo estranho: a coxa de Brotten começara a se abrir.

"A perna dele!" gritou Ulf, e Jared teve presença de espírito suficiente para saltar para trás no momento em que uma lâmina de metal circular girou para fora da perna, viajando em velocidade imensa. Ela cortou a borda da coxa de Jared: se ele não tivesse saltado para trás, teria sido cortado ao meio. Jared pressionou a mão sobre o ferimento para estancar o sangue, e de repente Brotten estava pressionando sua vantagem, forçando-o a recuar.

Ulf continuava esperando ver Jared cair, mas o homem lutava. Seria mais sábio, ele sabia, fugir, mas ele ajudara a salvar Jared uma vez. Se ele partisse, quem o salvaria da próxima vez?

Outra série de ataques e contra-ataques deixou claro que, mesmo com sangue escorrendo por sua coxa, Jared ainda era o mais habilidoso. Brotten amaldiçoou e desceu sua lâmina com força, um ataque que Jared bloqueou subindo a sua com a mesma intensidade. A lâmina de Brotten se estilhaçou, e Jared impulsionou sua espada além da guarda da lâmina quebrada e para dentro do peito de Brotten.

Tropeçando, tossindo óleo, Brotten desabou de bruços.

Ainda respirando pesadamente, Jared o virou com a bota e inclinou-se sobre ele.

"Por que Sheoldred enviou você aqui?" Jared disse.

Brotten apenas soltou uma risada borbulhante.

"Quem são os outros agentes na escola? Quem mais já foi completado?"

"Por que eu te diria isso?" murmurou Brotten.

"Isso vai até o arcomago? Ele próprio está corrompido?"

"Ele é tão humano quanto você, Carthalion. Há muitos motivos para escolher o lado vencedor."

Brotten esticou a mão para Jared, mas Jared afastou sua mão com indiferença. "Dihada sabe disso também", disse Brotten. "Ela está esperando por você, Jared. Volte para ela."

E então ele sorriu, mostrando dentes artificiais encharcados de óleo, e morreu.


Finalmente, Ulf se aproximou, encarando os restos do ser que tentara destruí-lo. Ele parecia agora pouco mais do que uma máquina quebrada. Jared rasgara uma tira da roupa de Brotten e a usava para enfaixar a coxa. O sangue já começara a atravessar o tecido.

"Para onde vamos?" Ulf perguntou.

"Nós não vamos a lugar nenhum", disse Jared. Ele parecia cansado. "Você levará o livro para um lugar seguro. Leve-o para Corondor. Ainda existem pessoas boas lá. Eu o encontrarei lá." Ele gesticulou para trás. "Meu trabalho está lá dentro. Preciso salvar aqueles que ainda são humanos e matar aqueles que não são." Ele olhou para Ulf. "Fique longe das estradas principais e não mostre este livro a ninguém."

Por um momento, eles ficaram parados encarando um ao outro, e então Ulf assentiu. "Obrigado", disse ele. Jared respondeu com um simples aceno de cabeça. Então ele se virou e mancou de volta para a academia agora em ruínas.

Ulf respirou fundo. E então ele passou pelos portões e saiu para o mundo.


#align(center)[#strong[IV]]

Nas profundezas da academia Lat-Nam, atrás das portas trancadas de seus aposentos, o arcomago deu um sorriso malicioso. Ele estremeceu todo e, lentamente, começou a mudar, seu corpo robusto tornando-se mais magro, alongando-se, rearranjando-se, até se tornar o corpo de uma mulher de pele cinzenta. Ou, pelo menos, o corpo de uma mulher na parte de cima. Abaixo, tentáculos se enroscavam e se contorciam, rastejando pelo chão.

"Sim", disse ela. "Que sorte você ter encontrado o livro, Jared. Assim que você tiver bancado o herói aqui mais uma vez, Corondor estará esperando por você."

Arte de: Nestor Ossandon Leal
Arte de: Nestor Ossandon Leal

Morte e Salvação

Eventualmente, todos os seres mortais devem enfrentar seu fim. Para os humanos, a morte é uma nuvem sombria no horizonte. Para os elfos, a morte é um compromisso longo e distante. Para os goblins, a morte é apenas o custo de entrada. Múltiplas sociedades desenvolveram independentemente expressões para esse efeito. Cidadãos da antiga Benália costumavam dizer que algo chegava "como a morte para um goblin" como uma forma de descrever uma consequência súbita e inevitável de escolhas ruins. Comédias anãs frequentemente marcavam o fim do segundo ato com a morte súbita de um personagem goblin coadjuvante.

Em contraste, há uma única expressão goblin que se refere à morte. Dita após uma perda, suas muitas interpretações se traduzem grosseiramente como: "Eu não. Hoje não."

Não era que os goblins quisessem morrer; era apenas que todas as coisas que eles queriam envolviam uma chance muito maior do que o normal de morte acidental. Goblins não amavam nada mais do que explosões, chamas abertas e quedas íngremes. Um goblin que vive sem risco é visto como alguém que mal viveu. Dado o seu estilo de vida, a população de goblins de Dominária persistia em uma onda de pura sorte. E nenhum goblin fora mais sortudo que Squee.

Agraciado com a imortalidade durante seu tempo como taifeiro a bordo da nau voadora Bons Ventos, Squee ajudou alguns dos maiores heróis de Dominária a repelir as forças invasoras phyrexianas há quase quatrocentos anos. Ele passou o tempo desde então tornando-se simultaneamente o mais velho e o mais frequentemente morto goblin na história de Dominária. A cada dia que respirava, ele desafiava as expectativas dos outros, e então fazia sentido para ele que agora se encontrasse como um rei.

Há um século, durante suas viagens, Squee encontrou um clã goblin quase debandado vivendo em um profundo sistema de cavernas. Eles haviam passado por tempos difíceis, encontrando-se deslocados de seu lar e sob o domínio de um vil senhor da guerra. Squee odiava ver seus companheiros goblins forçados a viver sob uma criatura tão cruel, então ele desafiou o tirano. Ele usou um truque de velho guerreiro que aprendera algumas décadas antes durante um breve período como lutador de arena em Otária: deixar-se ser repetidamente morto até que seu oponente desmaiasse de exaustão. O estresse de golpear o mesmo goblin com um martelo por duas horas fez o coração do senhor da guerra falhar, e Squee foi declarado o novo rei. Os anos desde então foram, para os padrões goblins, um tempo de imensurável paz e progresso.

O trono de Squee ficava na plataforma mais alta da montanha, com vista para a agitação abaixo. Ele estava sentado com uma velha recordação em sua mão esquerda: uma esfera de formato estranho com intrincados padrões vermelhos pintados em sua superfície de marfim imaculada. Era sua única recordação de seu tempo na Bons Ventos. Ele fizera grandes esforços (e muitas mortes) para recuperá-la, e às vezes podia jurar que ela ainda parecia quente. Ele precisava de sua sorte hoje mais do que nunca.

Arte de: Zoltan Boros
Arte de: Zoltan Boros

Pela primeira vez em mais de uma década, o clã passara quase uma semana inteira sem que ninguém morresse, incluindo ele mesmo. Ele prometera ao seu povo que, quando o marco fosse alcançado, haveria um banquete e celebração. Uma semana sem morte em um formigueiro goblin era motivo suficiente para comemorar, mas uma semana sem morte para Squee era particularmente raro. Do momento em que sua imortalidade se estabeleceu, a morte se tornou uma parte quase diária da vida de Squee.

Ele ouviu uma confusão repentina atrás dele. Bulp chegou ao topo das escadas e parou um momento para se desculpar. Ele era o protegido de Squee desde a infância, um pouco desajustado. O problema de Bulp era que ele fora construído com o porte físico de um guerreiro, mas com a mente curiosa de um estudioso. Squee o vira uma vez sendo provocado e, vendo um pouco de si mesmo no jovem goblin, decidiu acolhê-lo. Bulp era inteligente e, com a orientação certa, poderia se tornar o goblin mais esperto desde o próprio Squee.

Bulp vomitou no chão no topo das escadas.

"Oh, no, Rei. Bulp sente muito. Bulp teve um café da manhã enorme hoje e então Bulp tentou subir todas as escadas correndo para dar ao Rei suas notícias importantes."

"Bulp, nós conversamos sobre isso."

Bulp assentiu enquanto uma expressão de embaraço se formava em seu rosto. A dieta goblin consistia principalmente de lesmas, larvas e caracóis. Seus estômagos eram, é claro, finamente ajustados para lidar com as implicações disso, mas atividade física séria imediatamente após uma refeição grande e ativamente se contorcendo nunca era aconselhável.

"Bulp só vai comer uma tigela da próxima vez, Bulp precisa estar pronto para qualquer coisa."

"E então? Nós conseguimos?"

Bulp subitamente pareceu nervoso.

"O que aconteceu, Bulp?"

"Nada! Ninguém foi esmagado, isso é certeza!" Um olhar de pânico cruzou os olhos de Bulp. Bulp odiava decepcionar Squee.

"Bulp, você tem que me dizer se alguém foi esmagado."

Bulp olhou para o chão.

"Desculpe, Rei. Mas Rarp..."

"Mostre-me, Bulp."

Os dois desceram as escadas enquanto Bulp explicava a situação. Rarp era um dos jóqueis de pedra do clã, trabalhando perto da entrada da montanha. A ideia era que várias pedras grandes fossem suspensas sobre a entrada da caverna com uma corda amarrada a uma estalagmite próxima. No caso de uma intrusão súbita, as cordas poderiam ser cortadas e a entrada seria selada. Era um feito incrível de engenharia goblin. Isso até que uma das cordas se rompeu.

Como a maioria dos goblins em qualquer momento, Rarp estava no lugar errado na hora errada e foi esmagado. Bulp e Squee se aproximaram do local do acidente no momento em que outros três goblins conseguiram levantar a rocha do pobre Rarp. Squee, não querendo colocar mais ninguém em perigo adicional, cuidou do corpo ele mesmo.

"Rarp está bem, Rei?" Bulp perguntou.

Uma rápida avaliação da condição de Rarp deixou claro que ele fora esmagado por uma rocha. Mas, para surpresa de Squee, Rarp ainda parecia estar respirando. Mais confuso ainda, uma quantidade de força que deveria ter transformado Rarp em polpa o deixara quase intacto. O olhar de Squee demorou-se nos olhos de Rarp, movendo-se de um lado para o outro sob pálpebras verdes fechadas. Ele cautelosamente se aproximou deles. Os olhos de Rarp se abriram abruptamente, e o estômago de Squee afundou quando um óleo preto espesso começou a vazar deles. Inaturalmente viscoso, o óleo escorria pelas bochechas amassadas de Rarp e começava a se acumular sob sua cabeça. Os olhos do goblin ferido focaram em Squee, e de repente Rarp começou a gritar. Então Squee começou a gritar. Bulp gritou também.


Squee e Bulp carregaram o corpo de Rarp envolto em um lençol de volta pelas escadas até os aposentos privados de Squee. Tomando cuidado para não tocar em nada do óleo que vazava da cabeça do corpo, eles jogaram Rarp no chão para examiná-lo mais de perto. Cada rasgo em sua carne que a rocha deixara revelava mais do óleo preto. Sob uma ferida particularmente grande, um cabo de metal preto brilhante se projetava.

Squee já vira isso antes, há muito tempo. Rarp era um agente infiltrado, uma criatura sequestrada por phyrexianos e aumentada com metal e magia. Este era o primeiro passo no que os phyrexianos chamavam de finalização. Em seu estado finalizado, os phyrexianos perdiam tudo, exceto uma semelhança passageira com seus eus anteriores, e abraçavam uma vida de "perfeição" através da rejeição de sua carne. Depois de se tornar imortal, ele fora deixado nas mãos de Ertai, um ex-companheiro de tripulação finalizado, cujo intelecto só era igualado por sua sociopatia. Ertai matara Squee repetidamente por pouco mais do que despeito e curiosidade. Embora Squee tivesse eventualmente conseguido incinerá-lo, fora apenas devido a um acidente afortunado. Por mais libertador que tivesse sido derrotar Ertai, Squee não guardava essas memórias com carinho.

"Como Rarp sobreviveu, Rei? Ele é como você?"

Squee balançou a cabeça: "Não, Bulp. Rarp não é como eu. Algo ruim aconteceu com ele. Você se lembra do que eu te contei sobre os phyrexianos?"

"Sim! Rei lutou contra um exército de monstros! Rei mandou eles de volta para onde vieram!"

Squee tomara algumas liberdades com o conto como vingança por sua omissão na maioria das lendas de Dominária.

"Bem, parece que eles vão tentar tirar o nosso mundo de nós novamente."

Squee sentiu uma onda de culpa ao ver o medo crescer nos olhos de Bulp.

"Mas... Rei vai chutar o traseiro deles de novo, certo?"

"Vou tentar, Bulp. Mas preciso que você ajude."

O reconhecimento súbito de que seu rei precisava dele endireitou a postura de Bulp. Ele estufou o peito e fez tudo o que podia para parecer que nunca conhecera o medo.

"Bulp fará o que Bulp tiver que fazer!"

"Isso é bom, porque preciso que você vá até a superfície e encontre ajuda."

"Eu posso ir lá fora?!" Bulp gritou de surpresa. A excitação que encheu o rosto de Bulp deixou Squee nostálgico por um tempo em que ele também não sabia nada do mundo fora de seu lar.

"Você pode, Bulp, mas precisa se mover rápido. Preciso que encontre uma cidade e conte a eles o que aconteceu."

"Que o Rarp foi esmagado?"

"Não, Bulp. Você tem que dizer a eles que os phyrexianos voltaram."

"Oh, sim! E o que o Rei vai fazer?"

"Preciso descobrir quantos deles entraram aqui e então me livrar deles."

"Como você vai fazer isso?"

Squee olha para os olhos ainda em movimento de Rarp. Eles se fixaram nele e tremeram descontroladamente, como se desejassem que o corpo que os continha ainda pudesse se mover. A luz das tochas do quarto oscilava nas pupilas aquosas, revelando apenas o mais leve brilho dourado iridescente atrás delas.

"Eu posso cuidar disso. Mas você tem que ir antes que qualquer outro phyrexiano secreto descubra que nós sabemos."

Bulp assentiu. Squee o levou para o fundo de seus aposentos. Ele afastou o que parecia ser uma prateleira para revelar uma escada embutida na parede. No início de seu reinado, Squee recrutara uma equipe de escavação para ajudá-lo a fazer um túnel de fuga como uma forma discreta de ocasionalmente reentrar no mundo exterior sem alertar seus súditos de sua ausência. Todos esses anos depois, era o segredo de Squee. Agora seria de Bulp também. Ele esperava desesperadamente que não o estivesse enviando para a morte. Squee o abraçou em despedida, e Bulp retribuiu o gesto, levantando seu rei levemente do chão.

"Assim que você contar a eles, volte direto. Nada de explorar! Se vir algo assustador, esteja pronto para correr!"

Bulp assentiu: "Bulp voltará, Rei. Bulp vai conseguir, igual ao Rei."

Os degraus da escada rangeram em protesto enquanto Bulp subia. Espantando a preocupação, Squee colocou a prateleira de volta no lugar e pegou uma tocha da parede. Ele a segurou contra o corpo de Rarp até que este começou a queimar. Era hora de começar o trabalho.


Após extinguir o pequeno incêndio que iniciara acidentalmente em seus aposentos, Squee dirigiu-se de volta à sala do trono para falar com seu povo. Ele saiu para a plataforma do trono e assobiou o mais alto que pôde, e a sala começou a silenciar-se.

"Goblins, jovens e velhos! Seu rei vem até vocês com notícias!" Ele sempre tentava adotar um tom majestoso ao se dirigir aos seus súditos.

"Tenho certeza de que alguns de vocês ouviram sobre Rarp ter sido esmagado feio. E é verdade, Rarp parece terrível. Mas Rarp está vivo!"

Isso fez com que conversas surgissem.

"Não façam mais perguntas sobre Rarp! Esta noite, vamos celebrar uma semana de ninguém morrendo em nossa montanha!"

Houve um silêncio expectante.

"E também, vou fazer o meu Mingau de Lesma Quente!"

A sala explodiu em vivas.


Squee mandou chamar Spurna, chefe dos magos das brasas. A tarefa deles era manter as lâmpadas de mana que forneciam luz dentro da montanha. Ele esperava convencê-la a apagá-las durante a celebração, deixando apenas a luz das tochas para os goblins festejarem. Normalmente, isso seria uma péssima ideia. O anonimato da escuridão dava aos goblins uma predileção por mau comportamento de alguma forma mais intensa do que sua predileção normal por mau comportamento. No entanto, Squee tinha um plano. Nos aposentos de Squee, no momento em que ele segurara a tocha contra o corpo de Rarp, notara um contorno de ouro quase imperceptível ao longo da borda das pupilas de Rarp. Squee esperava que uma súbita torrente de luz de tocha lhe permitisse ver exatamente com quantos agentes infiltrados de olhos dourados ele estava lidando. Assim que soubesse a extensão da infiltração, ele obteria ajuda dos goblins em quem pudesse confiar.

Spurna juntou-se a Squee na sala do trono. Desde o início, ela foi ríspida e direta.

"Spurna ouviu que Rei quer apagar lâmpadas de mana para celebração. Por que Rei quer isso?"

Squee estava preparado para a resistência.

"As lâmpadas de mana são uma grande conquista, mas a luz é muito brilhante. Os goblins querem se divertir. Os goblins querem dançar."

"Goblins podem dançar em sala brilhante. É melhor assim. Escuridão significa coisas estranhas."

"Isso não é bom, no entanto, Spurna?"

"Ouça, Rei. Lâmpadas apagadas significa que lâmpadas têm que ser ligadas de novo. Se muita mana for canalizada pelas lâmpadas, ou se for canalizada rápido demais, lâmpadas explodem, montanha inteira explode. Não vale o risco."

Squee fez uma nota mental de que, se passasse por isso, deveria revisitar o fato de que a montanha inteira era iluminada com explosivos de alta potência.

"Eu entendo! Ninguém gosta quando uma montanha explode! Mas como rei, tenho que ordenar que você apague as lâmpadas."

Spurna balançou a cabeça.

"Bem Rei, lembre-se, você pediu por isso."

Ela estendeu as mãos, fechou os olhos e se concentrou. Squee olhou para o átrio principal para ver se a luz diminuíra, mas ela permaneceu a mesma. Confuso, ele se voltou para Spurna e sentiu uma pontada quente de dor nas entranhas. O braço de Spurna se retorcera e se reformara em um espigão metálico aquecido. Com uma força inatural, Spurna o ergueu no ar. Ele sentiu seu sangue jorrando enquanto ela o carregava pela sala do trono até o parapeito. Ela sorriu um sorriso inatural enquanto o empurrava para frente, enviando-o em queda livre para o chão de pedra da montanha.


Squee caminhava pelos salões da morte como se fosse o dono do lugar. Cada vez que morria, era a mesma coisa. Ele se encontrava em um palácio grande, ornamentado e vazio, com pisos de granito preto tão escuros que parecia que ele estava caminhando pelo céu noturno. O lugar inteiro brilhava com uma luz vermelha suave. Enquanto se apressava pelos corredores, via a última coisa que sempre via antes de ressuscitar: uma mesa de banquete deslumbrante arranjada com todas as suas comidas favoritas. Nas milhares de vezes que Squee estivera aqui, ele nunca provara os insetos. Desta vez não foi diferente. Ao se aproximar da mesa, sentiu o toque gentil de dedos espectrais em seus ombros antes de ser violentamente puxado de volta para sua forma física. Seus olhos se abriram bruscamente.

Ele estava coberto de seu próprio sangue. Ele viu outros goblins começando a se reunir para a festa. Eles pareciam não se incomodar com a morte pública repentina de Squee, mas ele não os culpava. Como um ser imortal, Squee morria muito. Ocasionalmente ele pulava daquela plataforma quando não estava a fim de usar as escadas. Ele geralmente explodia no impacto, e todos sempre se divertiam muito com isso.

Squee fez o possível para chamar a atenção deles, sem saber para onde Spurna fugira. Ele gritou: "Ajudem seu rei! Preparem-se para lutar!" no momento em que Spurna pousou ao lado dele com um baque metálico. Ela cravou seu espigão na nuca dele.

Squee acordou mais uma vez. Sua visão estava embaçada, sendo alimentada por olhos recém-curados para um cérebro recém-reformado. Quando ela entrou em foco, ele viu o clã inteiro parado em um círculo perfeito ao redor dos dois, observando silenciosamente enquanto Spurna o perseguia como uma presa. Aproveitando a plateia, ela lentamente pressionou seu braço espetado contra o peito dele, prendendo-o ao chão. Com um sorriso doentio e inatural, ela estalou os dedos. As lâmpadas de mana se apagaram. Apenas a luz distante das tochas oscilava agora, e com horror, Squee viu que cada par de olhos que o cercava estava circulado com um ouro pálido. Ele engasgou em um grito. Spurna se preparou para esfaqueá-lo novamente quando, de repente, foi derrubada violentamente. Ela girou e caiu no chão, olhando com raiva para seu agressor: Bulp.

"Bulp!" Squee gritou, nunca tão feliz por ter sido desobedecido. Bulp virou-se e ofereceu a mão para ajudá-lo a levantar.

"Temos que sair daqui, Bulp! Não é seguro, você não vê que eles estão..."

Squee sentiu uma sensação horrível de queimação. Ao olhar para a mão, viu que sua carne estava apodrecendo. O apodrecimento espalhou-se de seus dedos para os pulsos. Ele caiu de volta ao chão enquanto seu braço se desprendia do corpo. O feitiço necrótico devorador de carne fazia seu trabalho vil, e ele assistiu horrorizado enquanto o corpo de Bulp oscilava. O glamour que ocultava sua verdadeira forma desapareceu e, parado onde Bulp estivera, estava um homem alto e inaturalmente pálido com cabelos loiros claros. Seus olhos choravam óleo e um cabo preto estava intrincadamente tecido na carne de seu rosto. Cada um de seus braços se dividia no cotovelo, dando-lhe duas mãos adicionais de três dedos. A armadura phyrexiana espetada de Ertai brilhava à luz das tochas enquanto o apodrecimento atingia o peito de Squee. Squee tentou gritar, mas sentiu apenas a sujeira de sua própria decomposição antes de ver novamente a escuridão.

Quando seu corpo se reformou, Ertai estava lá esperando por ele. Squee estava cercado por seus próprios antigos súditos. Eles permaneciam completamente imóveis em um silêncio complacente. Ertai caminhou em sua direção.

"Faz muito tempo, Squee."

"Eu pensei ter matado você."

Ertai riu.

"Você, de todas as pessoas, deveria saber que a morte pode ser um estado temporário. Mas é verdade, Squee. Você me pegou de surpresa e, por várias centenas de anos, eu fui para a escuridão. Esse poderia ter sido o fim se Sheoldred não tivesse me encontrado."

"She o quê?"

Ertai balançou a cabeça com um sorriso de escárnio.

"Sabe, com Dominária à beira da finalização, tenho muito mais paciência para a sua estupidez. Além disso, você está muito mais eloquente do que quando nos falamos pela última vez. Poderia quase passar por uma criança."

A totalidade da situação começou a ficar clara para Squee. Seu clã se fora. Seu povo agora era apenas cascas pesadamente aumentadas, construídas para atormentá-lo. Ele nem conseguia começar a pensar no que Ertai fizera com Bulp.

"Por que fazer tudo isso? Eu não entendo."

Ertai inclinou-se para encontrar os olhos de Squee com um olhar gélido.

"Talvez eu simplesmente não goste de você. Talvez eu tenha ficado com ciúmes vendo aqueles bufões da Bons Ventos bajularem suas travessuras idiotas. Ou talvez seja porque você me matou."

O sorriso de Ertai retornou.

"Ou talvez, eu tenha vindo aqui para fazer um goblin imortal implorar pela morte. Para lhe ensinar a verdadeira dor para que, quando eu o alivie dela, você me receba com adoração."

Ertai tateou suas vestes. "Mas, no que diz respeito aos registros oficiais, fui encarregado de recuperar e ocultar isto com segurança." Squee apalpou suas vestes em descrença enquanto Ertai tirava seu brinquedo.

"Você ama tanto essa bugiganga e, no entanto, aposto que sabe tão pouco sobre ela quanto nós. Há assustadoramente pouco a ser lido sobre a Esfera da Salvação. Tudo o que consegui discernir é que ela é mais antiga que o próprio plano. Mas sei duas coisas com certeza. Primeiro, era parte da Arma do Legado, o que significa que deve ser tratada. Segundo, parece sempre encontrar o caminho de volta para você, o que significa que você deve ser tratado."

Squee suspirou.

"Você mesmo disse, Ertai. Você não pode me matar."

Ertai jogou o brinquedo de uma mão para a outra de forma brincalhona. Ele fez um gesto para os agentes infiltrados goblins e apontou para Squee. Eles começaram a avançar sobre ele.

"Oh, Squee, eu não preciso matar você. Só preciso lembrar sua carne do potencial dela."

Goblins agarraram os braços de Squee para contê-lo. Seus corpos se abriram e revelaram metal e cabo preto. Eles começaram a mudar de forma, contorcendo-se descontroladamente. Vários deles se conectaram, suas novas formas se unindo para criar uma máquina diferente de tudo que Squee já vira. A mão de um se abriu para revelar uma agulha. Antes que Squee pudesse gritar, ela perfurou sua carne e seus membros ficaram pesados. Um dos goblins se transformara em uma mesa, e Squee foi colocado sobre ela. Enquanto adormecia, ele esperava que não estivessem transformando-o em uma mesa também.


Quando os olhos de Squee se abriram, ele se sentiu mais alerta do que estivera em anos. A fadiga como conceito fora removida de seu corpo e mente. Ele sentiu uma nova força em seu tecido muscular. Seus olhos podiam ver tudo na sala claramente, não importava quão longe. Ele fora colocado em um novo conjunto de suas vestes laranja de rei e deixado sobre a mesa. Ele se sentou e removeu uma agulha de cada um de seus braços. Ao fazer isso, uma máquina perto da mesa começou a emitir um som desconfortável. Assim que Squee registrou o desconforto, o som pareceu diminuir.

Tudo estava como ele se lembrava, mas todas as coisas que o preocupavam subitamente pareciam pequenas agora. Ele viu seu povo movendo-se pela montanha, alguns parecendo goblins e outros parecendo uma bela sinfonia de carne e metal. Ertai apareceu em um círculo de teletransporte diante dele, cuidando do som.

Arte de: Ryan Pancoast
Arte de: Ryan Pancoast

"Oh, bom. Você acordou. Como se sente?"

"Poderoso."

"A perfeição tem esse efeito. Seu corpo pode parecer estranho para você a princípio. Recomendo que tire um momento para examinar suas novas funções antes de partirmos para a Plataforma de Mana."

Squee levantou-se e olhou para seu corpo, vendo linhas brancas tênues ao longo de seus braços. Assim que pensou nelas, seus braços se abriram, revelando partes de máquina por baixo. Ele os fechou novamente. Tudo se movia na velocidade de seus próprios pensamentos. Squee removeu suas vestes com o desejo de ver do que mais era capaz. Ertai pareceu preocupado.

"Na verdade, Squee, mesmo em nossas formas perfeitas ainda optamos por usar nossas roupas..."

"Eu pensei que talvez você tivesse me dado uma armadura"

"Eu assumi que conseguiríamos uma para você em nossa..."

Totalmente nu, Squee olhou para o peito e viu mais cicatrizes tênues. Com um pensamento, um painel se abriu para revelar o interior de sua própria cavidade torácica, incluindo a Esfera da Salvação em rotação constante no lugar onde seu coração costumava estar. Ele olhou para um balde no canto da sala transbordando de carne. Presumivelmente, a sua própria. Repousando sobre ele estava sua coroa.

"Você não será um rei em Nova Phyrexia. Na verdade, imagino que eles estarão fazendo algumas pesquisas bem invasivas assim que eu o entregar." disse Ertai, visivelmente satisfeito consigo mesmo, mas essa presunção não ofendia mais Squee. Ambos serviam a Phyrexia. A imortalidade de Squee seria útil para a causa e, portanto, aprender a entendê-la fazia sentido.

Ertai continuou, desviando os olhos da forma nua de Squee. "Mas você tem que admitir, parece melhor deste lado, não é?"

Squee ordenou novamente que seus braços se abrissem. Um continha uma lâmina curvada e o outro continha um pequeno canhão. Ele olhou para ele enquanto carregava. Então ele olhou para a lâmina e tentou estendê-la ainda mais. Em vez disso, ela disparou para frente como um projétil, cravando-se em uma parede de pedra. Ele virou-se para Ertai.

"Eu me sinto..." Squee abriu o outro braço, carregando seu novo canhão. Ele convocou a lâmina de volta para si, um ímã em seu braço puxando-a para fora da parede, "...finalizado."

A lâmina voou de volta para Squee em alta velocidade, cortando facilmente a corda exposta que bloqueava seu caminho, a mesma corda que sustentava os rochedos que os jóqueis de pedra haviam suspendido novamente sobre a entrada da montanha após o acidente daquela manhã. Squee encontrava-se, como os goblins tão frequentemente estavam, no lugar errado na hora errada. A linha cortada soltou-se e os rochedos caíram em um instante. Squee foi esmagado no meio da palavra e pulverizado contra o chão da caverna em uma explosão de vísceras e óleo phyrexiano. Enquanto a pedra esmagava seu corpo, o canhão carregado no braço de Squee disparou no ar, atingindo e sobrecarregando uma das lâmpadas de mana que revestiam a parede da caverna. A explosão foi brilhante como o sol e não deu tempo para os habitantes da montanha reagirem enquanto ela cascateava de lâmpada em lâmpada, exceto por Ertai que instintivamente se protegeu. As poucas pequenas cidades que se restabeleceram em Otária por muito tempo se perguntariam o que acontecera nas montanhas naquela noite, pois para qualquer observador parecia que em um momento havia uma montanha e, no seguinte, havia uma cratera fumegante de pedra.


A morte nunca parecera assim antes. O palácio no qual Squee passara tanto tempo se fora, e em vez disso ele se encontrava flutuando em um mar de luz branca. Estaria ele sonhando? Se estava morto, onde estava o palácio? Onde estava o banquete?

Squee. É hora de conversarmos.

Squee ouviu a voz ao seu redor. De repente, uma forma astral flutuou livremente de seu peito e balançou bem na frente de seu rosto, flutuando na luz. Era o seu brinquedo, mas não como ele jamais o vira antes. A princípio, parecia estar flutuando na luz assim como ele, mas sua superfície branca e limpa, tão semelhante em tom à própria luz, desapareceu, deixando apenas as marcações ornamentadas. Elas brilhavam, suspensas no ar, e se expandiam para preencher o espaço, deixando Squee sobrecarregado por sua própria falta de compreensão. As marcações do seu brinquedo sempre lembraram um rosto, não muito diferente do de uma coruja ou de um diabrete, mas agora, enquanto preenchia o espaço extradimensional, ele apenas lhe trazia medo.

Não há necessidade de pânico, velho amigo. Permita-me deixá-lo à vontade.

De repente, as marcações flutuantes se contorceram, girando ao redor de Squee até que seu movimento borrado fosse tudo o que ele podia ver. Quando elas se dissiparam, Squee estava mais uma vez parado no palácio que lembrava. O banquete parecia delicioso como sempre, mas desta vez, a mesa tinha um convidado. Na cadeira mais próxima a ele estava uma jovem mulher zhalfiriana com uma única trança em seus cabelos escuros, que ele reconheceu instantaneamente como sua querida amiga e capitã da Bons Ventos, Sisay. A excitação tomou conta de Squee, mas quanto mais perto ele olhava, mais desconfiava. Esta Sisay carecia de algo essencial. Faltava-lhe a confiança astuta que a tornava uma líder tão natural.

Assumi uma forma que você consideraria mais palatável. Você sempre viu Sisay como uma presença reconfortante e autoritária.

Finalmente, Squee falou. "Então... você não é ela?"

Não, Squee. Sisay partiu. Sua alma retornou ao éter.

"Então, quem é você?"

Eu sou a Salvação. Fui uma força primordial em um mundo que veio antes deste. Eu fui...

Squee estava entediado. Ele nunca estivera morto por tanto tempo. "Como vim parar aqui?"

Isso é mais complicado. O feitiço de Yawgmoth pretendia reconstruir infinitamente seu corpo com pouca consideração pelo efeito em sua alma. No entanto, muito antes da sua imortalidade, escolhi você como um destinatário digno da minha dádiva. Protegi você de tudo o que ameaçaria a pureza de sua alma. A mistura resultante colocou você em um ciclo. Cada vez que você morria, seu corpo era reparado como Yawgmoth desejava. Sua alma ficava presa neste espaço extradimensional e retornava ao seu novo corpo antes que tivesse a chance de seguir em frente. Mesmo depois de...

"Desculpe, tenho que ser mais claro quando faço perguntas grandes. Como vim parar aqui especificamente?"

A Salvação sorriu.

Puro como sempre. A corrupção phyrexiana removeu sua alma do seu corpo enquanto ele ainda vivia, liberando-a do ciclo.

"Então... acabou. Eu finalmente fui morto de verdade?"

No lado oposto da sala, uma porta de madeira dourada abriu-se, empurrada por mãos invisíveis. O espaço além da soleira era brilhante demais para se ver.

Isso depende, Squee. Aceito o papel que desempenhei em seu destino inesperado e gostaria de lhe oferecer uma dádiva final: uma escolha. Neste momento, no reino dos vivos, seu corpo acaba de ser destruído. O feitiço que o reanima está buscando sua alma como sempre fez. Ele falhará se não encontrar você logo. Eu poderia colocar sua alma de volta no ciclo. Você acordaria mais uma vez em um novo corpo. Você permaneceria imortal e livre da intromissão phyrexiana.

Outra porta no lado oposto da sala abriu-se.

Ou você pode atravessar esta soleira e sua alma finalmente retornará ao éter. Você se reunirá com todos aqueles que perdeu e estará livre para descansar.

Squee olhou para as duas portas nervosamente. Ele se aproximou do banquete e puxou uma cadeira, esticando-se sobre a mesa para pegar um pastel de larva particularmente atraente. Ele se sentou, deu uma mordida e sorriu. Ele falou com a boca cheia: "Que tal você e eu falarmos sobre uma terceira porta, Sally?"


Bulp fizera tudo certo. Ele usara a passagem secreta do rei e certificara-se de que ninguém o visse sair da montanha. Viajara rápida e silenciosamente. Encontrara a primeira cidade humana que pôde e dera a notícia de que Phyrexia voltara. Claro, eles disseram que todo mundo já sabia disso há meses, mas as pessoas dizem qualquer coisa para fazer um goblin parecer burro. A notícia fora entregue, então ele fez o caminho de volta.

Bulp vira a explosão na noite anterior, mas não acreditou de verdade até chegar perto. O Rei deve estar por aqui em algum lugar, pensou consigo mesmo.

Ele encontrou uma clareira estranha nos destroços. Parecia ser o centro da explosão que mandara o lugar para os ares. Havia um único e limpo pequeno círculo sem sequer um pedaço de entulho do tamanho de um seixo sobre ele. Quando chegou perto, sentiu o fedor de uma magia desconhecida no ar, então manteve distância. Ficou preocupado com o seu rei. Claro, o Rei não pode morrer, pensou Bulp, mas se o Rei ficar enterrado muito fundo, ele apenas fica sob as rochas?

Antes que pudesse começar a cavar, ouviu uma voz muito bem-vinda acima dele.

"Bulp! Você está vivo!"

Poleiro a alguns pés acima dele em um grande pedaço de pedra quebrada estava o Rei Squee.


O que você tem em mente? perguntou a Salvação a Squee.

Squee deu outra mordida em seu sonho de larva.

"Não quero parecer ingrato, mas antes de me tornar imortal, nunca morri uma única vez. Então, desde que aconteceu, não consigo parar. Eu era um dos goblins mais espertos de todo o mundo antes de ser mudado. Fui em uma grande aventura e ajudei a salvar todo mundo. Não importa o que digam, eu era importante. Mas a única parte de mim com que alguém se importa agora é a coisa que ganhei por acidente. Bem, não sou o acidente de ninguém. Sou o meu próprio acidente."

Squee engoliu a mordida do doce.

"Quero voltar, Sally, mas quero apenas mais uma vez. Quero uma chance de durar o máximo que puder, uma chance de explodir algo, pensar que estou morto por um minuto, perceber que não estou e então chorar de rir."

A Salvação assentiu.


Bulp nunca estivera tão feliz em ver seu rei.

"Rei!! Rei, você está bem!"

"Você está bem! Eu pensei que eles tinham pego você!"

"Então, todo mundo..." Bulp parou, incapaz de articular a perda.

"Eu sei. Mas nós não! Hoje não!"

"Mas o que vamos fazer, Rei? Para onde vamos?"

"Se Phyrexia voltou, então cabe a goblins espertos como nós chutar o traseiro deles e acertar as contas."

Os olhos de Bulp arregalaram-se.

"Você acha que conseguimos?"

Squee bateu a mão no ombro de Bulp em um gesto que pareceria paternal se Bulp não fosse uma cabeça inteira mais alto que ele.

"Entre você e eu, Bulp? As coisas sempre dão um jeito de dar certo para o velho Squee."

Fé nos Pássaros

O pelo da leonina tinha a cor do pôr do sol sobre o Grande Deserto — fulvo com listras sinuosas de castanho — e era liso e agradável ao toque. A fáscia por baixo estava quente, muito quente, o que significava que a vida crescendo logo abaixo da pele era saudável e forte. Niambi a acariciou com familiaridade, continuando seu exame delicado da barriga grávida da futura mãe. Então, ela sentiu um chute.

"Oh, esse foi forte," ela exclamou, seus atentos olhos humanos erguendo-se para encontrar os felinos de sua paciente.

Os bigodes da futura mãe tremeram alegremente com a declaração, e as narinas de seu nariz de tigre rosa se dilataram. Seu nome era Pallar.

"Isso significa que é um menino?" Pallar perguntou, suas mandíbulas se alongando em um sorriso largo, expondo uma fileira brilhante de caninos brancos.

"Hm. Pode ser " Niambi respondeu calmamente. Ela sentiu outro chute. Ambas sentiram. Ainda mais forte desta vez. "Mas as meninas têm um pouco mais de tenacidade." Ela piscou, e as duas riram. "A criança estará aqui a qualquer dia agora. Já decidiu um nome?"

Pallar balançou a cabeça timidamente. Niambi deu um toque com a mão em sua barriga.

"Minha filha também era de chutar," disse Niambi. "Kequia. Significa 'lutadora'. Era o que ela era antes de nascer — uma lutadora. Ela estava infeliz por estar presa em um espaço tão apertado. Quando ela chegou, cedo eu acrescentaria, ela se espreguiçou de tal forma que pensei que estivesse pronta para correr pela rua. Eu soube ali mesmo que, se ela algum dia se dedicasse a algo, nunca poderia ser detida."

Pallar sorriu. "Filha de sua mãe."

Enquanto Pallar falava, ela colocou a mão sobre a de Niambi e deu um pequeno aperto. Sua palma era áspera — as almofadinhas de tigre que a cobriam estavam calejadas por uma vida passada ao ar livre, uma existência nômade, como a de tantos refugiados — mas seus cinco dígitos ágeis, semelhantes aos humanos, curvaram-se delicadamente. Suas garras afiadas permaneceram retraídas. Era um sinal de profunda gratidão.

"Você tem sido uma grande amiga para os Efravanos," Pallar começou suavemente, "quando tantos de sua espécie não foram. Você nos traz comida e remédios. Cura nossas feridas. Dá-nos palavras de esperança de que em breve estaremos seguros atrás dos muros da cidade. Por isso, somos muito gratos." Ela pausou um momento, enquanto sua voz começava a tremer de emoção. Então, perguntou: "Você não tem medo de que o magistrado a rejeite junto conosco, os estrangeiros?"

Estrangeiros , Niambi repetiu em sua mente. A palavra carregava uma conotação tão negativa. Os Efravanos vagavam pelo Grande Deserto há semanas, esperando escapar dos conflitos que se espalhavam por sua terra natal. As nações do sul estavam em guerra, e eles buscavam escapar da violência e do derramamento de sangue. As agressões foram desencadeadas pelo medo de invasão de um mal que antes se pensava ter sido expulso de Dominária — os Phyrexianos. Esses estrangeiros estavam apenas tentando sobreviver.

Niambi sorriu com a pergunta de Pallar, então virou a mão para segurá-la completamente na sua. Ela a segurou com ternura, permitindo que o polegar penteasse gentilmente seu pelo macio. Sua outra mão permaneceu na barriga inchada de Pallar, enquanto ela olhava para o poço escuro e de anéis âmbar dos olhos marejados de Pallar.

"Não há necessidade de se preocupar comigo," ela respondeu simplesmente, mas parou um momento como se processasse um pensamento triste. Então, continuou: "Eu ainda tenho influência com ele. Eu ainda tenho seu ouvido." Niambi disse as palavras com fervor, tentando convencer a si mesma de que isso ainda era verdade. Ele não a chamava há três dias.

"É porque você consegue ler sonhos?"

Niambi riu suavemente da noção simplista e para mascarar sua apreensão. "Bem, não tanto ler ," ela respondeu. "Eu encontro os padrões — conexões — escondidos dentro deles que se tornam claros com o tempo. A clareza acalma o coração perturbado. E nestes tempos de dificuldade, todos precisamos de clareza."

Os olhos de Pallar estavam arregalados, tremendo com lágrimas que imploravam por mais.

"Por exemplo, em um sonho recente, vi um bando de pássaros procurando um lar sobre um vasto oceano. Eles estavam exaustos, tendo voado por dias sem descanso até encontrarem uma ilha. E naquela ilha havia uma única árvore. Eles estavam tão agradecidos por terem encontrado um lugar para descansar, mas quando foram pousar nela, viram que ela estava doente. Insetos mortais estavam devastando sua casca e murchando seus frutos. Sem nenhum outro lugar para ir, toda a esperança parecia perdida. Mas então o menor do bando mergulhou no emaranhado de galhos, onde desapareceu."

"E o que aconteceu?" perguntou Pallar em um sussurro.

"Vários seguiram o passarinho, e eles o encontraram comendo os insetos!" Niambi soltou uma risadinha. "Todos seguiram o exemplo, devorando cada inseto até que a árvore estivesse limpa. Agora os frutos podiam crescer, e a árvore podia florescer."

"O que isso significa?"

"Os pássaros são vocês, e esta cidade é a árvore. Vocês foram destinados a estar aqui porque há algo incrível dentro de vocês."

"Sério?" perguntou Pallar, um brilho de esperança em seus olhos. "O que nós temos em nós?"

"Bem, ainda estou trabalhando no padrão. Mas, eventualmente, todos os olhos estarão abertos para a verdade."

O olhar de Pallar deixou o de Niambi.

"Eventualmente ," Pallar murmurou com decepção, pois sabia, como Niambi, que o tempo era essencial. Um inimigo antigo e perigoso se aproximava continuamente do horizonte, um que destruiria tudo e todos que ela amava se não pudessem entrar atrás dos muros da cidade.

Niambi deu um aperto encorajador em sua mão. "Eventualmente está demorando um pouco mais do que o esperado, mas "

"Estamos prontos," veio uma voz severa vinda de trás delas.

Niambi olhou por cima do ombro e Pallar se levantou de sua posição relaxada em seu catre para contemplar uma figura alta parada na entrada da tenda improvisada de Pallar. Contra o sol poente, as orelhas de gato e os bigodes pronunciados denunciavam a recém-chegada como uma Efravana, mas mais do que isso, a constituição muscular e a armadura mostravam que ela era uma guerreira forte entre a tribo. Niambi a conhecia. A selva a endurecera, tornara-a obstinada. Ela era ferozmente leal ao seu povo, e a segurança deles era primordial. Ela deu um passo à frente para dentro da tenda, e as sombras em seu rosto endurecido desapareceram, expondo o desgaste da batalha.

"Você tirou as palavras da minha boca, Zar Ojanen," disse Niambi, levantando-se e curvando a cabeça em sinal de respeito.

Arte de: Justine Cruz
Arte de: Justine Cruz

"Por favor, Niambi," Pallar resmungou, seu humor melhorando instantaneamente com a chegada dela, "já passamos das formalidades. Você é nossa família agora."

"Ainda assim, a história vê com bons olhos os descendentes dos grandes Jaeger e Jedit Ojanen, verdadeiros campeões de Jamuraa." Niambi respondeu com um sorriso. "Nossos maiores generais estudaram seus caminhos. Eles merecem para sempre nossa deferência."

Zar avançou e colocou as mãos calorosamente sobre seus ombros. "E graças a você, o legado dele será preservado," disse ela.

"Irmã," Pallar sussurrou, chamando-a para vir.

Zar passou apressada por Niambi e ajoelhou-se ao lado de Pallar, caindo em seus braços abertos. Com a maior ternura, as duas encostaram as testas e ronronaram uma para a outra. Eram duas irmãs inseparáveis que haviam suportado tantas dificuldades e mágoas, as mais dolorosas das quais vieram diretamente do magistrado.


Três dias antes, Niambi teve uma audiência com ele e o Conselho de Vozes na Grande Câmara para protestar contra um decreto imposto ao povo de Femeref que os proibia de doar comida, ajuda médica ou as necessidades diárias que alguém pudesse precisar para sobreviver no deserto implacável para a caravana Efravana.

O Conselho era composto por dez pessoas que se sentavam em três níveis acima do chão no grande salão circular, cada assento separado por um pilar de marfim. Quatro deles sentavam-se no primeiro nível, três no segundo, dois no primeiro, e em frente a eles, sentado em um trono bordado e elevado, um homem de rosto endurecido por uma idade avançada e olhos nublados, estava o Sidar Teshunda. Sidar era o título dado a ele, pois era um dos generais e táticos militares de mais alta patente na história de Femeref. Seu brilho em batalha vinha do estudo de guerras e batalhas antigas em toda Jamuraa, e ele nutria uma profunda reverência por líderes que superavam obstáculos intransponíveis.

Eruditos, líderes judiciais e religiosos, economistas e generais do exército, tanto de nascimento humano quanto anão, compunham o Conselho de Vozes. Cada membro estava envolto em mantos fluidos de laranja, branco e dourado, com capuzes texturizados cobrindo seus ombros. Apesar da ocasional briga sobre a alocação de certos recursos e métodos para expansão, o grupo agia harmoniosamente, especialmente na questão da caravana Efravana.

Alguém pigarreou ruidosamente, pedindo atenção.

"Quando os suprimentos deles acabarem," começou uma das conselheiras, com um toque de arrogância na voz, "e eles entenderem que não os reabasteceremos, essas tribos farão o que fazem há anos — simplesmente seguirão em frente."

"Como assim, Conselheira Gbega?" Niambi perguntou à mulher de cabelos curtos e rosto pequeno sentada no centro do segundo nível. "Como eles vão seguir em frente sem água ou comida? Há aqueles que são velhos e enfermos. Mães grávidas também."

Outra figura inclinou-se à frente de uma posição bastante despreocupada e confortável — com as mãos entrelaçadas sobre sua grande barriga. Seu nome era Conselheiro Jabras, e ele se juntou ao diálogo.

"No meio de um conflito, querida mulher, decisões difíceis devem ser tomadas," afirmou ele. "Estamos unificados na nossa."

"Mas não há conflito. Temos um inimigo em comum "

"A máquina Phyrexiana," Jabras exclamou, acenando vigorosamente. Houve um murmúrio temeroso dos outros membros do Conselho.

Seu despertar foi sentido há três semanas, como um terremoto no solo. Batedores de Femeref retornaram à cidade em pânico com relatos de que uma criatura mecânica aterrorizante de tamanho e força gigantescos havia emergido de sob a areia, e estava avançando firmemente em direção a Femeref.

Arte de: Marc Simonetti
Arte de: Marc Simonetti

Estava em uma missão de destruição e alcançaria os muros em apenas alguns dias.

"Estamos todos do mesmo lado," Niambi anunciou aos membros.

"Quem pode garantir que esse é o caso?" A terceira voz de oposição, uma voz experiente, ressoou claramente pela rotunda, embora quem falasse, um homem de pele escura e áspera e cabelos brancos e trançados, estivesse com o rosto enterrado em um grande livro. A altivez em seu tom transparecia com a mesma clareza.

Niambi olhou para o homem, que estava sentado na fila mais alta. Ela quase teve que apertar os olhos para distingui-lo. Embora a luz do sol brilhasse pelas muitas claraboias que atravessavam o teto, ela era bloqueada por sua cabeça, que lançava seu rosto na sombra. Mas várias cicatrizes finas e elevadas, dispostas verticalmente em sua testa, sumindo em suas tranças, atraíram o olhar de Niambi; ele era um dos poucos que mantinham as tradições mais supersticiosas dos antigos.

"Eu posso," Niambi respondeu firmemente, recusando-se a se curvar aos seus ares de superioridade.

"Você?" o conselheiro disparou, virando nonchalantemete outra página de seu livro. "Os estrangeiros só estão aqui há duas semanas. Não há como saber do que eles são verdadeiramente capazes."

"Peço desculpas," Niambi disse rispidamente, com a mandíbula tensa e os olhos semicerrados, "mas creio que não o conheço."

"Bem, servidores públicos, como você, raramente são convidados para reuniões do Alto Conselho," o conselheiro respondeu, ignorando a irritação de Niambi. "Os Oradores são relegados às suas províncias, como você sempre foi, mas nosso honorável magistrado, por alguma razão incerta , insistiu para que ouvíssemos sua queixa."

"O que eu, e os estrangeiros , apreciamos muito," Niambi retrucou com um sorriso forçado.

"Ela é uma amiga e cidadã leal de Femeref," anunciou Teshunda calorosamente. Sua voz era rouca e suas frases terminavam com um grasnido. "Levo seu conselho muito a sério. Tem sido de grande ajuda ao longo destes muitos anos, conselheiro "

"Conselheiro ?" Niambi instou, quase exigindo saber seu nome.

"Awateh." O homem fechou o livro com um estrondo que ecoou pelo salão enquanto falava. "Grande Historiador de Femeref."

Um silêncio tenso caiu sobre a sala, enquanto o historiador e Niambi se encaravam. Seu rosto estava agora exposto, e ele parecia um tanto familiar. Tinha quase a mesma idade do magistrado; a pele enrugada ao redor dos olhos era semelhante à dele. Era a barba branca longa e desgrenhada, no entanto, que lhe trouxe uma lembrança. Ela só vira o homem de perto uma vez — em uma cerimônia de sepultamento para o magistrado anterior. Sua barba era preta na época. Niambi era uma noviça em treinamento na ocasião e acompanhava um Orador para a cerimônia. Os Oradores desempenhavam um papel integral na recitação dos ritos e rituais dos mortos, garantindo que os espíritos daqueles que haviam partido fossem abençoados adequadamente e o consolo fosse levado aos seus entes queridos. Aqueles que registravam o sucesso da cerimônia, garantindo que os ritos fossem mantidos, eram os historiadores. Awateh estava naquela cerimônia, documentando minuciosamente o que havia transcorrido ali.

Teshunda pigarreou, trazendo o foco de Niambi de volta para ele e cortando a linha de escrutínio entre Niambi e o historiador. Então, ele falou: "O Historiador Awateh trouxe algumas informações perturbadoras sobre os Efravanos à minha atenção."

"Oh?" Niambi respondeu, virando-se sobre o ombro para encontrar o olhar do magistrado.

"Disseram-me que as tribos Efravanas tiveram um passado um tanto sórdido," ele continuou. "Eles estiveram alinhados com Yawgmoth em uma época e talvez ainda estejam." Niambi quase soltou uma risada diante do absurdo da observação. Teshunda continuou: "Acredite em mim, eu tive a mesma resposta: como poderia um povo que teve suas terras natais destruídas por aquele ser vil e sua prole decrépita ser cúmplice do mal?" Ele parou para respirar, então: "A resposta " Seus olhos gesticularam para o historiador.

"Seguramente eles apenas não sabem disso ainda," disse Awateh com um sorriso, levantando-se.

"Eu não — entendo," disse Niambi, horrorizada por ele estar considerando a ideia.

"Os descendentes de Yawgmoth são muitos, e eles se deleitam na tortura das variadas criaturas do nosso mundo," Awateh começou. "Especialmente aquelas nas periferias — aquelas das tribos dispersas de Jamuraa. Essas tribos, entenda, têm pouco que as mantenha unidas; nenhum líder e nenhuma terra natal a que se vincular, então pode-se ter a segurança "

"Suposição "

"Segurança de que muitos membros da tribo teriam se afastado sozinhos longe da pouca segurança do grupo. Esses indivíduos de fato se encontrariam em situações precárias, capturados em um domínio mortal Phyrexiano. Seus corpos seriam então explorados; suas entranhas substituídas por tamanha maquinaria perversa."

"Yawgmoth está morto," afirmou Niambi. "Basear suas decisões em medos antigos é tolice "

"Seu legado vive, apesar de tudo," Awateh respondeu. Ele ampliou seu discurso para o restante do Conselho. "Quem pode dizer que um desses Efravanos, que você protege tão arduamente, não é um errante possuído que mais tarde se reuniu à tribo dos gatos? Quem pode dizer que não há dez desses entre eles? Vinte? Cem, talvez?"

"Você condenaria centenas por medo da possibilidade de que um ou dois entre eles sejam agentes infiltrados? Podemos erradicá-los depois que os Efravanos estiverem seguros," Niambi retrucou.

"Não se as mentes deles foram apagadas," falou Gbega. "Ouvi de inúmeras fontes completamente confiáveis que o inimigo pode roubar suas memórias. Você não saberia se estivesse infectado até que fosse tarde demais!"

"Os Phyrexianos!" Jabras exclamou. A frase foi novamente seguida por resmungos dos outros membros do Conselho, que gradualmente se transformavam em gritos raivosos. Eles estavam de fato unificados em sua reprovação. Awateh continuou a atiçar o fogo.

"Existem Phyrexianos lá fora, escondendo-se à vista de todos atrás do muro!" ele fervia. "E eles vestem a pele de gatos!"

"Agentes infiltrados, Niambi," acrescentou Teshunda, levantando-se lentamente, segurando sua bengala de madeira bordada. Ele também fora instigado pelas palavras de Awateh. "Não podemos correr o risco!"

Niambi olhou de volta para o magistrado, ultrajada. "Vocês todos estão baseando seu preconceito em rumores e boatos?!"

"De todas as pessoas, você deveria saber que boatos são subjetivos, filha de Teferi," sibilou Awateh. "Nós falamos a verdade." Niambi rangeu os dentes diante do ataque.

Jabras e Gbega saltaram de pé. "Os — Phyrexianos!"

"CALEM A BOCA!" Niambi gritou. Sua voz ressoou com o golpe de trinta tambores ao mesmo tempo. Era um poder que ela, como Oradora, aprendera a invocar ao se dirigir a grandes multidões em espaços abertos. Mas aqueles eram aposentos confinados, o que tornava o comando ainda mais intenso. A sala imediatamente caiu em silêncio.

Niambi olhou ao redor do Conselho, para seus rostos irritados e franzidos. Seus olhos subiram pelas fileiras até encontrarem um enorme busto de marfim de Asmira, a Vingadora Sagrada, fixado no maior pilar. Ela era uma profetisa cuja sabedoria e orientação salvaram a cidade da destruição na Guerra das Miragens, quando o mago Kaervek tentou conquistar o norte de Jamuraa. O busto estava adornado com um capuz incrustado de joias e um adereço real, cercado por um halo de lanças douradas. A representação era de tirar o fôlego, pois o artista capturara perfeitamente sua beleza e ferocidade lendárias. Seus olhos olhavam para Niambi parada no meio daquela sala, em meio a tanta agressão, e pareciam sorrir com aprovação, instando-a a continuar a luta.

Niambi correu para o pé do assento do magistrado, caindo sobre um joelho. "Magistrado Teshunda , por favor não se deixe levar por tanto medo! Eu lhe imploro! Venha ver os Efravanos! Fale com eles !"

"Como você ousa — como você ousa falar com o Conselho de Vozes dessa maneira!" gritou outro membro do Conselho de repente.

"Ela — ela deve ser removida, magistrado!" afirmou um segundo. "Mande removê-la agora!"

O Conselho em peso explodiu em protesto à presença de Niambi, cada membro batendo os pés e agitando os punhos.

Niambi inclinou-se para Teshunda, direcionando suas palavras diretamente ao coração dele. "Lembra do seu sonho? Os pássaros. A árvore. O padrão está ficando mais claro. Não podemos estar do lado errado dele "

Teshunda ergueu a mão, silenciando ela e os conselheiros irados. Ele levou um longo momento para considerá-la antes de falar. "O Conselho de Vozes está unido," disse ele com um tom vigoroso. "Nossa decisão de proteger esta cidade e rejeitar aqueles que se aglomeram fora de nossos muros é final e para o bem maior."

"Teshunda, por favor, não faça isso!" Niambi implorou.

"Guardas!" Teshunda desviou os olhos enquanto Niambi tentava encontrá-los. "Escortem nossa Estimada Oradora para fora. Temos outros assuntos a tratar."

"Nada é mais urgente do que isso!"

"Fora!" Teshunda gritou, fazendo Niambi recuar.


"Fizemos um grande progresso hoje," disse Zar com orgulho, trazendo Niambi de volta ao presente. "O túnel para a mina abandonada está completo."

"Boas notícias," Niambi respondeu suavemente, embora com uma leve relutância. "Mas é minha esperança que o Conselho finalmente perceba seu erro, e não tenhamos que seguir por esse caminho."

"É mais fácil pedir perdão do que permissão," respondeu ela rapidamente. Zar falava de forma simples e direta, sem nunca desperdiçar o fôlego. Seus olhos se estreitaram enquanto olhava para a barriga de Pallar. "Especialmente quando há tantas vidas em jogo."

Niambi assentiu, ouvindo sua urgência e compreendendo-a. Grande parte dela tinha medo por eles e pelo que aconteceria em seguida — medo de que os Phyrexianos os assassinassem e devorassem; e ainda mais medo de que as forças do Conselho os impedissem de chegar ao lugar seguro — uma mina de ouro abandonada — que ela encontrara para eles além do muro. Isso último era algo que ela temia arriscar.

"Eu disse à caravana para se preparar," continuou Zar com um vigor determinado. "Levem apenas o que pudermos carregar. Quando a noite cair e as primeiras estrelas brilharem, nos moveremos."

"Esse é o plano," Niambi afirmou.

"E seu marido?"

"Denik me garantiu que todos os guerreiros foram convocados aos muros para defender a cidade. Não haverá patrulhas para onde os estamos levando. Ele está lá agora, preparando o resto dos seus estoques de comida, madeira, água " Ela parou um momento.

"O que foi, Niambi?" perguntou Pallar.

Niambi respirou fundo e então falou: "Quero me encontrar com o magistrado uma última vez." Os olhos de Zar se arregalaram com raiva e surpresa. "Sozinha desta vez. Tenho certeza eu acredito que falar com ele, sentar-me com ele, sem certas vozes presentes, fará com que mude de ideia "

"Você já tentou o seu melhor para advogar por nós vezes demais!" Zar disparou contra ela, levantando-se. "A máquina Phyrexiana estará aqui no nascer do sol de amanhã!"

"Exatamente por isso devo tentar novamente enquanto ainda há tempo. A punição que vocês enfrentarão se formos descobertos será severa."

"Os Efravanos enfrentaram coisas muito piores e sobreviveram!"

"Eu sei. Mas me recuso a aceitar que vocês — qualquer um de vocês — possam ser colocados na prisão, sua irmã deixada para dar à luz em uma masmorra — sem esgotar todos os esforços "

"Escória Phyrexiana!" veio um grito repentino e distante, cortando o diálogo. Foi seguido por uma salva de risadas — as risadas de vários homens. Nem Niambi, Zar ou Pallar precisaram sair para saber quem estava proferindo as maldições. Eram os soldados no muro. "Vocês morrerão antes mesmo de entrar nesta cidade!"

Então, o choro alto de várias mulheres Efravanas idosas passando lentamente pela tenda chamou a atenção delas. Niambi virou levemente a cabeça sobre o ombro em reconhecimento, permitindo que os gritos das mulheres completassem todo o seu arco. Seu coração se partiu por elas.

"Não vamos esperar!" Zar rugiu com frustração, mostrando seus dentes afiados. Sua cauda chicoteou o ar. "Eles acham que somos monstros, Niambi!"

Sem que ela ou Pallar percebessem, as palmas das mãos de Niambi começaram a assumir um brilho suave, transformando a pele de um leve rubor para um açafrão calmo e fervilhante. Os olhos de Asmira brilharam na mente de Niambi.

"O magistrado verá a razão," insistiu Niambi. "Ele verá a verdade."

Pallar, que estava deitada de costas em um pequeno catre de palha, mexeu-se com extrema incerteza.

"Mas ele a aceitará?" perguntou ela.

Niambi aproximou-se dela e colocou as mãos brilhantes em sua barriga. "É pelo instinto e pela fé que meu povo também sobreviveu," começou ela. "Desde o desaparecimento de Zhalfir, nossos ancestrais instilaram uma natureza de cautela em nós — uma vigilância silenciosa para manter nosso modo de vida contra o desconhecido. Isso é verdade. Mas não esquecemos que centenas de anos antes — quando Kaervek buscou destruir a todos nós — a em Asmira, nossa grande profetisa, que interpretou as visões e sonhos de meu pai, que pensou fora do que era considerado o único caminho a seguir, trouxe-nos a vitória e a vida. A fé nos salvou então, e salvará vocês agora."

"Suas mãos," sussurrou Pallar, o brilho da preocupação derretendo-se lentamente de seus olhos, "elas parecem o sol." O bebê deu outro chute, mas permitiu que sua pata permanecesse estendida, demorando-se no calor da mão de Niambi.

"O medo," continuou Niambi, "é como um vento gelado que pode tornar frio o coração mais gentil. O magistrado tem medo do que não conhece, mas um toque caloroso de um amigo de confiança pode derreter o gelo."

"Asmira." Os olhos de Pallar, transbordando de lágrimas, estavam agora fixos em Niambi. A esperança queimava neles. "Nós conhecemos as histórias. Você é como ela, não é? Você é aquela em quem devemos depositar nossa fé."

Pallar virou-se para sua irmã, que ainda estava de costas para ambas. Seus punhos estavam cerrados com força e ela tremia de frustração.

"Irmã," disse ela gentilmente. "Deixe-a tentar mais uma vez."

O som simples da voz de Pallar pareceu acalmá-la. Seus ombros relaxaram.

"Você tem até a lua estar em seu ponto mais alto no céu," disse ela com um resmungo. "Então nós iremos."

Niambi partiu imediatamente. Ela chegou à casa do magistrado no momento em que o sol começava a se pôr. Era uma estrutura maciça com telhado de telhas, cercada por pomares e jardins de acácias em flor. Os guardas parados do lado fora a conheciam, ela estivera em sua villa muitas vezes para interpretação de sonhos, e eles a saudaram com um aceno simples, que ela retribuiu.

No entanto, quando ela foi passar por eles, cruzaram as lanças em seu caminho.

"O que estão fazendo?" perguntou Niambi.

"Estamos sob ataque, Estimada Oradora," falou o mais alto dos dois soldados. "Sugerimos que retorne à sua casa para sua segurança."

"Ficarei apenas um momento," respondeu Niambi. "Venho com novas — e terríveis notícias — sobre a máquina Phyrexiana que se aproxima. Ele está me esperando "

"Desculpas," falou o segundo. "Não há permissão de entrada na propriedade. Temos ordens."

"Ordens " Niambi começou, mas interrompeu sua fala por meio momento, uma ideia se formando. Os olhos dos soldados não pareciam endurecidos; seus corações não eram pedras imóveis. Eles só precisavam de um pouco de convencimento. Ela voltou seu foco para o mais alto.

"Seu nome é Esbo, não é?"

"É," respondeu Esbo.

"Entenda, não vim aqui apenas por causa do magistrado, mas por preocupação com os súditos desta casa — você, em particular."

"Eu?" perguntou Esbo com uma curiosidade temerosa.

Niambi assentiu para ele. "Sim — você e seu papel na batalha para salvar nossa cidade." Suas mãos começaram a brilhar. "Veja bem, fui atormentada por sonhos terríveis na noite passada: vi uma corça presa em um leito de lama. Ela chamava desesperadamente pelo cervo que deveria proteger para que ficasse longe, prometendo que logo estaria livre e eles poderiam partir juntos. A cada passo que dava, ela afundava mais no pântano, sua janela de escape se fechando — não um escape da terra destinada a engoli-la, mas de uma fera enorme que se aproximava das sombras. O cervo saltava pelo perímetro do lamaçal, sem saber o que fazer para salvá-la e inconsciente da fera que tinha os olhos fixos nele." Ela parou um momento. "Você sabe quem você é no meu sonho, Esbo?"

Esbo balançou a cabeça com preocupação.

"O cervo," o segundo soldado interveio. Niambi colocou as mãos brilhantes sobre as mãos que seguravam as lanças cruzadas. Ao mesmo tempo, os dois inspiraram, sendo preenchidos pela luz do sol.

"Vocês são a lama," disse Niambi. "Eu sou a corça; o magistrado é o cervo que estou tentando proteger do perigo que em breve cairá sobre nós. Estou aqui para proteger nosso querido magistrado; apenas quero compartilhar com ele o conhecimento que ele precisa saber antes que seja tarde demais. Por favor, libertem-me."

Tocados por suas palavras e pela magia solar que corria através delas, os guardas permitiram sua passagem.

Esgueirando-se pela porta da frente, Niambi correu por um longo corredor em direção a uma grande porta dourada no final — os aposentos do magistrado. Dois servos em mantos brancos acendiam tochas ao longo do corredor — um rapaz e uma moça. Eles a saudaram com um aceno como os outros, mas quando ela passou, vendo a determinação em seu rosto, um deles falou.

"O magistrado não está aqui, Estimada Oradora," disse a moça.

Niambi parou e virou-se para eles.

"Não?" perguntou ela, confusa por que o velho senhor não estava ali àquela hora. "O sol quase se pôs."

"Ele não dorme em seu quarto há vários dias."

"Ele não tem dormido nada, na verdade," acrescentou o rapaz. "Medo do retorno dos Phyrexianos, suponho."

Medo. As engrenagens na mente de Niambi começaram a girar. Talvez fosse uma pontada de consciência — a culpa que alguém poderia sentir se deixasse uma nação de pessoas inocentes perecer — que o mantinha acordado. Ela não pôde deixar de sentir um pouco de satisfação com a ideia. Todos deveriam ter vergonha por fechar os olhos ao sofrimento. Mas então o sentimento mudou para um medo próprio. Se o magistrado estava de fato cheio de vergonha, por que não revertera sua decisão? Seus momentos de insônia eram frequentemente desencadeados por pesadelos da noite anterior. Se estava tão ruim, por que não a convocara? Alguém mais estava em seu ouvido.

"Onde ele está agora?" perguntou Niambi.

"Na Grande Câmara," respondeu a moça. "É onde ele fica agora. Mesmo depois que as reuniões do Conselho terminam, ele permanece lá falando muito sozinho."

"Sozinho?" perguntou Niambi.

"Para começar," o homem respondeu. "Depois, os conselheiros Gbega, Jabras e Awateh costumam se juntar à companhia dele."

De fato.

"É verdade que os Phyrexianos estão escondidos entre o povo gato fora dos muros, Estimada Oradora?" perguntou a mulher. "Há boatos "

Niambi, ardendo em fúria, correu em direção à porta sem dar resposta.

Ela desceu os degraus de pedra e entrou na rua. Onde normalmente encontraria uma cena movimentada de pessoas indo e vindo, encontrou-a vazia — as pessoas abrigadas em suas casas por medo da invasão. No entanto, no final da rua havia uma única carruagem e um cocheiro, aguardando um possível passageiro. Ela correu até o cocheiro e subiu.

"Para a Grande Câmara, por favor," disse ela, e o cocheiro estalou as rédeas para partirem.

Pouco tempo depois, Niambi chegou à Grande Câmara e encontrou o magistrado sentado sobre uma fonte no pátio. A carruagem esperava na frente. Os guardas ao redor do perímetro, cada um familiarizado com o dom dela, tendo sentido seu calor, viram-na como um conforto bem-vindo para o magistrado enfermo e não impediram sua marcha em direção a ele. O homem frágil olhava para a água, tremendo sob o peso de seu coração.

"Você não tem dormido, magistrado," disse Niambi, ao se aproximar.

O magistrado bateu o cajado no chão de pedra mais para silenciá-la do que para se estabilizar.

"E você esteve com eles," repreendeu ele, embora sua respiração fosse pesada, seu corpo curvado. "Você tem se associado às tribos dos gatos, quando é necessária aqui, com seu povo, para acalmar seus espíritos e convencê-los de que o perigo que avança em nossas fronteiras é leve!"

Ele lançou-lhe um olhar cortante por cima do ombro enquanto falava. Foi um olhar que Niambi parou com uma careta severa própria.

"Um perigo leve ?" disse Niambi. "Centenas morrerão."

"Eu sei mas " Sua determinação parecia estar desmoronando naquele momento. "Mas "

"De quem é o espírito que realmente precisa de acalento?" perguntou Niambi, estudando-o.

Os olhos de Teshunda suavizaram-se subitamente. Ele voltou o rosto para a fonte. Niambi podia sentir um desejo de expressar alguma verdade profunda, uma ansiedade corrosiva que ele guardava, e a necessidade de falar emanava dele como ondas de calor subindo da areia. Havia tanto medo. Suas mãos começaram a pulsar com uma luz dourada suave.

"Magistrado, quando aqueles de nós que amam e podem amar pensam na preciosidade da vida, algo inevitavelmente surgirá para nos encontrar. Amamos e podemos amar, por isso não podemos ignorar a miséria ou fechar os olhos ao sofrimento, especialmente quando ele está bem à nossa porta."

Ela colocou a mão sobre a dele, e os dois ficaram sentados em silêncio por um longo momento. Teshunda voltou o rosto para os céus. A lua estava perto de seu ponto mais alto.

"Por que você não tem dormido?" Niambi perguntou pela segunda vez.

"Na noite depois que você veio ao Conselho," começou Teshunda após um momento. "Tive o mesmo sonho sobre os pássaros errantes. Exceto que desta vez a árvore era eu. Vi meus braços murchos e cheios de buracos. Os insetos estavam me comendo vivo, entrando em meus ossos, em meu coração. Nunca senti dor em um sonho, mas neste, eu podia sentir tudo. Era uma dor que perdurava quando eu abria os olhos. Tem sido inescapável. E a parte mais estranha de tudo, no sonho, o passarinho que veio a mim perguntou se eu precisava de sua ajuda. Eu precisava de ajuda, desesperadamente. Eu estava morrendo. Mas eu recusei. Eu disse: 'Não te conheço'. E ele voou para longe. Não consigo dormir desde então, Niambi. Diga-me o que isso significa."

Niambi olhou para ele com empatia, entristecida por ver como este campeão de Femeref fora despedaçado por pesadelos e fofocas cruéis. Então um pensamento lhe ocorreu. É melhor pedir perdão do que permissão. Ela olhou para a lua com ele, certa de que Zar e seu povo estariam em movimento.

"Eu gostaria que você viesse a um lugar comigo," disse ela suavemente.

"Onde?" perguntou ele, olhando para ela.

Ela se voltou para ele também e sorriu.

"Para conhecer seu pássaro."

Momentos depois, quando os dois se acomodaram nos assentos da carruagem e os cavalos se preparavam para partir, Niambi viu as portas da Grande Câmara se abrirem. Awateh, Gbega e Jabras saíram. O livro de Awateh estava aberto, e os três estavam engajados em uma conversa fervorosa, provavelmente decidindo qual novo pedaço da história poderiam recitar para acalmar ainda mais a consciência do magistrado. O estalar das rédeas atraiu a atenção deles.

"Magistrado?!" chamou Gbega, apontando para a carruagem que agora estava em movimento.

"Niambi?!" seguiu Jabras. Niambi empertigou-se.

"Você matará a todos nós!" gritou Awateh, saltando em direção ao seu cavalo. Os outros o seguiram rapidamente.

A viagem até a mina foi longa, e Niambi manteve a mão na de Teshunda o tempo todo. Com o calor do sol preenchendo-o, Teshunda cochilou. Niambi ficou grata por isso. Com algum alívio bem-vindo de seus pensamentos perturbados — um bom sonho — o velho homem poderia olhar para esta situação com olhos mais compassivos.

A carruagem parou abruptamente na entrada da mina, despertando o magistrado. Ele olhou ao redor, confuso, sem conhecer aquela seção da cidade — um lugar isolado, cercado por poeira e rochas altas. Ele não entrou em pânico, no entanto. A mão de Niambi ainda brilhava na sua. O som do choro de um bebê chamou a atenção deles, levando-a para a abertura escura da mina, onde o brilho das tochas penetrava lentamente a escuridão.

"É uma criança que ouço?" perguntou Teshunda, perplexo.

"Podemos amar e amamos, querido magistrado," Niambi respondeu, com lágrimas nos olhos. Pallar tivera seu filho. "Vamos conhecê-la."

Os dois entraram na mina e começaram uma caminhada lenta pelo túnel, o coração de Niambi transbordando de orgulho. O plano funcionara. Os Efravanos viveriam. À medida que se aproximavam do destino, ouviam-se sons de risadas, alguns cânticos suaves e o esforço vocal de erguer o último Efravano para a segurança. A luz das tochas nas paredes mostrava figuras abraçando-se e dançando de alegria.

"Quem são eles?" perguntou Teshunda.

"São um povo que precisava de alguém que falasse por eles porque não lhes é permitido falar por si mesmos. São um povo que precisava de alguém que defendesse o que é certo, bom e justo, mesmo que fosse difícil."

Teshunda olhou para ela. "Quem você trouxe aqui?"

"Pássaros em busca de descanso em uma árvore amargurada." Os olhos do magistrado se arregalaram. "O medo é uma emoção corruptora que murcha os frutos que fomos destinados a dar. É isso que seu sonho significa. O fruto que você está destinado a dar é "

"Salvação," sussurrou Teshunda suavemente. Niambi deu um aperto em sua mão.

"Mãe," veio uma vozinha das sombras, enquanto um homem segurando a mão de uma adolescente e uma tocha se aproximou.

"Kequia, minha querida menina," Niambi sorriu, ela e o magistrado encontrando-os no meio do caminho.

A jovem era a imagem esculpida de Niambi. Ela usava uma tiara dourada que prendia seus tufos espessos de cachos escuros. Denik, seu pai e marido de Niambi, era um homem bonito de cerca de cinquenta anos. Seus cabelos estavam em tranças, presas em um coque frouxo no topo da cabeça e adornadas com anéis de ouro.

Com um pequeno sorriso, Niambi passou uma mão brilhante na bochecha de sua filha, o que a fez sorrir. Kequia inclinou-se para a mão, aceitando o calor que ela proporcionava, tal como o filho de Pallar fizera.

"E nosso filho, Mabutho?" Niambi perguntou ao marido.

"Ele e a esposa estão servindo água e distribuindo cobertores para " Denik arquejou subitamente, curvando a cabeça. Ele olhou para Niambi. "Por que o magistrado está aqui ?"

Niambi pegou a tocha dele e a colocou na mão de Teshunda. "Para ver a verdade," disse ela.

Com um toque suave nas costas de Teshunda, ela permitiu que ele agora liderasse a jornada contornando a curva até os Efravanos que dançavam.

Quase imediatamente, ele se deparou com Zar, que segurava sua sobrinha chorando. Pallar estava ao lado dela, com uma mão em suas costas e a outra repousando sobre a cabeça de sua filha. A folia cessou naquele momento, e tudo ficou em silêncio enquanto contemplavam o recém-chegado em seu meio.

Teshunda olhou para todos eles, absorvendo a cena de mães abraçando seus filhos, maridos protegendo suas esposas, a totalidade de um povo abandonado orando silenciosamente pelo direito de existir. Seus olhos voltaram para Zar, cujo rosto permanecia duro como pedra. A armadura no corpo da Efravana e a grande espada embainhada em suas costas diziam a Teshunda tudo o que ele precisava saber sobre a mulher.

"Você é Ojanen," disse ele. "Descendente de Jaeger e Jedit, campeões de Jamuraa?"

"Eu sou," Zar respondeu firmemente, erguendo-se, permitindo que o orgulho de seu passado brilhasse nela.

"Eu os reverencio," disse Teshunda suavemente. "Eram guerreiros que nunca hesitaram em sua lealdade ao seu povo, que lutaram a grande luta até o fim. Eles realmente me inspiraram. Ajudaram -me. Líderes como eles são a razão de eu ser quem sou hoje."

"Posso dizer o mesmo," Zar respondeu.

Teshunda observou a criança aninhada no braço de Zar, envolta em um cobertor. Seu coração pareceu derreter-se à vista.

"E esta — é sua filha?"

"Lark é o nome dela," respondeu Pallar. "Como um passarinho, ela voou para este mundo, pousou em uma árvore moribunda destinada a fazer algo maravilhoso."

Niambi sorriu enquanto segurava sua própria filha. Seus olhos encontraram os de Pallar, e as duas assentiram com gratidão uma para a outra.

Teshunda olhou novamente para Zar, empertigando-se. "Zar Ojanen, o que vocês farão quando a abominação Phyrexiana tiver sido derrotada? Para onde irão?"

"Quando a ameaça passar, faremos o que sempre fizemos — seguiremos em frente."

"Não, não farão," disse o magistrado severamente. "A chegada daquela máquina é apenas o começo e, nas guerras que virão, precisaremos de aliados leais ao nosso lado. Vocês ficarão aqui. Ficarão aqui conosco."

"Magistrado, não! Você não pode!" vieram gritos de Awateh, Jabras e Gbega, que haviam entrado repentinamente na mina e agora abriam caminho violentamente através da multidão que se reunira ao redor do magistrado.

"Agentes infiltrados! Há agentes infiltrados entre eles!" gritaram juntos.

"Parem," disse Teshunda aos membros do Conselho, que obedeceram imediatamente. Enquanto olhava de volta para Niambi, ele falou novamente. "Não podemos mais permitir que nosso medo nos corrompa. Se um inimigo encontrar seu caminho em nosso meio, devemos ter fé que os campeões que estão entre nós se levantarão e os derrotarão." Então, ele se virou, observando o mar de olhos esperançosos e cheios de lágrimas que o encaravam e disse: "Bem-vindos a Femeref."

Arte de: Julia Metzger
Arte de: Julia Metzger

Fragmentos de Pesadelos

Shanna Sisay pressionou a mão contra a parede de sua cabine e sentiu o calor suave do Bons Ventos pulsando através de seu casco de madeira. Pelo menos aqui ainda era comum. Pelo menos aqui ela não podia ver no que havia transformado a grande nau voadora. Pelo menos aqui ela não imaginava o espírito da Capitã Sisay a julgando.

Vai ficar tudo bem. Tudo só precisa se manter unido por um pouco mais de tempo.

"—tudo desmoronando", Tiana estava dizendo. Quando Shanna não respondeu, a radiância angelical da artífice brilhou. "Capitã, você está ouvindo?"

"Claro que estou", disse Shanna. "As coisas estão difíceis para todos agora, Tiana. O Bons Ventos inclusive."

"O Bons Ventos não foi feito para aguentar esse tipo de tensão", disse Tiana. "Nada foi. Todo esse lixo phyrexiano, é corrosivo. A tripulação mal consegue se manter à frente dele. O navio está sofrendo, Capitã. Eu consigo sentir."

"Sem todo esse lixo phyrexiano, já teríamos sido abatidos cinco vezes. A Coalizão precisa de nós, e esse disfarce nos permite voar direto sobre o território de Sheoldred."

Arte de: Piotr Dura
Arte de: Piotr Dura

"A Coalizão precisa de um navio que não esteja em ruínas!" Os olhos de Tiana brilharam com toda a fúria justa de um anjo levado ao limite. "Tive que adiar os reparos no motivador da pedra de poder, e consigo ver rachaduras de fadiga nas hastes moderadoras—"

Um guincho como nada que Shanna já tivesse ouvido cortou o ar, picando o resto das palavras de Tiana em fitas, e o Bons Ventos trovejou e guinou para um lado. Ela compartilhou um olhar surpreso com Tiana por um instante antes de saírem correndo de sua cabine. Quando o lixo phyrexiano falhava, dependia delas — e de todos os outros — ter sucesso.

"O que temos?" Shanna gritou ao entrar no cockpit. O timoneiro, Botono, estava no chão com uma poça de sangue sob sua cabeça, e Raff Capashen havia assumido o timão do navio. Lá fora, o sol poente pintava as nuvens como fogo.

"Dragão de ossos, eu acho!" Raff girou o timão com força, e o Bons Ventos balançou em uma inclinação pesada. "Veio de trás. Ainda não o vi bem. Mas se ele pode nos sacudir assim apenas gritando, não quero ver o que suas garras podem fazer."

"Então consiga altitude para nós." Shanna se segurou em um corrimão. Estava tudo indo tão bem! "O que quer que seja, mostraremos a ele nossas garras."

Outro guincho bateu contra o casco do Bons Ventos, e nele, Shanna podia ouvir a fúria do dragão por a nau voadora não ter tido a decência de cair sem lutar. Ulaten e Anyxni, duas das tripulantes mais novas do cockpit, carregaram Botono para longe enquanto a nau voadora se nivelava. Com sorte, ele sobreviveria, e com muita sorte, eles só precisariam dessa sorte para ele.

"Ali está ele, logo à frente!" gritou Velena no pódio de armas. "Graça de Serra, apenas olhem para aquilo!"

Ela apontou para uma criatura que parecia menos um dragão do que um conjunto de ossos voando em formação cerrada. Apenas suas asas estavam inteiras, com membranas vermelhas fibrosas que lembravam Shanna demais as próprias asas disfarçadas do Bons Ventos. Ele cuspiu lanças carmesins que brilhavam com energia mágica em direção ao Bons Ventos, e apenas a reação rápida de Raff ao timão evitou que a nau voadora fosse empalada.

"Velena, por que você não mostra a esse monstro um pouco da graça de Serra?" Shanna franziu a testa para o dragão, como se sua própria fúria pudesse derrubá-lo do céu. "Barragem de raios de poder, o mais focada que puder fazer."

"Com prazer, Capitã!"

Arte de: Svetlin Velinov
Arte de: Svetlin Velinov

Um zumbido musical reverberou através da estrutura do Bons Ventos, aprofundando-se até explodir em um crescendo de raios verdes que pulverizaram em direção ao dragão. Ou, pelo menos, onde o dragão estivera. Ele rolou e teceu exatamente da maneira que os ossos não deveriam ser capazes, e seus raios perfuraram nada além de nuvens.

"Isso não vai funcionar", disse Shanna. "Raff, chegue mais perto."

"Vou tentar nos manter fora do alcance das garras, mas não posso prometer nada." Raff bateu a palma da mão contra o timão. "Eu sabia que deveria ter ido pela rota do sul em vez disso."

"Estamos aqui agora", disse Shanna. Não havia como dizer qual rota teria sido mais segura, ou se alguma delas seria. Dominária não era o lugar que fora há apenas alguns anos, quando os ventos eram limpos e os céus pacíficos. Hoje em dia, tudo cheirava a invasores phyrexianos.

"Acho que estamos", disse Raff enquanto o Bons Ventos girava para manter o dragão à frente. Enquanto se endireitava, o dragão cuspiu outra leva de lanças carmesins. "Droga, segurem-se!"

Raff lançou o Bons Ventos em uma esquiva brusca. Não foi o suficiente para evitar que uma das lanças abrisse um buraco na asa de estibordo com um calor imolador e um rugido pirotécnico. Pela intensidade do impacto, estava claro que Tiana teria seu desejo de reparos sérios afinal, desde que sobrevivessem aos próximos minutos.

"Ele se deixou aberto! É agora!" Velena gritou. "Atirando!"

Outra barragem de raios de poder irrompeu dos canhões do Bons Ventos, e desta vez, o dragão esquelético estava perto demais para desviar. Alguns passaram longe e outros espirraram contra a caixa torácica e a cauda do dragão, mas o resto deles cortou certeiramente uma de suas asas, decepando-a com um estalo seco. O dragão uivou e despencou do céu. Qualquer que fosse a magia que o trouxera de sua tumba não era suficiente para mantê-lo no ar com apenas uma asa.

Shanna permitiu-se um instante de satisfação com a tripulação. Todos estavam vivendo de acordo com o exemplo de Sisay.

"Capitã, o que quer que esteja fazendo, temos que pousar agora!" A voz de Tiana trovejou pelo tubo de fala. "Se você não nos colocar no chão, a gravidade colocará!"

Raff não esperou para lançar o Bons Ventos em uma descida acentuada, e Shanna não o culpou. Seria uma coisa terrível abater um dragão reanimado apenas para cair do céu.


"Você não quer saber o quão perto chegamos de cair do céu", disse Tiana. "Então não pergunte."

Shanna pegou um punhado de terra e apertou o punho até que seus nós dos dedos ficassem da cor do amanheâncer. Nestes últimos restos de luz do dia, este trecho de Otária, onde as planícies abertas davam lugar a colinas rochosas, parecia menos um refúgio e mais uma ameaça. Até Arvad, parado ao lado dela, parecia inquieto com isso.

"Então não tentarei o destino", disse Arvad. "O fato de estarmos vivos é satisfatório."

"Poderia ter sido muito pior", disse Raff, apontando para o norte onde o peso crepuscular de uma cordilheira era apenas visível. "Poderíamos ter caído em Pardia. Isso teria sido divertido, certo?"

"Podemos falar sobre o quão divertido teria sido quando estivermos em um porto seguro", disse Shanna. "Tiana, quanto tempo até podermos decolar?"

O anjo-artífice sibilou como uma chaleira quebrada. "Esse é o problema. Não podemos. Metade das hastes moderadoras estão rachadas. Se tentarmos girar a pedra de poder nessas condições, cabum , adeus Bons Ventos ."

"E quanto a substituições? Peças sobressalentes?"

"A metade que não está quebrada são as peças sobressalentes", disse Tiana. "Não posso fazer novas com o que temos."

"Não pode ser o fim." Shanna suava com a sensação de Sisay, Jhoira, Ilsa Braven, todos os antigos capitães do Bons Ventos julgando-a de longe e além. "Você está dizendo que estamos presos aqui? Aterrados?"

Por um momento, ninguém falou. A ideia de perder o Bons Ventos era uma faca nas costas de todos eles. Todos os seus sacrifícios, todas aquelas fugas por um triz, tudo para acabar aqui, assim?

"Talvez não", disse Raff enquanto olhava para as montanhas. "Contanto que eu esteja certo."

Shanna girou para encará-lo. "Então, pelo bem de todos nós, é melhor que você esteja certo. O que você tem?"

"Acho que aquele dragão estava guardando algo", disse Raff. "Algo com muita magia, e não muito longe daqui. Não tenho certeza do que, exatamente, mas pelas emanações que estou sentindo, pode ser algo que Tiana poderia usar para consertar os danos."

"Pode ser é melhor do que não pode", disse Shanna. "Vamos verificar."

"Você... você quer dizer eu também?" As asas de Tiana se curvaram ao redor dela. "Você quer que eu deixe o Bons Ventos assim?"

"Você mesma disse, não pode fazer novos aqui", disse Shanna. "Se o que quer que Raff tenha detectado for algo com que você possa trabalhar, você deve estar lá. Arvad manterá as coisas sob controle enquanto estivermos fora."

"A capitã está certa", disse Arvad. "Vão. O Bons Ventos ficará bem sem vocês por um tempo."

"Tudo bem", disse Tiana. "Certo. Sim. Melhor que eu esteja lá, por precaução. Não gostaria que perdessem todo esse tempo trazendo de volta algo que eu não pudesse usar de qualquer maneira, certo?" Ela sorriu, mas isso não apagou a preocupação em seus olhos.

"Certo! Vai ficar tudo bem", disse Raff com uma risada oca. "Sem problema nenhum."


"Olhando mais de perto", disse Shanna, "isso pode ser um problema."

Aninhada em meio às colinas baixas, onde a natureza uivava e corria e uma brisa fresca não trazia vestígios de invasores phyrexianos, uma cúpula nublada de fumaça preta oleosa estalava e se revolvia. Raff ergueu um dedo e cheirou o ar, enquanto Shanna atirou uma pedra nela. A pedra bateu com força e caiu no chão com marcas de queimado onde havia atingido.

Arte de: Drew Tucker
Arte de: Drew Tucker

"Isso nunca apareceu na Academia Tolariana, mas eu talvez consiga lidar com isso de qualquer maneira", disse Raff. Após um momento de reflexão e concentração, ele convocou um brilho de magia e o lançou contra a cúpula. Desapareceu sem nem mesmo um chiado, uma brasa em um oceano.

"Hmm." Ele se ajoelhou e arranhou o chão com um graveto. "Shanna, você tem aquela imunidade mágica. Talvez seja tão simples quanto você caminhar através dela."

"Ou tão simples quanto vaporizá-la quando ela tocar", disse Tiana. "Magia como esta é algo para ser respeitado, não desafiado. Definitivamente não com a vida da capitã."

"Ninguém vai ser vaporizado", disse Shanna. Muito menos ela mesma. "Vamos pensar sobre isso. Tem que haver outro caminho através."

Enquanto Shanna estudava a cúpula, procurando qualquer indício de um plano em sua superfície revolta, ela sentiu uma pontada desconhecida. Não a sensação que tinha quando a magia se anulava contra ela, mas uma versão espelhada dela com um gosto azedo subindo em sua língua. Raff parecia mal à vontade também.

"Você sente isso, Raff? Phyrexiano?"

"Se for, eles estão ficando criativos", disse Raff. "Talvez devêssemos dar um pouco de distância disso."

Antes que pudessem dar mais do que alguns passos para trás, um estalo baixo e rápido como um trovão em miniatura disparou, seguido pelo rugido abafado de vento distante e o que parecia uma trompa do tamanho de uma montanha apoiada pelo gemido de todo o mundo. Só ficou mais alto quando uma escuridão uivante atravessada por relâmpagos se manifestou ao lado da cúpula, e enquanto Shanna buscava sua espada, um tornado de arco-íris e trevas emergiu e se solidificou em uma figura.

Parecida com um humano, talvez, mas certamente não humana. Humanos não costumavam ser envoltos em uma dúzia de tranças retorcidas que poderiam ser facilmente cabelos ou sombras, com mãos com garras demais saindo do tumulto e um corpo terminando em apenas uma sugestão de pés. Tudo o que sugeria normalidade eram os óculos na cabeça da figura.

Shanna apertou o punho.

"Bem, bem, bem, são vocês e vocês e vocês já!" A estranha trançada apontou para Shanna, Raff e Tiana em sucessão e riu. "Vocês têm sorte de não terem ouvido ele, sabem. Teria vaporizado vocês, e vocês teriam merecido. Seus pais não lhes disseram para não brincar com magia mortal?"

"Quem quer que seja, afaste-se!" Raff ergueu a mão enquanto padrões de luz mágica se reuniam ao redor dela. A estranha das sombras riu e, com um gesto, as luzes se apagaram como velas.

"Meu nome... isso seria contar. Podem me chamar de Braids", disse ela. "Não precisam me impressionar. Vocês três, vocês não se mataram lá em cima. Isso é bom o suficiente."

"Você está dizendo que aquele dragão foi obra sua, Braids?" Shanna deu um passo à frente. "Que você derrubou meu navio?"

"Oh, por favor, se fosse meu, vocês nunca teriam sobrevivido para cair", disse Braids. "Culpe os phyrexianos. O constructo de guerra deles arrancou o teto do seu cemitério de tesouros, e ele ficou só um pouquinho irritado. Aquele constructo maravilhoso, cintilante, incansável. Tão cheio de potencial, e também de morte ardente! Por isso tive que escondê-lo atrás dali, para lidar com ele."

Shanna trocou um olhar com os outros. Raff parecia que o ar tinha ficado azedo como limão, mas as asas de Tiana estavam totalmente estendidas e seus olhos estavam cheios de confiança.

"Se há um constructo lá dentro, ele definitivamente tem as peças que eu preciso", disse Tiana. "Estamos em uma missão urgente. Minha nau voadora foi aterrada. Preciso consertá-la."

"Oh, eu sei, foi tudo muito emocionante quando todo aquele estalo aconteceu!" Três garras sombrias emergiram da aura escura de Braids e estalaram unhas afiadas. "Estalo, estalo, estalo. Tão emocionante que perdi um pouco o controle! O que é muito emocionante, quando se pensa assim. Mas agora vocês e vocês e vocês estão aqui, e então acho que podemos nos ajudar!"

Shanna franziu os lábios e baixou a espada. O que quer que Braids fosse e de onde quer que tivesse flutuado, ela ainda não havia tentado matá-los. Se o Bons Ventos permanecesse aterrado, os phyrexianos certamente o fariam. "O que você tem em mente?"

"É tão simples, até vocês três devem ser capazes de conseguir", disse Braids. "Eu ajudo vocês a entrarem na barricada, e vocês me ajudam a me matar."


"Por que coisas importantes nunca podem estar atrás de portas trancadas?" Raff disse enquanto os três e Braids paravam em frente à barreira revolta e fumegante. "Vocês ficariam surpresos com o quão fácil é arrombar fechaduras."

Shanna se preparou pensando em todos que contavam com ela, lá no Bons Ventos e no mundo lá fora. É claro que não poderia ter sido tão fácil quanto uma simples barreira mágica que Raff pudesse dissipar com os preparativos certos. Não, tinha que ser alguma monstruosidade de além que se despedaçara em pedaços. Ela não fingia entender como aquela magia caótica funcionava, como Braids podia se dividir em dois seres separados quando nem mesmo algo tão simples como um verme podia, ou por que um ser como Braids precisava da ajuda de Shanna para engolir uma cópia rebelde de si mesma. A magia raramente fazia sentido para ela, e Braids fazia ainda menos sentido do que a magia.

"Deixe-me adivinhar, eles mantêm você por perto para fazer as perguntas tolas." Braids jogou um punhado de terra na barreira e sorriu enquanto o monte sibilava até virar vapor. "Pense muito nisso e você rachará seu cérebro como um ovo. Que barulho maravilhoso isso faria. Tudo o que você precisa saber é que preciso reabsorver aquela versão de mim mesma. Viu? Tão simples que até simplórios como você podem compreender."

Shanna apertou o punho da espada e guardou sua frustração. Lidar com o fragmento de Braids não seria "matar", na verdade, mas não parecia a coisa mais fácil de qualquer maneira. Desde que tirasse o Bons Ventos do chão e sua tripulação em segurança, valeria a pena.

"Suponho que isso não te manteria fora de qualquer maneira", disse Tiana. "Você não parece do tipo que seria atrasado por uma fechadura."

"Por que se proteger com máquinas enferrujadas quando pesadelos gritantes podem fazer o trabalho ainda melhor?" Braids riu disso com latidos ocos que deixaram Shanna tensa. "Meu fragmento teve a mesma ideia. Sorte de todos nós, tenho um pouco de experiência com pesadelos."

Enquanto Braids ia para a nuvem, Shanna olhou para Tiana. Ela havia envolvido as asas ao redor de si e parecia ter acabado de acordar de um sonho de gelar o sangue. Com que tipo de pesadelos os anjos lidavam?

"Vai dar certo", disse Tiana. "A graça de Serra está conosco."

"Espero que seja tudo de que precisamos", disse Shanna. "Tudo bem, vamos a isso."

"Isso mesmo, vocês e vocês e vocês, mais chances de que pelo menos um de vocês sobreviva ao caminho através!" Braids deu a eles um sorriso carregado com um número desconfortável de dentes. "Todos vocês caminharão por seus caminhos sozinhos até chegarem ao outro lado, e não se percam. Vocês não podem simplesmente acordar lá dentro quando encontrarem problemas."

"Eu me sentiria muito melhor se você tivesse dito 'se' em vez disso", disse Raff.

"Vocês acham que vão navegar por uma tempestade de pesadelos gritantes e passar ilesos?" O riso de Braids foi alto o suficiente para acordar máquinas de guerra mortas. "Vocês terão sorte se não saírem balbuciando. Emocionante, não é?"

Não era a primeira palavra que Shanna pensaria, nem a trigésima sétima. Além disso, seu verdadeiro terror — perder o Bons Ventos e perder a guerra — já estava à sua frente. Ela não conseguia imaginar nada em um pesadelo que seria pior do que a realidade que estava encarando.

Meia dúzia de gavinhas sombrias se desdobraram de Braids, balançaram por um momento como galhos ao vento e se lançaram na barreira como predadores atacando a presa. A barreira sibilou como água caindo em uma panela quente e gritou com a agonia de um campo de batalha. Ondas de pavor bateram contra Shanna, Raff estava cobrindo as orelhas e sussurrando algo que ela não conseguia ouvir, e Tiana se ajoelhou como se fosse ser levada pela correnteza.

Após um momento, o ruído e o tumulto cessaram. Quatro frestas se abriram na barreira, de lados lisos e estreitos. Braids sorriu com dentes de arco-íris.

"Aí estão, um corredor para cada um e todos os adoráveis pesadelos que vocês poderiam esperar encontrar!" disse Braids. "Ninguém tente seguir outra pessoa. Quero dizer, eu realmente quero ver se compartilhar pesadelos faz seus cérebros escorrerem pelo nariz, mas haverá tempo para isso mais tarde. Vocês precisarão lidar com meu fragmento primeiro."

Shanna se ajoelhou, pegou um punhado de terra e esfregou-o entre as palmas das mãos. Quanto mais conexões ela tivesse com o mundo exterior, onde os pesadelos só ocasionalmente se tornavam realidade, melhor ela estaria para salvar o Bons Ventos e sua tripulação. Falhar nisso era o único pesadelo real.

"Raff, Tiana, é melhor eu ver vocês dois do outro lado", disse Shanna. "Ainda temos muito o que fazer."

De perto, a barreira era uma tempestade balbuciante que parecia impossível. Shanna respirou fundo e deu um passo através da fresta que Braids fizera para ela.


Começou com uma escuridão mais profunda do que o sono, profunda o suficiente para zombar do conceito de luz. Shanna seguiu em frente porque não havia como voltar atrás. Ela não podia se virar mais do que podia dar um passo de volta ao passado, e nenhuma das direções a atraía.

Entre piscadelas, o corredor se transformava daquela escuridão impossível de iluminar nas passagens familiares do Bons Ventos. Não era surpresa que Shanna encontrasse pesadelos aqui, no centro de sua vida sitiada.

Outra piscadela, e ela não estava mais sozinha. Sisay, morta há séculos, estava diante dela, metade carne e metade osso, envolta em uma sombra esfumaçada e carregando a mesma espada que Shanna empunhava. A própria espada de Sisay. O lembrete mais constante dos feitos de sua ancestral e do exemplo que Shanna se sentia impelida a superar.

"Legado tolo", disse Sisay com um sorriso que se dissolveu em um rigor mortis enquanto cruzava seu rosto. "O que você pensa que está fazendo?"

"O que eu tenho que fazer." Aquela não era sua ancestral e não merecia respeito. "Saia do meu caminho."

"Por quê, para que você possa envenenar ainda mais minha memória? Eu te dei o poder e o sonho do Bons Ventos, e olhe o que você fez com ele."

Sisay golpeou a antepara, e óleo misturado com sangue coagulado jorrou. Mais buracos se abriram e tentáculos feitos de detritos phyrexianos chicotearam para fora. Onde quer que tocassem a madeira do Bons Ventos, ela se tornava lívida e podre, poluída pelo veneno de cadáver phyrexiano.

"Estou lutando para salvar o mundo", disse Shanna. "Assim como a verdadeira Sisay fez."

"A diferença é que ela teve sucesso." Sisay apunhalou a madeira novamente, e o falso Bons Ventos gritou. "Quando ela perdeu o Bons Ventos, foi o preço para destruir Yawgmoth e salvar o mundo. Você o está perdendo pela grande e nobre causa de contrabandear bugigangas daqui para ali. Você está com medo demais para confrontar os invasores, legado? Ou você é um desperdício do sangue dela? Você pelo menos tem coragem de me mostrar que pode lutar?"

Shanna franziu a testa para o pesadelo zombeteiro e, num instante, a ponta de sua espada estava na garganta de Sisay. O pesadelo apenas sorriu, seus dentes irregulares e frios. Seria tão fácil cortar o pescoço daquela coisa que rasgava o rosto de sua ancestral em tiras, fatiá-la em nada e enterrá-la.

Da mesma forma que ela enterrara todos os seus outros medos. Da mesma forma que ela forçara Tiana a engolir suas próprias preocupações quando viera até ela antes da batalha. Da mesma forma que a terra reclamaria o Bons Ventos se a tripulação não conseguisse colocá-lo de volta no ar.

Shanna pressionou a ponta de sua espada no pescoço do pesadelo. Em vez de sangue, fumaça cinzenta sussurrou para fora.

"Não é apenas a minha coragem que importa", disse Shanna. "É a de todos. Somos mais fortes juntos. Se você entendesse algo sobre Sisay, entenderia isso."

"But agora, você está sozinha." A metade do rosto de Sisay que vestia o pesadelo rasgou-se em um sorriso de predador. "Seus amigos não podem te ajudar. Encare, sem você por perto para ajudá-los, eles provavelmente já estão mortos."

A mandíbula de Sisay-pesadelo se desencaixou como a de uma cobra e, na escuridão de sua garganta, Shanna viu coisas terríveis. Raff cortado ao meio em uma cama de entranhas, a pele de Tiana pendurada frouxa ao lado de seu esqueleto polido, a tripulação do Bons Ventos corrompida em monstruosidades phyrexianas com óleo no lugar dos olhos e tentáculos de metal retorcido envoltos em arame farpado, e em tudo isso gritos, gritos, gritos.

"Não!" Shanna rugiu com a fúria de um dragão. "NÃO! "

Não houve arte no assalto de Shanna, apenas brutalidade. Ela golpeou a Sisay-pesadelo repetidamente, cortando e estocando com sua espada e seus gritos, decepando ossos e perfurando nuvens de fumaça até que não restasse nada do pesadelo. Nada que seus olhos pudessem ver, pelo menos.

O falso Bons Ventos dissolveu-se ao seu redor, e o corredor sombrio reafirmou-se. Desta vez, a escuridão não era completa. Sua espada brilhava o suficiente para iluminar o caminho.

"Estamos nisto juntos", sussurrou Shanna, e ela avançou, implacável.


Segundo os cálculos de Shanna, ela estava caminhando pelo corredor há meia hora depois de dissipar a Sisay-pesadelo, sem nenhum sinal do mundo além. Apesar da escuridão, ela não estava com medo. Se morresse aqui, morreria de pé enquanto tentava salvar sua tripulação. Que fim melhor um capitão poderia pedir?

O corredor terminou com a brusquidão de uma morte súbita. Entre piscadelas, ele evaporou, deixando-a em terra sólida e familiar sob uma nuvem revolta atravessada por relâmpagos. Abaixo dela, o chão se curvava em uma cratera de fundo lamacento onde a carcaça semi-enterrada de uma máquina de guerra phyrexiana gritava como uma dobradiça sem óleo enquanto tentava, em vão, se libertar.

Era mais pesadelo do que qualquer coisa que ela tivesse visto no corredor.

"Capitã!" Shanna girou para encontrar Tiana por perto, viva e serena. "Estou tão grata por você estar bem."

"E Raff? Você o viu?"

"Não, eu estava sozinha lá dentro, e estou grata por isso também." Tiana estremeceu. "Algumas coisas não devem ser compartilhadas. Mas tenho certeza de que ele ficará—"

Sem um clarão de luz, um trovão ou rugido, Raff não estava lá num instante e estava no seguinte. Ele apareceu perto o suficiente de Tiana para fazê-la dar um grito de surpresa, e Raff, por sua vez, caiu no chão, ofegante.

"Ele está ficando bem." Shanna ofereceu a mão a Raff. "Vamos. Você está bem?"

"Bem? Achei que nunca sairia de lá!" Raff disse enquanto se levantava. "Eu caminhei por horas e nunca chegava a lugar nenhum."

"Horas?" Tiana franziu a testa. "Foram minutos para mim."

"Parece que o tempo estava um pouco à deriva lá dentro", disse Shanna. "Espero que não tenham se passado anos lá fora."

Antes que pudessem se recompor, o ar se encheu com uma melodia vibrante que começou como uma marcha militar apenas para desviar para uma ludicidade distorcida. Sombras se reuniram de todo o interior da barreira e se congelaram em uma única forma. Parecia Braids, mas desbotada e errada, como uma sombra distorcida que fora queimada em uma parede e depois escorregara dela.

Shanna manteve-se firme enquanto ela se aproximava. O fragmento de Braids, a coisa que ela fora enviada para matar. Tinha que ser.

"Agora isso é uma decepção", disse Braids-Fragmento com uma voz que perfurava. "Aqueles pesadelos deveriam ter feito pó de seus cérebros tolos. Devo estar fora de prática."

"Sou um ilusionista", disse Raff. "Estou acostumado a lidar com coisas que não são reais."

"Sim, bem, eu sou tão real quanto a morte", disse Braids-Fragmento. "E é isso que vocês terão se não saírem agora. Não pensem que é uma gentileza. Estou ansiosa para ver se sobrevivem ao caminho de volta."

Uma tempestade de sombras deslizou das paredes da barreira, e Shanna ficou tensa. Ela só podia esperar que fossem tão fáceis de derrotar quanto a Sisay-pesadelo. Em vez de saltar para atacar, os fiapos de escuridão se uniram na forma original de Braids, garras prontas e envolta em arco-íris e sombras.

"Aí está você... ou aí estou eu, não é?" Braids deu uma risadinha. "Você realmente achou que podia se esconder? Pare de ser tola e volte para mim, ou eu te quebrarei."

"O que ela prometeu a vocês três?" Braids-Fragmento parecia desesperada, como um sonho que sabia ser um produto da imaginação. "Não sejam ridículos, ela está usando vocês!"

"Não temos tempo para isso", disse Shanna. "Resolvam-se!"

"Não, não vou!" gritou Braids-Fragmento, e a barreira trovejou e brilhou com relâmpagos. "If vocês estão aqui com ela, então terei que matar todos vocês!"

Braids-Fragmento apontou para Shanna com quatro mãos trêmulas e sombrias. Cubos aninhados, simultaneamente pretos e transparentes, irromperam de seus dedos e se lançaram contra Shanna, apenas para se estilhaçarem contra a tênue luz dourada da imunidade mágica de Shanna: o presente mais duradouro de Sisay para seus descendentes.

Antes que a luz tivesse se assentado, Shanna avançou e golpeou o espaço onde Braids-Fragmento estivera um instante antes. Agora ela estava atrás dela, com uma palma contra a cabeça de Raff. Ele estava congelado no meio da conjuração de um feitiço, o rosto retorcido de terror.

"Você é mais fácil de tocar do que cordas de tripa", disse Braids-Fragmento. "E você achou que tinha visto todos os pesadelos que eu tinha a oferecer."

Shanna atacou novamente, e Braids-Fragmento apenas sorriu como alguém que sabia que a situação estava inteiramente sob controle. Aquele sorriso durou até Tiana golpear da direção oposta, sua palma aberta brilhando com poder angelical. Um toque foi o suficiente para fazer Braids-Fragmento gritar, mas não o suficiente para impedi-la de se contorcer para disparar um feixe de escuridão no rosto de Tiana.

Ele nunca chegou lá. O feitiço inacabado de Raff se uniu e colidiu com o feixe em uma tempestade de aniquilação mútua, enquanto Raff se esquivava do alcance de Braids-Fragmento. Ele deu a Shanna toda a abertura de que ela precisava para empalar Braids-Fragmento na ponta de sua espada.

Shanna encontrou mais resistência do que mera sombra. Sua espada ardeu com fogo e gelo, medo e prazer, e no grito de Braids-Fragmento, Shanna ouviu pesadelos persistentes. Enquanto Shanna puxava sua espada de volta, a Braids original desceu de cima com um sorriso de predador. Os dentes de Braids deram lugar a um vazio turbulento de garganta enquanto sua mandíbula primeiro se abriu amplamente e depois se rasgou com a ansiedade de roupas mal costuradas, como uma fissura de terremoto, como uma avalanche que enterrou o fragmento inteiro. Com um guincho sibilante, a barreira caiu e as estrelas olharam para eles.

"Foi... foi isso?" Shanna piscou surpresa. "Foi tão simples?"

"Oh, não", disse Braids. "Eu a estava segurando. Vocês e vocês e vocês já seriam cadáveres feios a esta altura, caso contrário. Especialmente você."

"Isso é, bem..." Raff caiu no chão como um monte. "Tiana, você não sabe o quão sortuda é por não ter que se preocupar com sono, ou pesadelos!"

"Eu me perguntava se estava perdendo algo", disse Tiana. "Acho que não vou por um tempo. Acho que... preciso começar a reunir as peças."

Por um longo momento, ninguém falou. O silêncio do mundo era um bálsamo que durou até Braids o estilhaçar com aplausos.

"Agora então, agora então, se vocês quiserem deitar aqui e morrer, ficarei feliz em ajudá-los, mas se ainda quiserem minha ajuda com seu navio, deveriam realmente se organizar! Prometo que nem matarei ninguém, mesmo quando realmente merecerem. Quero dizer, olhem como ainda não matei nenhum de vocês!"

"Isso é encorajador", disse Shanna, embainhando a espada. "Vamos. Vamos reunir essas peças e sair daqui."


Shanna caminhou atrás de todos os outros enquanto refaziam o caminho de volta para o Bons Ventos. Além de não querer estar entre Tiana e sua nau voadora, ela queria manter um olhar atento sobre Braids. Não que isso importasse, dado tudo o que vira, mas a vigilância era sempre preferível à alternativa.

"Você realmente não preferiria voar, Tiana?" Raff perguntou. "Tenho certeza de que você teria tudo pronto quando nos alcançássemos."

"Eu preferiria." Tiana desfraldou as asas por um momento, depois as recolheu novamente ao redor do braço cheio de peças que havia recuperado do constructo morto. "Mas eu não gostaria de deixar você sozinho, também. Ou arriscar deixar cair algo na sua cabeça."

"Sozinho com um mistério como eu, você quer dizer?" Cabeças de cobras esfumaçadas se desdobraram da aura sombria de Braids com risadas sibilantes. "Estou tão tocada, anjo. Eu falo sério. Vamos, toque-me e descubra o que acontece!"

"Ninguém vai tocar em ninguém", disse Shanna.

"Sim, sim, vai ser tão emocionante!" disse Braids. "O tipo de emocionante em que você se certifica de ter se despedido de seus entes queridos primeiro. Vocês se despediram antes de começarem a voar pelo mundo, certo? Eu ficaria encantada em fazer algumas visitas extras se não..."

"Tudo o que precisamos é voltar ao ar novamente", disse Shanna. Ela pensava em seus entes queridos toda vez que o Bons Ventos desferia um golpe contra os invasores phyrexianos. "Isso é tudo o que importa por enquanto."

"Quanto antes, melhor." Tiana levou uma mão à cabeça. "Não sei o que é, mas estou ficando com uma dor de cabeça terrível."

Ao passarem por uma árvore curvada que Shanna lembrava não estar muito longe do local da queda do Bons Ventos, um par de luzes oscilantes apareceu em uma curva da trilha. Shanna segurou o punho da espada e, quando reconheceu a voz de Velena gritando, seu aperto apenas aumentou.

"Capitã!" Velena estava acompanhada por Arvad e Elmegraun da sala de máquinas do Bons Ventos, e todos pareciam esfarrapados e destruídos. "Graças a Serra que encontramos vocês! É terrível!"

"O que aconteceu?"

"O Bons Ventos, ele está—"

Arvad gritou antes que ela pudesse terminar. "Tarde demais, abaixem-se!"

Uma enxurrada de raios de poder verde doentio choveu, cavando crateras e incendiando árvores. Não houve tempo para se espalhar. Shanna atirou-se ao chão, chamuscada por um erro por pouco. Velena e Elmegraun não tiveram tanta sorte e derreteram em poças um instante antes de Raff terminar de conjurar um feitiço de proteção. Arvad grunhiu de dor, mas o tipo de grunhido que dizia a Shanna que ele ainda estava no jogo.

Braids uivou de rir. "Quem diria, exatamente como cera, exceto que cera nunca grita assim!"

Shanna não tinha palavras para nada daquilo enquanto ajudava Arvad a se levantar. O Bons Ventos pairava acima deles, e um olhar foi o suficiente para saber que não era mais o Bons Ventos. Seu casco cravejado de espinhos estava nodoso como músculo queimado, e cabos como intestinos pendiam gotejando vísceras que diziam que o Bons Ventos que ela conhecia estava morto.

"Arvad, o que aconteceu?"

"Algum problema na sala de máquinas", disse Arvad. "Um mau funcionamento que saiu de controle. O que importa é que o Bons Ventos se voltou contra nós."

Em um recanto distante de sua mente, Shanna ouviu Tiana dizer: Eu te avisei. Ela não ia pensar nisso, não quando apenas uma coisa importava.

"Tiana, você consegue derrubá-lo?"

"Derrubá-lo?" Braids arquejou com falsa indignação. "Este é um show melhor do que qualquer coisa que eu pudesse esperar."

"Se eu conseguir a pedra de poder, isso deve resolver." Os olhos de Tiana ardiam com uma determinação que fazia suas lágrimas brilharem.

"Então vamos." Ela agarrou Tiana com força e deu a ela um olhar suplicante. Sinto muito.

Embora o Bons Ventos disparasse mais rajadas enquanto Tiana e Shanna subiam, seus ataques passavam longe, como se ainda estivesse se acostumando a ser uma monstruosidade, e não conseguiu mantê-las longe de seu casco rançoso. Embora viscoso com a corrupção phyrexiana, Tiana não teve problemas para abrir uma escotilha.

"Acho que vou passar mal", disse Shanna. Em vez da madeira reconfortante de que se lembrava, o interior do Bons Ventos estava coberto de carne musgosa, olhos rodeados de dentes e espinhos irregulares, mais de um dos quais havia empalado o braço, o coração ou a cabeça de um tripulante. "Como isso aconteceu tão rápido?"

"Estava acontecendo há semanas", disse Tiana em um monótono baixo. "Algumas coisas começam devagar e terminam de uma vez só."

Na sala de máquinas, carne crua crescera ao redor das armações das máquinas, com o esqueleto de metal Thran exposto aqui tornado preto e queimado por ácido. A pedra de poder, ainda em seu berço, era a única fonte de luz e a única coisa não corrompida. Pé de Limo agarrava-se a ela, seu chapéu chamuscado e rastejando hifas.

Três tentáculos afiados crescendo da carne golpeavam e estalavam contra Pé de Limo até que Shanna atraiu sua atenção. Todos os três estavam empalados em cabeças que Shanna reconheceu, e que a reconheceram.

Botono, o timoneiro que Raff substituíra na tempestade da batalha. Ulaten, que sempre tinha uma piada para aliviar as situações mais estressantes. Anyxni, com um espírito que nunca desistia. Shanna nunca vira derrota em seus olhos antes de agora.

"Capitã..." eles gemeram e arquejaram. "Você nos deixou para morrer..."

Os tentáculos-cabeça chicotearam para a frente e, antes que Shanna pudesse se esquivar ou cortá-los, lamberam seu pescoço pior do que ácido e fogo combinados. Era traição destilada em um veneno.

Aquele fragmento de Braids não tinha a menor ideia do que eram pesadelos reais.

"Sinto muito por não estar lá quando precisaram de mim." Shanna esquivou-se de outro golpe enquanto sua espada cortava o tentáculo que vestia a cabeça de Ulaten. Ele chorou óleo preto em vez de sangue. "Eu sei que dói. Deixem-me acabar com isso."

"Você nos matou..." Eles falavam mais afiado que espadas.

"Os phyrexianos mataram vocês", disse Shanna. "Não pense que eu esquecerei."

Shanna sentiu a dor da lâmina da mesma forma que via através de vidro fosco: apenas as impressões mais vagas estavam lá. Ela teria tempo para a dor mais tarde. Uma estocada, e a morte de Botono foi final; outra, e o espírito de Anyxni desapareceu como chuva no deserto.

Não houve triunfo nisso. O único triunfo nos pesadelos era acordar deles. Shanna e Tiana trocaram um olhar longo e silencioso que dizia tudo o que era necessário e trabalharam para libertar a pedra de poder de seu berço. Estava quente ao toque e ainda cheia de possibilidades.

"Pé de Limo, você está bem?" Shanna não esperava uma resposta do talida, mas a maneira como ele estremeceu e deu um passo à frente disse a ela o que precisava saber. "Vamos, vamos sair daqui."

"E como", disse Tiana. "Este destroço não continuará voando por muito mais tempo."

Não houve resistência no caminho de volta para a escotilha. Shanna esperava que fosse graças a algum remanescente do espírito do Bons Ventos lutando. Tiana parou na borda, sua mão pressionada contra a antepara corrompida, lutando contra as lágrimas.

"Primeiro a Grande Máquina, e agora isto", sussurrou Tiana. "Que tipo de anjo eu sou?"

"Um que vai continuar seguindo em frente, para garantir que não termine assim", Shanna pressionou a mão no ombro de Tiana. "Certo?"

Tiana apertou Shanna e Pé de Limo contra si e saltou da escotilha. Enquanto caíam, o Bons Ventos com seu casco transformado e asas venosas estremeceu, virou-se e voou para longe.

Foi uma derrota, mas não foi o fim.

Episódio 5: Um Sussurro no Vento

Teferi bateu com uma monstruosidade phyrexiana na bancada de trabalho de Karn e a prendeu com uma faca. A criatura guinchou, jorrando óleo preto brilhante de seu corpo octopoidal, contorcendo-se de raiva. Karn observou seu agito com despaixão.

"É o segundo sabotador que encontrei." Teferi gerenciava as tropas, atuando tanto como general quanto como intendente — tarefa nada fácil na nova Coalizão, onde tantas espécies agiam em conjunto como aliadas.

"Que dano ele causou?" perguntou Karn.

"Estava nos estoques de alimentos", disse Teferi. "Jhoira está verificando se há corrupção neles, mas até que sejam liberados, o jantar está cancelado. Você pode imaginar como nossas tropas se sentem em relação a isso."

Karn apenas entendia a relação dos seres orgânicos com a comida em termos abstratos, mas ele tinha testemunhado como perder até mesmo uma única refeição podia tornar Jhoira irritadiça, mesmo quando a inanição não estava em questão. Imaginando isso em uma escala maior

"Isso está interrompendo o progresso de Jhoira?" A criatura teria encontrado os estoques de alimentos acidentalmente? Ou o espião teria dado a localização deles para Sheoldred? Karn não tinha conseguido determinar a identidade do espião; Jaya, Jodah e Ajani ainda não haviam chegado, e ele esperava que eles pudessem ajudar assim que o fizessem. Jhoira tinha se ocupado em configurar o mecanismo de autodestruição no leme da Plataforma de Mana, uma prioridade agora que as tropas de Sheoldred tinham começado a se concentrar. Eles não permitiriam que Sheoldred obtivesse e convertesse a Plataforma de Mana. Se ela o fizesse, seria capaz de criar pedras de poder e aplicar aço Thran, que era quase indestrutível, em suas criações monstruosas.

Teferi balançou a cabeça. "Está instalado, e ela está atualmente conectando os canhões à fonte de energia da Plataforma de Mana."

Presa e contorcendo-se como a monstruosidade estava, Karn não sabia que informações ela poderia transmitir para Sheoldred. Ele colocou uma mão sobre ela, removeu a lâmina e jogou a criatura em um cadinho. Ela se contorceu, sibilando enquanto seu sangue fervia, seu óleo entrava em conflagração, sua carne cozinhava e seu metal derretia.

"Seu trabalho no sylex?" Teferi parecia preocupado. Ele mexeu os ombros sob o peitoral. Uma fivela havia se soltado, mas devido aos seus ferimentos ainda em cicatrização, ele não conseguia alcançar para ajustá-la.

Finalizado. Karn tinha determinado como ativá-lo. Mas ele hesitou em dizer isso em voz alta. E se não fosse um espião que Karn precisasse procurar, mas um dispositivo de espionagem, escondido em algum lugar a bordo da Plataforma de Mana? Ele deu um passo à frente e apertou o peitoral de Teferi, feliz por não ter necessidade de tais acessórios. Os torsos dos seres orgânicos serem baldes gigantescos para seus órgãos era uma falha de design óbvia. "Por favor, fique parado. Não posso arriscar que você se machuque devido a uma armadura mal ajustada."

"Foi fácil demais pensar em você como uma coisa, enquanto assistia você ser construído." Teferi inclinou a cabeça. "Pelo que vale, Karn, peço desculpas por como te tratei no passado."

"Eu aceito suas desculpas."

Uma buzina soou acima do convés, convocando as tropas para a luta.

Teferi começou a correr, e Karn o seguiu para o convés superior. Como a oficina de Jhoira estava localizada na proa, daqui Karn podia ver toda a Plataforma de Mana. Os conveses inferiores pareciam um globo fendido; os dois hemisférios unidos com uma montagem que sustentava as pernas da Plataforma de Mana. Embora Karn não pudesse vê-las de sua posição, ele sabia que elas se prendiam às rochas vermelhas do deserto, fixando a Plataforma de Mana à encosta do penhasco; da mesma forma, o hemisfério distante da popa estava conectado às montanhas de Shiv por uma ponte improvisada. Prédios da cidade surgiam de ambos os conveses. Acima dele, los conveses superiores subiam em direção ao leme, localizado em um afloramento que dava para o hemisfério frontal. Goblins e viashinos desmontavam barracas de comida presas entre os prédios e traziam máquinas de cerco para substituí-las: canhões de mana pendiam das laterais, apontados para o deserto abaixo.

O deserto fervilhava. Os phyrexianos sob a Plataforma de Mana eram tão numerosos que pareciam uma piscina iridescente na luz brilhante de Shiv. Sua superfície ondulou como um mar prestes a ser rompido por uma baleia, encrespou-se e então quebrou-se quando uma monstruosidade imensa surgiu de suas profundezas.

Esta não era mais uma surtida.

Teferi rugiu: "Status dos canhões?"

"Não estão prontos!" gritou uma mulher.

A primeira onda de phyrexianos escalou as laterais da Plataforma de Mana. Os combatentes da Coalizão empurravam suas escadas para trás, cortavam ganchos de escalada e enfiavam lanças nas feras retorcidas.

Um couraçado phyrexiano ergueu-se da horda, semelhante a uma baleia em sua imensidão — apenas que nenhuma baleia que Karn já tivesse visto possuía pernas ou mandíbulas de centopeia. Pedras caíam de seu corpo preto brilhante e pequenas fibras se contorciam para fora de suas placas de armadura como se provassem o ar. Ele avançou pesadamente em direção à Plataforma de Mana, com suas mandíbulas estalando.

"Nove Infernos", murmurou Teferi. "Miram no couraçado — no tórax dele! Esperem até estarem prontos para ativar os canhões."

Jhoira emergiu dos conveses inferiores, com dois tecnólogos humanos em seu encalço. Ela correu para os canhões e se ajoelhou, verificando as conexões finais. Seus assistentes sentaram-se atrás dos canhões, manobrando-os para enfrentar o couraçado. Os canhões acumulavam energia, seus bicos envoltos em energia azul ardente.

Jhoira acenou. "Fogo!"

Arte de: Sidharth Chaturvedi
Arte de: Sidharth Chaturvedi

Os canhões dispararam uma rajada crepitante que atingiu o tórax do phyrexiano, carbonizando o metal e empurrando-o de volta para seu próprio exército. Energia azul queimava entre suas placas de armadura. Jhoira acenou novamente, e os canhões atingiram o couraçado uma segunda vez, rasgando sua armadura enfraquecida. Ele desabou sobre suas próprias tropas, esmagando-as.

"Bem", disse Jhoira, "esses estão funcionando."

Uma sombra passou pelos conveses da Plataforma de Mana. A Bons Ventos sobrevoou, e por um momento, Karn sentiu alívio — até que a viu disparar uma salva contra um grupo de viashinos, dispersando-os.

"Ah não", murmurou ele. Agora, olhando mais de perto, ele podia ver que as bobinas e gavinhas que anteriormente serviam de camuflagem não estavam mais mortas e inertes. Até mesmo sua cabine estava incrustada, sangue e vísceras secos em uma cobertura de aspecto coriáceo sobre o que antes fora vidro brilhante. Os phyrexianos tinham completado a Bons Ventos.

Arte de: Adam Paquette
Arte de: Adam Paquette

A nave desceu baixo, soltando horrores retorcidos de seus conveses — alguns pequenos como gatos, outros pesados e semelhantes a ursos em seu volume, intercalados com os humanos completados. Sheoldred deve estar esperando subjugá-los, pensou Karn, antes que Jhoira terminasse de instalar o mecanismo de autodestruição na Plataforma de Mana. Se esses phyrexianos atacassem Teferi e os viashinos por trás, os canhões ficariam indefesos.

Karn moveu-se para enfrentá-los. Um phyrexiano humanoide saltou do convés da Bons Ventos para a Plataforma de Mana, com uma silhueta estranha porém familiar. Ele caminhou em direção a Karn, com seus braços duplicados erguidos. Seu cabelo pálido, carregado de espigões de metal, estava penteado para trás, e seus olhos gotejavam óleo preto pelas bochechas. Ele abriu a boca em um sorriso direcionado a Karn. "Faz bastante tempo, velho amigo."

Não podia ser — mas era. Ertai.

Karn pensava que ele estivesse morto. Quaisquer que fossem as técnicas que os phyrexianos usaram para revivificá-lo após todos esses séculos, deixaram intacto o que o tornava ele mesmo: como ele posicionava os ombros, como estreitava os olhos para Karn, como flexionava as mãos; esses maneirismos permaneciam os mesmos.

No alto, pontos escuros no azul revelaram-se como dragões, mergulhando em direção à Bons Ventos completada. A aeronave girou e ganhou altitude para enfrentar os dragões, evitando por pouco uma golfada de chama. Darigaaz lançou-se contra o casco da Bons Ventos, agarrando-se à aeronave de modo que ela balançasse no céu. Ele usou as garras traseiras para rasgar os cabos intestinais pendentes da Bons Ventos como um gato estripando um coelho.

Karn enfrentou Ertai.

Ertai abriu seus braços duplicados em uma recepção de deboche. "Faz tanto tempo desde que a Bons Ventos me deixou para morrer. Todos vocês poderiam ter voltado por mim. Mas não voltaram. E agora olhe quem a capitaneia — uma bela reviravolta do destino."

"Não o destino", disse Karn, simplesmente. "O desígnio dela."

"Ela pode achar que você é especial, Karn", disse Ertai, "mas eu sei a verdade. Qualquer coisa que foi construída pode ser desmontada."

Ertai sorriu e desenhou arcos duplos com suas quatro mãos, inscrevendo o ar asfixiado por poeira com magia brilhante. Karn avançou sobre ele, e Ertai, com um movimento rápido dos pulsos, disparou o feitiço para a frente mais rápido do que facas de arremesso. A luz cintilante atingiu Karn. Ele esperava que ela ricocheteasse em seu corpo, repelida pelas cautelosas proteções com as quais Karn se encantara, mas sentiu como se tivesse enferrujado subitamente, suas articulações tornadas repentinamente não funcionais.

"Tive tempo para pensar sobre isso durante meu renascimento", disse Ertai. "Tempo para planejar, para me redesenhar para que eu pudesse lutar contra você."

"O que — você — fez?" Karn rangeu.

Ertai ergueu seus braços duplicados, puxando Karn para o ar como se Karn não pesasse mais do que um pedaço de penugem de dente-de-leão. Aquele aperto se intensificou, espremendo. Se Karn fosse um ser com pulmões, teria desmaiado. Ele cerrou a mandíbula contra aquilo, mas isso não lhe deu alívio da agonia que pulsava através dele, emanando de sua blindagem. Seu corpo de metal fez um som de amassamento, deformando-se sob a pressão. Ertai abriu as mãos, lentamente — dedo por dedo, desdobrando os punhos, mas não soltou Karn.

"Você ficará irreconhecível", disse Ertai. "Belo, e novo."

Gelo floresceu sobre o corpo de Karn, um brilho branco que cobriu seu metal. Ele esfriou. Ele podia sentir le metal se contraindo, estressado pela diferença de temperatura entre o calor do deserto de Shiv e o gelo mágico. Ertai torceu as mãos, em um gesto de espremer, e depois as afastou. A tensão mudou de compressão para um estiramento enquanto Ertai afastava os membros de Karn de seu corpo. Ele estava despedaçando Karn, membro por membro, como uma criança cruel torturando um inseto. As articulações de Karn sofreram torção sob a pressão. O metal cedeu nos ombros e nos joelhos de Karn, as articulações dobradas e dilaceradas.

Como seria morrer?

Karn nunca tinha contemplado isso — não como uma opção realista para ele. A morte era algo que acontecia com outras pessoas, uma tragédia pela qual ele inevitavelmente sobrevivia, e pensava que sempre sobrevivia novamente. Ele não tinha como lutar contra isso, nenhuma maneira de parar Ertai que pudesse imaginar — e a Plataforma de Mana estava sendo invadida.

Ele não gostaria de morrer.

Ertai sorriu. A pressão se intensificou.

Se ele fosse morrer, primeiro protegeria o sylex. Karn buscou nas Eternidades Cegas, no zumbido que ele associava à sua magia, e extraiu partículas do material mais duro que conseguia gerar. Ele visualizou le sylex distante, na oficina de Jhoira. Ele nunca tinha gerado material a tal distância de seu corpo. Mas ele forçou, esperando que desse certo. Ele teceu os filamentos de carbono mais densos que pôde a partir do éter e encerrou o sylex em sua caixa de segurança em titânio. Ele teceu esses filamentos ao redor da caixa de segurança em uma massa impenetrável. Desta distância, exigiu uma vontade tremenda. Ele se concentrou arduamente no ato de criação, em vez da sensação de torção em seu corpo.

Um rugido — como uma escavadeira quebrando pedra.

A Nau Áurea atravessou as montanhas vermelhas de Shiv, agitando pedras em seu rastro, e emparelhou-se com a Plataforma de Mana.

Ajani saltou do convés da Nau Áurea, caindo atrás de Ertai. Em um movimento suave, ele sacou seu machado de lâmina dupla das costas e desferiu um golpe em Ertai. O mago phyrexiano cambaleou para trás, com a concentração quebrada — e com um grito, despencou pela lateral da Plataforma de Mana.

A magia que prendia Karn afrouxou, e ele caiu sobre os pés. Seus joelhos cederam, e ele caiu. Ele estava danificado demais para ficar de pé.

Ajani, com os dentes à mostra, baixou o machado em uma saudação curta. "Retornei para lutar ao seu lado, meu amigo."

Karn, rangendo devido às pressões intensas, inclinou a cabeça. Ele estava feliz por poder fazer ao menos isso: não estava mais em condições de lutar. "E eu fico feliz por isso. Devemos defender a oficina de Jhoira."

"A oficina dela?" perguntou Ajani. "E o leme?"

"Jhoira pode mantê-lo." Karn acenou com a cabeça em direção ao leme, onde ele dava para os conveses, bem no alto e a uma boa distância da luta. "O sylex. O sylex está na oficina dela."

Com um rosnado selvagem em resposta, Ajani virou-se e investiu contra os phyrexianos.

Ganchos de escalada foram lançados da Nau Áurea enquanto ela se aproximava da Plataforma de Mana. Os phyrexianos que ainda escalavam as laterais foram esmagados enquanto a Nau Áurea manobrava para sua posição ao lado da seção da popa da Plataforma de Mana. A tripulação da Nau Áurea lançou pranchas para atravessar a lacuna, e Jaya liderou o ataque, seguida por Danitha Capashen nas cores de sua casa e Radha com o grito de guerra de seu povo nos lábios. Guerreiros keldonianos e cavaleiros benalitas jorraram da Nau Áurea para os conveses da Plataforma de Mana. Eles investiram contra os phyrexianos com suas lâminas maciças, fendendo as criaturas em peças de reposição.

Arte de: Zoltan Boros
Arte de: Zoltan Boros

Jaya ergueu uma cortina de chamas e a arrastou pelos conveses, encurralando os phyrexianos em direção à Nau Áurea e suas tropas. "Karn! Como você gosta que seus pesadelos interplanares sejam cozidos?"

"Eu não necessito de sustento nutricional", disse Karn.

Ela revirou os olhos e desenhou arcos de fogo. "Sou mal compreendida no meu tempo." A chama escarlate girava ao redor dela como lâminas, cortando as monstruosidades phyrexianas. She ergueu a mão, com os dedos em garra pelo esforço, e eletricidade começou a coalescer ao seu redor. Com um grande estrondo, um relâmpago percorreu as fileiras inimigas. Aparentemente, Karn estava encarando; quando ela se virou para ele em seguida, sorriu. "O quê? Aprendi alguns truques novos."

Atrás deles, sobre a borda da Plataforma de Mana, uma forma viridiana vasta e polida surgiu das areias do deserto lá embaixo. Aquele rosto, aqueles chifres ramificados — Karn os conhecia bem demais. Sheoldred, afixada agora a algum constructo de pesadelo das antigas guerras de Dominária. Isso trazia seu pequeno torso humano ao nível da Plataforma de Mana.

"Karn." Quando Sheoldred falou, todo o seu corpo ressoou e sua voz preencheu o campo de batalha, melodiosa, com harmônicos estranhos. "Você tem o sylex para mim."

O plano de Karn de usar o sylex para atrair Sheoldred tinha funcionado.

"Jaya, vá para a oficina e pegue o sylex", disse Ajani. "Devemos levá-lo embora."

Jaya assentiu. Cobrindo sua própria retirada com clarões de fogo, ela recuou para a oficina. Ajani e Teferi flanquearam a porta.

Sheoldred avançou, não tanto caminhando com suas muitas pernas, mas nadando através de seu exército, recolhendo monstruosidades em seu corpo e incorporando-as a si mesma enquanto avançava. Ela se aproximou da Plataforma de Mana pela lateral. O fogo dos canhões chovia contra sua carcaça de ferro, mas escorria de seu corpo. Não a causava danos.

Estaria ela indo para a junção entre as seções da Plataforma de Mana?

Mas Sheoldred abriu as mandíbulas em seu corpo de máquina de guerra dragão e bateu o peito contra a seção da proa da Plataforma de Mana como um aríete. O baque ressoou por toda a Plataforma de Mana. Do casco, o metal rangia no metal, com as vibrações viajando por toda a plataforma. Ela estendeu as pernas para o exército phyrexiano. Suas fibras contorcidas se retraíram para dentro de si enquanto seu exército fervilhava sobre seu corpo, usando suas pernas como escadas e seu corpo de máquina de guerra dragão como uma rampa para o convés superior da Plataforma de Mana.

Karn agachou-se em frente à porta da oficina. Por que Jaya ainda não tinha transplanado com o sylex? Os dedos danificados de Karn estavam dobrados demais para ele fechar os punhos, então ele esmagava phyrexianos entre as palmas das mãos, ciente dos dois Planeswalkers lutando atrás dele. Ele tinha que proteger Ajani e Teferi o melhor que pudesse. Ele não podia deixar de admirar como Teferi lutava: não apenas com a determinação de um Planeswalker, mas com a de um pai. Ele era um homem que decidira salvar o plano de sua filha, e o seu próprio. No entanto, mesmo enquanto Karn jogava para o lado uma monstruosidade que parecia um amálgama de humano, cavalo e lula, ele também permanecia consciente de Ajani. Ele tinha que ficar avançado o suficiente para se manter livre dos golpes em arco de Ajani. Ajani conseguia girar aquele machado de duas cabeças e varrer metal e carne da mesma forma, tão suavemente que levava um momento para os phyrexianos considerarem o que, exatamente, estava errado antes de se desfazerem. Da retaguarda do exército phyrexiano, surgiram reforços — não que eles precisassem deles, pensou Karn: mais dois couraçados. Imensas placas de metal cobriam seus cabos, órgãos pulsantes e carne, eriçadas com espigões grandes o suficiente para atravessar três pessoas. Os couraçados avançavam pesadamente sobre suas pernas robustas.

"Nove Infernos ", respirou Teferi, atrás de Karn. Ele berrou: "Preparem os canhões!"

"Não sei como sairemos vitoriosos disso", disse Ajani.

No horizonte, uma sombra se aprofundou — uma linha de verde repentina e imponente. Quase parecia para Karn a borda de uma floresta.

No alto, Darigaaz liderou seus dragões em um mergulho giratório contra os couraçados. Darigaaz chocou sua massa contra um deles e começou a despedaçá-lo, placa por placa. A Bons Ventos girou em perseguição, suas velas semelhantes a asas de morcego destras nos ventos de Shiv, fustigando os dragões com rajadas de luz verde doentia.

A Plataforma de Mana estremeceu e depois vibrou. Karn podia sentir a pedra do coração em seu núcleo zumbir em resposta, um chamado e resposta, como o início de um dueto. Jhoira devia ter completado seu trabalho, e ela acordara a Plataforma de Mana. Ela se ergueu: lenta, inexorável.

Todos no convés — até mesmo os phyrexianos — pararam de lutar para recuperar o equilíbrio, balançando enquanto a Plataforma de Mana se erguia sobre seus pés. Karn podia sentir seu corpo pressionar com mais força contra o convés, o fluxo de ar rangendo através de suas articulações danificadas, limpo e quente em comparação com a sujeira da batalha. Aquilo doía em sua blindagem de metal deformada. Os restos da ponte que conectava a Plataforma de Mana ao deserto se romperam. As mandíbulas de Sheoldred ranhuraram o comprimento da Plataforma de Mana, e Karn pôde sentir toda a estrutura cambalear quando ela perdeu o controle sobre seu casco.

A Plataforma de Mana estava livre.

Sheoldred inclinou-se, com seu equilíbrio perturbado.

A Plataforma de Mana caminhou para a frente pela paisagem rochosa do deserto, não de forma graciosa, mas eficiente, bem equilibrada, esmagando phyrexianos sob si. Ela recolhia rochas enquanto avançava e jorrava lava derretida sobre o exército phyrexiano fervilhante. Karn não conseguia ver os detalhes, mas podia ver os resultados: massas definhando, encolhendo enquanto queimavam, logo submersas sob ondas espessas de rocha derretida.

O exército phyrexiano começou a recuar — mas a nuvem escura que Karn avistara no horizonte revelara-se como folhagem e árvores: fileira após fileira de Magnigotes marchavam para a frente, escurecendo os desertos de Shiv com suas sombras frescas e folhagem verdejante. A lava da Plataforma de Mana empurrava os phyrexianos para baixo dos galhos dos Magnigotes. Os Magnigotes investiam contra eles — e elfos de Yavimaya, vibrantes como bromélias sobre os membros dos Magnigotes, faziam chover flechas sobre as monstruosidades abaixo.

Um kavu voador deslizou para o convés, e Jodah saltou de suas costas. Uma elfa de pele pálida e manchas nas bochechas caiu logo depois dele. Meria. Jodah tinha falado dela para ele. "Tantos Planeswalkers", disse ela. "É uma honra lutar ao lado de todos vocês. E a Plataforma de Mana é ainda maior do que eu imaginava!"

Por todo o convés, mais kavus deslizantes desciam, com elfos de Yavimaya em suas costas. A luta reacendeu enquanto os elfos de Yavimaya investiam contra os phyrexianos, atravessando-os com lanças e libertando os defensores sitiados. Jodah ergueu uma luz branca abrasadora, envolvendo os canhões e seus operadores em escudos protetores para ganhar o tempo de que precisavam para operar suas armas. Canhões atingiam os phyrexianos maiores, nocauteando-os antes que pudessem tentar romper as defesas da Plataforma de Mana. Meria colocou-se ao lado de Radha e Danitha, coordenando suas tropas de modo que os arqueiros de Yavimaya se posicionassem atrás dos guerreiros benalitas e keldonianos. Ondas de flechas arqueavam sobre os keldonianos e benalitas, cravejando as monstruosidades que se apresentavam.

"Estamos salvos", murmurou Teferi.

Pelo tom de sua voz, he não tinha achado que o alívio fosse possível. Nem Karn.

Jaya emergiu da oficina de Jhoira, saindo para o espaço entre Teferi e Ajani. Em seus braços, ela segurava o bloco de titânio que Karn gerara ao redor do sylex. Seus dentes estavam cerrados enquanto ela o carregava para fora. Não tinha ocorrido a Karn que um objeto daquele tamanho e peso pudesse ser difícil para um humano manobrar.

"Não consigo levá-lo através das Eternidades Cegas sozinha", admitiu Jaya. "É pesado demais para eu transplanar com ele."

Karn assentiu. Ele passou as mãos curvadas sobre o invólucro, removendo sua cobertura metálica protetora. Então ele acenou novamente, e la arca sem fechadura se abriu. O sylex brilhava em sua caixa. Ele sozinho seria leve o suficiente para Jaya carregar.

"Finalmente." A voz de Ajani soou distorcida, não com o rosnado da sede de sangue, mas mecânica.

Karn virou-se para seu amigo.

Ajani mostrou os dentes em uma careta de agonia. Ele abaixou as orelhas e fechou seu olho bom. Sua pele ondulava, como se vermes rastejassem sob a superfície de seu pelo.

Jaya fez um ruído de incredulidade. Teferi deu um passo à frente. Não — Ajani não podia estar —

O olho bom de Ajani arregalou-se de horror. Ele balançou a cabeça em negação e articulou não, não, não segurando seus próprios braços como se pudesse conter as fibras phyrexianas sob sua pele e impedi-las de emergir. Mas elas incharam, rasgando músculos e pelos, para revelar uma musculatura phyrexiana elegante e densa que tinha sido instalada sob a sua própria.

Arte de: Victor Adame Minguez
Arte de: Victor Adame Minguez

Ajani tinha sido completado. Ele era o espião, le traidor. Ele os traíra para Sheoldred.

Jaya apertou o sylex protetoramente contra o peito. Ainda atordoada, ela deu um passo para trás, recuando em direção à oficina. Fogo brilhou ao seu redor, cercando-a. Esse movimento pareceu desencadear Ajani. Ele ergueu o machado e o enterrou no corpo dela. As costas de Jaya se arquearam, e sua boca se abriu de dor. Ela caiu.

Teferi ergueu as mãos, sua magia retardando o ataque de Ajani. Karn investiu contra o leonin, colocando-se na frente de Jaya, esperando que alguém, qualquer um, pudesse lançar um feitiço de cura sobre seu corpo prostrado. Ajani desferiu o machado no torso de Karn. Karn esperava que a lâmina deslizasse de seu corpo de metal, mas ela o cortou profundamente, como se ele não passasse de carne. A dor irradiou do ferimento. Karn agarrou o cabo do machado e tentou arrancá-lo, mas a lâmina tinha se encravado nele. Ajani passou por ele sem esforço, com Teferi exausto demais para retardá-lo por mais tempo.

"Sheoldred calculou bem sua força." A voz mecânica que emanava da garganta de Ajani não se parecia em nada com seu rosnado habitual. "O sylex e Karn: dois dos artefatos que a Sussurrante desejava obter em Dominária."

"Você — teria — que — me matar", ofegou Jaya, "antes que eu deixasse você —"

"Sim", disse Ajani, simplesmente, erguendo-a no ar com uma das mãos. "Você está morrendo."

Jaya tossiu. "Talvez. Mas não sozinha." Fogo jorrou para fora do corpo de Jaya, uma conflagração branca e escarlate; Ajani rosnou e inclinou-se para trás, seu pelo queimando para revelar fios e cabos enegrecidos sob a pele, com o ar enchendo-se com o fedor de óleo carbonizado. Com um empurrão de sua mão arruinada, ele arremessou Jaya pela borda da Plataforma de Mana.

Arte de: Ekaterina Burmak
Arte de: Ekaterina Burmak

Teferi arquejou. Jodah soltou um grito frágil.

Karn tentou remover o machado de Ajani de seu corpo, mas suas articulações danificadas dobraram-se sob a pressão e a lâmina não se moveu. O sylex estava tão perto — bem na sua frente, onde Jaya o deixara cair. Ele a vingaria, ele iria — mas Ajani estava certo: Sheoldred calculara sua força perfeitamente. Talvez ele tivesse entregado mais de si mesmo nas Cavernas de Koilos do que imaginava. Ajani colocou o braço ao redor de Karn em uma paródia de amizade, puxando Karn para si. Com a outra mão, ele ergueu o sylex — e o esmagou em sua mão, como se o antigo artefato não fosse feito de nada mais do que papel. Karn só pôde assistir com horror enquanto as runas intrincadas que revestiam o dispositivo brilharam brevemente e depois morreram.

Sheoldred chocou-se contra a Plataforma de Mana, interrompendo seu avanço e espremendo-a entre si mesma e uma montanha; o impacto ecoou por todo o casco do enorme artefato. A maré da batalha virou mais uma vez enquanto phyrexianos desciam da encosta da montanha para os conveses. Benalitas, keldonianos, elfos de Yavimaya, goblins, humanos e viashinos agora lutavam, sob forte pressão.

Karn lutava contra o aperto de Ajani. Jodah e Teferi assistiam atordoados. Tudo acontecera em questão de segundos.

Sheoldred dividiu-se, sua pequena metade humanoide separando-se de seu enorme corpo hospedeiro de máquina de guerra dragão, revelando uma coluna vertebral serpentina que ela usava para sua inserção em seu corpo hospedeiro maior. Sua parte humanoide deslizou por seu enorme torso e mergulhou nos conveses da Plataforma de Mana. Ela moveu-se em direção aos Planeswalkers. Seu elmo com chifres dobrou-se para trás — não mostrava as vísceras e o metal que Karn esperava, mas sim uma pele pálida. Sheoldred revelou um nariz fino, lábios cheios e grandes olhos escuros e tristes, como os de uma corça. Sem dúvida, ela colhera seu rosto de alguma pobre mulher, morta há muito tempo.

Ela pressionou uma mão pequena e pálida no peito de Karn. "Eu tenho a Plataforma de Mana. Eu tenho você. Dominária está vulnerável à invasão. Todas as maravilhas do meu povo se tornarão suas maravilhas. Toda a nossa beleza se tornará a sua beleza. Existe apenas uma verdade. O próximo passo na evolução será completado."

Por todo o campo de batalha, os phyrexianos murmuraram: "Existe apenas uma verdade." O murmúrio surgiu das fileiras, mais suave que um vento vindo de bocas distorcidas, e muito mais sinistro.

"Não aconteceu como eu planejei, Karn, graças aos seus esforços." She agarrou a corrente no pescoço de Karn que segurava seu dispositivo de vidência, localizador e o aparelho que ele usara para se comunicar com a Bons Ventos. "Não, isso é melhor. Eu tenho um plano, Karn. Um plano para você — e para Dominária. Para todos os planos."

"Acho que você vai ficar decepcionada", as palavras de Jhoira ressoaram, amplificadas pela estrutura da plataforma, "porque você não conseguirá o que quer hoje." Uma longa pausa — como se Jhoira tivesse que se forçar a fazer o que sabia ser o certo. Mas Karn acreditava nela. Então, um tique-taque sinistro emanou da estrutura central da Plataforma de Mana. Jhoira acionara o mecanismo de autodestruição da Plataforma de Mana.

A Nau Áurea desgarrou-se, correndo para as areias.

"Jodah", gritou Jhoira, "teletransporte todos para fora daqui por portais! Agora!"

Jodah ergueu-se com esforço. Ao redor dos conveses da Plataforma de Mana, portais surgiram girando, engolindo as tropas próximas. Os soldados boquiabertos que não foram sugados foram empurrados por amigos mais rápidos em entender o que estava prestes a acontecer. Jodah abriu um portal e lançou Danitha, Radha e Meria nele, movendo-as para um local seguro, longe do raio da explosão. Ele até garantiu que o precioso kavu de Meria não fosse deixado para trás, envolvendo-o em um portal giratório. Por último, Jodah olhou para Karn. Com os olhos brilhando de arrependimento, ele recuou através de seu portal final.

Os conveses ficaram sinistramente silenciosos: Sheoldred com seu rosto roubado impassível, Ajani controlado, seu braço uma ruína esquelética e carbonizada onde Jaya o queimara.

Karn esperou.

"Adquiri os alvos. Estou pronta para retornar." Sheoldred exalou — Karn não saberia dizer se ela suspirou de decepção ou satisfação — e uma luz escarlate, a princípio apenas do tamanho de uma conta, materializou-se no ar atrás dela. Relâmpagos a atravessavam enquanto aquela luz se expandia em um globo escarlate brilhante e giratório. Ele rugia com poder, consumindo o ar e o ambiente ao seu redor. Cresceu em direção a eles, roendo a atmosfera.

Sheoldred inclinou a cabeça e tocou o rosto. "Que pena. Eu gostava deste aqui."

Karn lutou contra o aperto de Ajani, mas entre seu corpo danificado e a força aprimorada de Ajani, he não conseguiu se libertar. A luz vermelha feia envolveu Sheoldred. Ela virou o rosto para o seu poder com um pequeno arquejo enquanto ele a lavava. Seu clarão queimou sobre Ajani e Karn. Abrasadoramente quente, Karn pôde sentir como ele o puxava, a própria essência do que o tornava Karn, e ele o roubou.

Como se ele não fosse nada mais do que um artefato. O objeto de um roubo.


Enquanto a noite esfriava o ar do deserto, Jhoira e Teferi terminaram de coordenar os sobreviventes: ele montara as tendas de triagem, ela posicionara as poucas reservas aptas para vasculhar o campo de batalha em busca de sobreviventes e queimar os mortos phyrexianos, e então ambos trabalharam com os civis goblins e viashinos — houvera alguns que se recusaram a deixar suas casas e evacuar — para inventariar suprimentos, montar o acampamento sob os galhos protetores dos Magnigotes e garantir que todos fossem alimentados de acordo com sua necessidade.

Ambos estavam exaustos.

Falar com Jodah Depois de tudo aquilo, Teferi não sabia se tinha forças.

Mas ele as convocou de alguma reserva profunda. Era lo que Niambi gostaria que ele fizesse.

Jodah ajoelhou-se em um afloramento, com os olhos secos, observando a devastação do campo de batalha: as tropas escolhendo entre os sobreviventes, dispersando abutres; os bancos de lava preta, fumegando na noite que se aprofundava. Ele segurava, acalentado em suas mãos, o colar de Karn: o vidente, o localizador phyrexiano, o comunicador da Bons Ventos — e uma mecha do cabelo branco de Jaya.

"Venha." Teferi agachou-se ao lado dele. "Você precisa comer e dormir."

Jodah abriu a parte de trás do vidente e colocou o cabelo de Jaya nele como um medalhão. "Não consigo deixá-la ir. Acabei de tê-la de volta. Ela não pode ter partido. Não ainda. Eu a conheci através de vidas inteiras, e ainda assim não tivemos tempo suficiente juntos."

Teferi sentiu um vasto vazio dentro de si: não tinha energia suficiente para sentir dor. Ele reconhecia isso bem — ele mantivera esse entorpecimento depois que Subira morrera. Levou anos para que as arestas se desgastassem, para revelar crueza suficiente para que ele pudesse sofrer. Ele a pranteou por muito tempo. Sempre o faria. She'd been the love of his life, and the mother of his child.

Jhoira juntou-se a eles, com suas botas rangendo pelo cascalho. "Ainda temos amigos vivos que precisam de nós, Jodah. Quais são os planos de Sheoldred? O que ela fará com Karn e Ajani?"

"Não sei", disse Jodah. "Como podemos combatê-los sem o sylex?"

Jhoira sentou-se ao lado de Jodah, de pernas cruzadas, e colocou o braço em volta dos ombros de Jodah.

Teferi contemplou a paisagem. "Construiremos para Jaya um memorial que durará eras. Suas forças, suas conquistas, suas maravilhas não serão esquecidas. Shiv se tornará um local de peregrinação."

Jodah apenas balançou a cabeça.

"Vou ficar com ele", disse Jhoira.


As pedras erguiam-se das areias vermelhas de Shiv, um arranjo de pirâmides brancas ao redor de um fogo eterno que pairava no ar. O próprio Jodah lançara aquele feitiço. Na luz certa, quando os ventos de Shiv o atingiam, a chama assemelhava-se a uma mulher virando-se para esconder seu sorriso de deboche, seu cabelo pálido fluindo para o nada.

Danitha, Radha e Meria retornaram às suas terras natais para que suas forças devastadas pudessem se recuperar, e para que pudessem recrutar mais tropas para o inevitável retorno phyrexiano. Jodah, Teferi e Jhoira permaneceram para construir isto: um monumento para Jaya.

Teferi sentiria falta dela.

"Jaya e eu nos conhecemos quando ela era " Jodah apertou a ponta do nariz e fechou os olhos como se para esconder seu brilho. Ele engoliu em seco. "Dominária perdeu uma maga — os reinos perderam — eu perdi — sinto muito."

Jhoira descansou a mão no ombro de Jodah, e Jodah inclinou-se naquela velha familiaridade.

"Nunca pensei que teria que fazer isso", disse Jodah finalmente.

Teferi limpou a garganta, mas não falou. Ele apenas balançou a cabeça, incapaz de expressar em palavras o quanto sentiria falta de sua perspicácia, do humor que ela trazia para tarefas tão sérias. Jaya não conseguia salvar um plano sem fazer uma piada sobre isso. Ele imbuíra memórias dela em uma das pirâmides de pedra: sua paciência ao ensinar Chandra, como ela sorria pouco antes de dizer algo realmente cortante, e como eles se conheceram. Ele nunca esqueceria o dia em Zhalfir quando a confundira com uma cozinheira e pedira a ela um ovo frito. Ela, sorrindo, fora para trás do balcão para atender e acendera todos os bicos com um estalar de dedos — para surpresa do verdadeiro dono da barraca. "Você quer um pouco de chutney com isso?" Ele nunca a esqueceria.

Teferi caminhou em círculo ao redor do monumento. Suor brotou em sua pele, e ele limpou as gotas na testa. Ele parou para tocar a pirâmide vazia que haviam deixado para Karn para instilar com suas memórias de Jaya se ele — não, assim que ele retornasse.

Teferi endireitou os ombros. Saheeli esperava a uma distância respeitosa, suas roupas em tons de joias tremulando ao vento, os detalhes em dourado brilhando, sua pele morena polida e seu cabelo preto caindo. Ao seu aceno de estou pronto, ela se virou e eles partiram juntos.


Quando Teferi passou pela grade, teve que suprimir um calafrio. Eles tinham chegado — a torre de Urza. Era mais do que a laje gasta emanando o frio da noite anterior. Ele nunca pensou que pisaria neste lugar novamente.

Saheeli o levou a um antigo salão com teto em abóbada de berço ainda intacto, bem protegido do sol. Ela apoiou a mão em seu dispositivo, que Teferi usaria para aumentar a força e a precisão de sua magia. Ele não estava ansioso para subir nele: com sua plataforma, suas tiras de couro e fios, assemelhava-se a um dispositivo encontrado em uma masmorra para extrair confissões, não a um item mágico feito para realçar os talentos inatos de um Planeswalker.

Embora a placa de argila que Karn encontrara nas Cavernas de Koilos tivesse sido perdida, seus desenhos não foram. Jaya os pegara quando pegara o sylex. Mas, ao contrário do sylex, os desenhos permaneceram no corpo de Jaya, escondidos em um bolso secreto em suas roupas.

Saheeli não fora capaz de determinar como eles descreviam o funcionamento do sylex. Apenas Karn descobrira isso. Mas ela fora capaz de determinar quando o sylex fora disparado — e fizera uma réplica perfeita por conta própria.

Então, esta era agora a missão de Teferi: retornar ao quando para aprender o que Karn já havia determinado: o como. Como se ativava isso?

"Boa sorte, Teferi", disse Saheeli. "Pelo bem de todos nós."

Ele se forçou a relaxar. Um pequeno pássaro canoro marrom pousou em uma janela em arco e depois desceu ao chão para se banhar na poeira. Karn teria conhecido sua espécie, seus hábitos.

Para salvar seu lar, para salvar o Multiverso, Teferi faria a única coisa que jurara nunca fazer: atravessar o próprio tempo.


A luz vermelha da Ponte Planar desapareceu. Karn percebeu, pelos guinchos ecoando na escuridão, que estava em uma vasta caverna. Ele podia sentir depósitos minerais, o peso das estalactites de quartzo acima, e podia cheirar a pedra fria e úmida. Ele se sentia doente — errado — como se a passagem turbulenta pelas Eternidades Cegas tivesse coberto sua superfície de metal com uma película impura. Ele se ajoelhou, seu corpo amassado ainda doendo da batalha no convés da Plataforma de Mana. Ele esperava que os outros, Jodah, Jhoira, Teferi, tivessem se saído melhor do que ele, e Jaya não, melhor não pensar nisso. Não até que pudesse pranteá-la.

Luz branca brilhou, sobrecarregando seus sentidos. Os ruídos de guinchos pararam.

Elesh Norn estava diante dele, brilhando como se abrigasse uma estrela. Seus membros atenuados tinham uma delicadeza insetoide, e seu rosto comprido tinha a beleza de um artrópode. Seu sorriso era estreito e satisfeito consigo mesma, mesmo enquanto fazia uma reverência servil em sua direção.

"Bem-vindo, Pai." A voz de Elesh Norn era um contralto gutural e agradável. "Bem-vindo ao lar."

Karn procurou por Ajani e Sheoldred. Ele vira a Ponte Planar envolver a pretora, assim como seu amigo completado, mas não viu sinal deles aqui. Ela deve tê-los depositado em outro lugar. Apenas ele e Elesh Norn estavam sobre este platô, amontoado com dunas de areia branca de porcelana. Abaixo do platô, phyrexianos insetoides fervilhavam em uma massa brilhante de ouro branco.

Norn agarrou seu queixo, forçando sua atenção de volta para ela. "Você esteve longe por tempo demais", sibilou ela. "Sentimos sua falta. Você merece compartilhar a glória do que está por vir."

Karn tentou se levantar, mas descobriu que não conseguia mover as pernas. Ele tentou invocar sua centelha, para se transportar para algum lugar, qualquer lugar, mas estava quebrado demais, cansado demais. As garras de Norn cravaram-se no metal de suas bochechas, virando sua cabeça. Seu pescoço reclamou até mesmo daquele movimento, com as articulações rangendo — e então ele viu. Uma pequena muda atrofiada crescendo na areia de porcelana. Seus galhos retorcidos e delicados lembravam-lhe as pequenas árvores que via acima da linha das árvores nas montanhas. Seus membros pálidos brilhavam com um fulgor iridescente. Gotas de óleo pendiam de seus ramos como brotos.

Mesmo agora, neste inferno, cercado por monstros, ele não pôde deixar de sentir uma ternura por aquela árvore. Um ser vivo, lutando contra todas as probabilidades para sobreviver. "O que é isso?"

Norn olhou maliciosamente para ele, suas fileiras e fileiras de dentes abertas em um ricto de deboche. "É o começo de grandes coisas, Pai. É o começo de tudo."